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Segundo Perrenoud (2000), nada é completo, consensual e estável quando se trata das competências de um profissional, assim também o é quanto à capacidade para ensinar, inerente ao professor. O autor lista 10 competências que julga imprescindíveis à docência. Dentre elas: a capacidade de organizar e dirigir situações de aprendizagem; administrar o avanço destas aprendizagens; conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação; envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho; trabalhar em equipe; participar da administração da escola; informar e envolver os pais; utilizar novas tecnologias; enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão; administrar sua própria formação contínua.

Não obstante a isso, é do conhecimento de todos que a formação inicial dos professores é insuficiente para instrumentalizá-los eficientemente para o exercício da docência. Assim, Perrenoud (2000) compreende que estas competências não são saberes ou atitudes, mas são parte imprescindível da capacidade de mobilizar e reger os recursos cognitivos que permitirão ao professor resolver as diversas situações que se apresentarão ao longo de sua carreira.

Para Placco (2002), muito se discute a formação do professor quanto às temáticas pontuais, considerando-se aspectos do desenvolvimento da criança e do adolescente, de sua aprendizagem, aspectos afetivos e emocionais da aprendizagem, técnicas didáticas e assuntos pedagógicos dos mais variados, porém, para a autora, também é necessário que se fale do preparo que o docente precisa para lidar com as relações pessoais, interpessoais e sociais que se estabelecem em sala.

Para a autora, é preciso pensar nos dois aspectos, o pedagógico que dá ênfase aos conteúdos e aprendizagens e o interpessoal, que dá ênfase a pessoas, suas necessidades, seu lado afetivo, sua necessidade de aceitação, cumplicidade e solidariedade. Mesmo que se reconheça que no cotidiano escolar as ações pedagógicas e as relações professor-aluno são fragmentadas, não é possível que ocorra transformação do sujeito aprendente sem que haja uma sincronia entre pessoal, interpessoal, social, cognitivo e afetivo. Ou seja, na relação professor aluno, um interfere no outro, transformando-se mutuamente.

Para isso, uma das necessidades mais acentuadas que a formação docente tem é a do auto-conhecimento. Espírito Santo (2007) convida a refletir um pouco sobre a noção de auto-conhecimento que, na verdade, é o conhecimento de “si mesmo”, o processo de individualização. Neste percurso para a obtenção do auto-conhecimento, cabe ao indivíduo perceber que há uma permanente transformação no Universo, o que também ocorre com o corpo físico que se modifica e é constantemente marcado com o passar do tempo, sobre o quê nada se pode fazer.

Segundo o autor, os seres humanos estão envolvidos em dois tipos de tempo: o tempo real, ou do relógio, denominado pelos gregos de crhonos, e o outro tempo também conhecido pelos gregos – o tempo absoluto, chamado Kairós – que é o tempo da consciência. Assim, o tempo do relógio passa furtivamente e sem que nada se possa modificar, mas o tempo absoluto é o que torna conscientes as transformações interiores pelas quais passa o indivíduo e que o capacita para realizar uma autotransformação. Somente na medida em que esta consciência transformadora vai evoluindo é que o homem aprende a utilizar suas capacidades e, conseqüentemente, passa a ter autoconhecimento.

O sistema educacional vivencia, atualmente, uma série de tensões que nada mais são do que o reflexo de todas as mudanças ocorridas na sociedade contemporânea, em que as exigências e transformações são rápidas e contínuas e, formar novas gerações, torna-se cada vez mais um desafio a ser vencido.

É um desafio constante para o professor lidar com as pressões sobre o ensino e com a crise de confiança e de identidade profissional pela qual passa o magistério. Para Soares

(2006), tanto a confiança quanto a identidade do professor estão diretamente relacionados, pois a confiança confere segurança às ações do docente e reduz a ansiedade, permitindo que seu trabalho seja equilibrado e inovador.

Neste sentido, a referida autora reflete que existe uma paulatina perda de confiança por parte da sociedade que, por sua vez, provoca perda de credibilidade “[...] no que diz respeito às relações interpessoais e às próprias instituições”. (SOARES apud TROMAN, 2000).

Esta desconfiança se estende a todos os que trabalham na escola, principalmente aos docentes que são os que atuam diretamente com os alunos e que, portanto, necessitam mais que ninguém desta confiança. Não há como conquistar espaço em relações interpessoais tão diretas sem a confiança e tão pouco como ter auto-estima profissional sem a possibilidade de relacionar-se bem.

A relação interpessoal entre professor e aluno precisa ser segura, tranquila e produzir satisfação. Desta relação satisfatória resultará a ambos o sentimento de pertencimento e de valorização sem os quais se reduzirão os vínculos entre as partes e, consequentemente, iniciar-se-á uma seqüência de relações conflituosas e a competência do docente tenderá a ser questionada.

