A relação entre Escola e Sociedade pode contribuir consistentemente para a formação cidadã, segundo aponta Cortella (2011).
Inicialmente, o autor coloca o conceito de otimismo ingênuo, ideia que foi predominante entre educadores até os anos setenta do século passado no Brasil, mas que até hoje pode ser encontrado no dia-a-dia das escolas. De acordo com esta concepção, a Educação teria uma missão quase religiosa de educar a todos indiscriminadamente, sem fazer diferença, como se isto fosse possível em uma sociedade tão desigual como a nossa. Esta ideia também é reforçada pelo fato de que a Educação aconteceria sem nenhum interesse político ou social, totalmente imparcial, dando a ela uma autonomia absoluta, o que na realidade não ocorre, porque a Educação está inserida em uma determinada sociedade, no caso a sociedade brasileira, que é dominada por um ou mais grupos. Negar isto é negar a importância de um determinado momento político-histórico e a influência que este causa nos acontecimentos, ou seja, não existe neutralidade.
Ainda na década de 1970, considerando que a Educação estava a serviço do poder, Cortella nos apresenta a ideia de pessimismo ingênuo. De acordo com este conceito, a educação seria um instrumento de dominação em uma sociedade injusta como a nossa, ela seria a reprodutora da desigualdade social. Aqui a Escola é vista totalmente sem autonomia,
sendo controlada por quem detém o poder político-econômico e sua capacidade de transformação social é negada.
Já na década de 1980, surge outra concepção da relação Escola e Sociedade, sendo esta com a qual Cortella mais se identifica. Chamada de otimismo crítico, esta abordagem trata da Educação nem tão autônoma que não tenha imparcialidade, nem tão dominada que não possa ser transformadora. Conforme coloca Cortella:
A escola, pode sim, servir para reproduzir as injustiças, mas, concomitantemente, é também capaz de funcionar como instrumento para mudanças; as elites a utilizam para garantir seu poder, mas, por não ser asséptica, ela também serve para enfrentá- las. (CORTELLA, 2011, p. 114).
Baseado na opinião do autor, que afirma que a Educação tem uma autonomia relativa, pode-se concluir que a formação cidadã depende de uma relação Escola e Sociedade, onde a Educação tenha autonomia suficiente para atender a todos, discriminadamente, ou seja, de acordo com suas necessidades, porém seja orientada por políticas calcadas na justiça social.
Há cerca de sessenta anos atrás, em um Brasil predominantemente latifundiário, a população rural de trabalhadores, era rigidamente controlada pelo poder e as pessoas viviam dispersivamente, o que dificultava uma possível organização para se ajudarem mutuamente. Apenas trinta por cento dos brasileiros viviam nas áreas urbanas, e a grande maioria dos trabalhadores que viviam nas áreas rurais não precisavam ter nenhum nível de escolarização, pois isto não era exigido deles.
A partir de 1964, a economia foi orientada para atender o capitalismo e a industrialização no Brasil que se consolidavam naquele momento da História do país, em total sintonia com a elite da época. Assim, os investimentos nacionais foram canalizados para equipamentos, tecnologias, estradas, etc., o que tem muita importância no desenvolvimento de uma nação, porém, estas medidas levaram a um grande endividamento do país, que pediu dinheiro a bancos e fundos internacionais, e estrangulou as demandas sociais, incluindo aqui a Educação, pois as verbas destinadas para fins educacionais e sociais foram utilizadas para outros fins, considerados mais importantes ou mais emergenciais.
Durante os últimos cinquenta anos houve um acelerado processo de urbanização no Brasil, que fez com que a maioria da população saísse da área rural do país. A industrialização
capitalista precisava de concentração dos meios produtivos, o que acarretou em aumento da população trabalhadora urbana, processo que normalmente acontece de forma desenfreada e sem planejamento, gerando cordões de população muitas vezes em condições precárias de moradia. Outros fatores também contribuíram para este grade êxodo rural: a falta de planejamento de reforma agrária, economia monocultural da fabricação de álcool combustível, protecionismo político aos proprietários de terras e preferência do plantio de colheita mecânica para exportação, entre outros. Portanto, a crescente população urbana, carente de Educação e outros serviços públicos, sofreria ainda mais com os baixos investimentos neste setor, conforme aponta Cortella:
Na Educação, alguns dos efeitos foram desastrosos: demanda explosiva (sem um preparo suficiente da rede física), depauperação do instrumental didático/pedagógico nas unidades escolares (reduzindo a eficácia da prática educativa), ingresso massivo de educadores sem formação apropriada (com queda violenta da qualidade de ensino no momento em que as camadas populares vão chegando de fato à Escola), diminuição acentuada das condições salariais dos educadores (multiplicando jornadas de trabalho e prejudicando ainda mais a preparação), imposição de projetos de profissionalização discente universal e compulsória (desorganizando o já frágil sistema educacional existente), domínio dos setores privatistas nas instâncias normatizadoras (embaraçando a recuperação da educação pública), centralização excessiva dos recursos orçamentários (submetendo-os ao controle político exclusivo e favorecendo a corrupção e o desperdício). Assim, a educação pública das últimas décadas (com reflexos no ensino privado) foi um dos desaguadouros do intencional apartheid social implementado pelas elites econômicas e é a partir dele que podemos compreender a crise da Educação e a atuação político/pedagógica dos Educadores. (CORTELLA, 2011, p. 13).