O autoconhecimento de que fala Espírito Santo (2007) é o caminho para que o docente mantenha-se nesta seqüência de atitudes, ou seja, trabalhe sempre no sentido de manter-se com elevada estima e com competência e habilidade de negociação, persuasão e inovação, pois só assim haverá confiança e credibilidade para estabelecer uma relação produtiva e satisfatória com toda a comunidade escolar.

Para que o professor alcance tais objetivos em sua carreira profissional, é necessário que haja uma preocupação constante com seu preparo. A graduação oferece uma pequena introdução à sua formação, mas cotidianamente ele precisa alimentar esta capacidade. É preciso ser um pesquisador obstinado, curioso e perspicaz para transformar suas aulas em incentivo ao aprendizado dos alunos.

Demo (2007) conclui que é preciso e possível educar pela pesquisa e salienta que esta forma de educar tem como premissa que o educador seja pesquisador, ou seja, utilize a pesquisa como instrumento principal do processo educacional e que o faça cotidianamente. Essa forma de educar vem modificar a concepção de professor como um perito em dar aulas, pois a cópia e a reprodução sem sentido são inócuas. Nesse sentido o aluno passa a ser parceiro do trabalho do professor, o que certamente não é tarefa fácil.

Não se pretende que o professor seja um pesquisador profissional, mesmo porque na educação básica não se aplica tal tendência. Para isso, Demo (2007) afirma que o trabalho docente consiste em estabelecer uma relação entre os sujeitos, no caso o aluno, de tal forma que haja uma participação de todos em igual medida, cuja finalidade maior é levar ao questionamento e à busca de respostas sobre o que se estuda.

Ainda segundo o autor, para que se concretize tal proposta é necessária a recuperação da competência do professor, visto que o mesmo se encontra vitimizado por inúmeras circunstâncias que vão desde a sua formação original, passam pelas dificuldades de adequada formação permanente e vão até a desvalorização profissional extrema, principalmente na educação básica.

Para o alcance da aplicação desta proposta de educar pela pesquisa, há quatro pressupostos descritos por Demo (2007, p. 5).

- A convicção de que a educação pela pesquisa é a especificidade mais própria da educação escolar e acadêmica.

- O reconhecimento de que o questionamento construtivo com qualidade formal e política é o cerne do processo de pesquisa.

- A necessidade de fazer da pesquisa atitude cotidiana no professor e no aluno. - E a definição de educação como processo de formação da competência humana.

Para o autor, através da pesquisa que se pode diferenciar a educação escolar da educação familiar e da educação oferecida em outros espaços educativos, pois é na escola que se encontra a possibilidade de fazer-se e refazer-se na e pela pesquisa. Para isso, é essencial que se tenha competência e preparo, cunhados principalmente pelo conhecimento inovador.

Do docente sempre se espera uma enorme vontade de acertar, porém a mesma deve ser acompanhada de criatividade e subsidiada pelo conhecimento formal. Mesmo que este conhecimento seja apenas um meio, necessitando ainda orientar-se pela ética dos fins e valores para ser considerado educativo (DEMO, 2007, p. 6).

Tedesco (1997) concorda com esta observação e declara que não é mais possível continuar o já saturado discurso de que o docente é uma vítima do sistema e o culpado dos maus resultados da educação. É preciso sair desse círculo vicioso das acusações, pois para ele não há vítimas ou culpados. É necessário a todos não só melhores salários, melhores condições de trabalho, melhores materiais didáticos, mas sim a ampliação da discussão de como oportunizar que o professor aprenda a aprender.

Ainda para o autor, este aprender a aprender não só modifica o foco da discussão, mas propõe uma transformação relevante nas metodologias de ensino e no papel do docente

que implica em ter amplas possibilidades de contatos com outros docentes, que sejam condutores, modelos e pontos de referência do processo de aprendizagem. Mesmo sendo o aluno o personagem principal deste processo, o seu desempenho só será satisfatório se houver um condutor experiente e um propício ambiente de contínuos estímulos.

É na pesquisa que se aliarão a prática e a teoria que auxiliarão no processo de formação do sujeito crítico e criativo, ensinando que o conhecimento pode ser uma arma muito poderosa para o alcance da inovação (DEMO, 2007, p. 7).

O mesmo autor salienta que não há mais espaço para aulas que repassem conhecimentos ou que sejam meras repetições ou cópias, o que segundo ele pode ser classificado como uma escola equivocada, pois só servirá de local de treinamento. Se as propostas curriculares são tão claras em seus objetivos de promover uma educação cidadã, valorizando o que as crianças têm em comum com os filósofos: a curiosidade, o deslumbramento pelo mundo e o constante questionamento, por que não aproveitar a sua busca incessante e preparar-lhes para a pesquisa?

Cunha (2005) nos fala da importância do ensino da filosofia para crianças, que nada mais é do que ensiná-las a pensar, refletir e exteriorizar seus pensamentos. Teles (2007) salienta que da forma como a escola está organizada, em que a criança recebe caminhos, respostas prontas, regras mecanizadas, haverá uma perda gradativa do “brilho no olhar” das crianças, pois paulatinamente elas são enquadradas nesse sistema de aulas e se tornam apáticas, deixando o natural deslumbramento pelo mundo, de lado.

Num ambiente que privilegie o questionamento e que incite a busca por respostas, certamente a aprendizagem se fará de forma mais natural e concreta, e o professor terá ao mesmo tempo ensinado e aprendido. Quanto a isso, Demo (2007) diz que só haverá um real contato pedagógico, ou seja, o professor somente alcançará o seu aluno, quando obtiver dele um questionamento reconstrutivo.

Quanto ao desenvolvimento do hábito de pesquisar, o autor acrescenta que se faz necessário compreender que pesquisar não se restringe a momentos de acumulação de dados, leituras, elaboração de materiais e experimentos, que não passam de insumos preliminares. O que se pretende é possibilitar a percepção emancipatória do sujeito, em que a prática é o componente que acompanha necessariamente a teoria.

Quanto à qualidade do trabalho docente, Demo (2007) expõe que não adianta acreditar que a mesma possa ser obtida por via de treinamentos ou de eventos socializadores de conhecimento, destacando como componente imprescindível para a qualidade do professor, um investimento contínuo em prol de seu conhecimento e seu trabalho, através da

recuperação de sua competência formal e política, o que lhe auxiliará a refazer a sua condição profissional.

Para o mesmo autor, dentre as muitas sugestões de virtudes que são desejáveis ao professor, estão: participar do mundo da cultura assídua, inovar e motivar-se em fontes modernas através da participação no mundo da informação e da comunicação, manter-se atualizado permanentemente em sua disciplina e no campo didático-pedagógico, cultivar o saber pensar e o aprender a aprender, unir teoria e prática e atualizar-se tecnologicamente (DEMO, 2007, p. 40).

Quanto à formação do professor, Benassuly (2002) reflete sobre a necessidade de professores e alunos, através dos saberes que circulam o espaço escolar, romper com a dificuldade de fazer com que a aprendizagem se enfatize. Para isso, há que se compreender que o cenário escolar está repleto de indivíduos diferentes, com múltiplas vivências e interesses.

Assim, a autora salienta a importância de associar esta totalidade de diferenças e construir uma prática reflexiva, consciente e politizada, de forma que o professor compreenda e se aproprie dos saberes que devem constituí-la e aprenda como utilizar as inúmeras relações que se travam no interior da escola em favor de sua prática.

Não obstante a toda importância de um projeto político-pedagógico bem elaborado, Benassuly (2002) acredita que repensar a formação do educador seja mais imprescindível, pois é ele quem atua diretamente com o educando e é dele que todos esperam uma prática eficiente.

Quando fala sobre a formação do professor, a autora se refere não a instrumentalização técnica pura e simples de seu trabalho, mas a uma revisão da forma como a escola se organiza em função do nível social, econômico e cultural do aluno. É necessário que o educador esteja cotidianamente inteirado com o meio social de seus alunos, contribuindo para que aprendam a usar simbolicamente sua linguagem, interligando sua vivência e seu aprendizado.

Todo o saber que o homem articula e desarticula durante a construção do conhecimento, segundo Benassuly (2002) só pode ser expresso através da linguagem. Para ela é fundamental na formação do educador reflexivo e inventivo: a hermenêutica e a dialética que é a forma como se espera que o educador desenvolva um trabalho de ampliação do diálogo, discutindo com seus alunos assuntos e temas que possam auxiliá-los a expor, de forma crítica e positiva, sua opinião, tornando-se independentes e emancipados.

Esta interpretação de mundo, proposta pela hermenêutica, certamente é oportuna na construção do conhecimento e, ao aliá-la à dialética, haverá uma oportuna instrumentalização do aluno que passará a compreender as ciências humanas e sociais, tornando-se capaz de interagir com o meio em que se insere e adquirindo condições para transformá-lo (SANTOS, 1989, p. 16 apud BENASSULY, 2002, p. 187).

Espera-se do professor competência para criar espaço em sua aula para que o aluno aprenda a utilizar a linguagem, até então fragmentada, de forma a levá-lo a refletir sobre seu meio social. É através da análise dos saberes disponíveis no universo escolar e da percepção das possibilidades de aplicabilidade do que aprende que este aluno poderá reorganizar seu mundo, transformando sua vida, percebendo-se agente direto desta transformação. Neste sentido Benassuly (2002, p. 190) diz:

[...] A sala de aula é um espaço repleto de signos e significações que tomam forma e cor através da linguagem. A aprendizagem se concretiza através do diálogo entre sujeitos que interagem com o mundo e produzem cultura. O professor se transforma em mediador da discutibilidade emancipatória no seu ato ou ação emancipativa [...]

Assim, é essencial que o professor, mesmo inserido em um universo social pobre de possibilidades, predisponha-se a romper com as barreiras e burlar a precariedade. É importante reconhecer que, mesmo diante de cenários difíceis e desanimadores, é possível encontrar educadores que se esforçam por realizar um trabalho de qualidade.