Conforme afirma Cortella, para que haja qualidade social é preciso que esta não seja dissociada da quantidade, em outras palavras, significa dizer que a democratização do acesso e da permanência na Escola devem ser tratadas em conjunto. Se a quantidade total não é atendida, não há qualidade, pois isto é uma premissa da democracia – “só há qualidade quando todas e todos estão incluídos; do contrário, é privilégio” (CORTELLA, 2011, p.15). Considerando que Educação é uma premissa para exercer o direito da cidadania, é necessário que se reflita sobre a possibilidade de uma nova qualidade para uma nova escola, o que indiscutivelmente envolve a formação do professor.
Figura 1 – Formação do professor
Fonte: A Autora, 2015.
A formação do professor precisa ser um processo de contínua aprendizagem permeado por elementos que corroborem a formação de um professor formador que permita que seus alunos exerçam seu direito à cidadania. A especialização em uma área do saber, a capacidade de ensinar, a democratização da relação professor/aluno, a democratização da relação entre professores e a gestão democrática englobando as comunidades são elementos que sustentam e desenvolvem a formação do professor neste sentido.
Gestão Democrática Englobando as Comunidades Democratização da relação entre Professores Democratização da relação Professor/ Aluno Dimensão Pedagógica (capacidade de ensinar) Especialização em uma Área do Saber (capacitação contínua) Formação do Professor
Figura 2 – Formação de professores
Formação Democratização de Objetivo Político/Social mais Equânime do
Professores Saber
Fonte: A Autora, 2015.
Figura 3 – Democratização do saber
Fonte: A Autora, 2015.
Porém, não basta apenas compartilhar conhecimento sem levarmos em consideração três aspectos fundamentais, que contribuem solidamente para que o ato democrático não se perca e tudo não passe de imposição do conhecimento. É necessário, que concomitantemente com a construção do saber, o professor tenha uma sólida base científica, busque a formação
crítica de cidadania e tenha solidariedade de classe social. Sem uma sólida base científica, o
professor não consegue guiar o aluno no processo de construção do conhecimento dentro daquela área específica, pois é esta base que dá ao professor as ferramentas para que ele oriente o aluno quanto a fontes de pesquisa, exemplos, abordagens, etc. A formação crítica da cidadania precisa que o professor conduza o processo educacional de forma que sejam criadas oportunidades para que o aluno pense e reflita e veja que existe a possibilidade de fazer diferente. A solidariedade de classe entre os professores contribui profundamente para a
Democratização do Saber Sólida Base Científica Formação Crítica de Cidadania Solidariedade de Classe Social
autoformação e para a formação dos demais colegas. Portanto, a democratização do saber exige do professor humildade, para sempre querer saber mais, exige compreensão, para ajudar o outro a pensar e exige solidariedade para poder compartilhar com seus pares.
O autor salienta que além de terem acesso ao conhecimento universal acumulado, os alunos possam se apropriar do mesmo – mas qual o real significado disto? Se afirmamos que a expressão “dar aula” é inadequada, pois o conhecimento não pertence ao professor, como se fosse algo que ele “desse ao aluno”, podemos então dizer que o aluno é o dono do conhecimento? Isto também seria inadequado e contra a democratização do saber.
Na verdade, quando dizemos que o aluno se apropria do conhecimento, não queremos dizer que ele é um recipiente de informações, mas sim que ele é capaz de produzir/construir conhecimento, assim como o faz o educador. O acesso ao conhecimento não deve ser imposto aos alunos nem mesmo ficar limitado a uma formação erudita, ele deve também levar em conta a realidade do aluno, sua vida diária, seus problemas, seu ambiente familiar, social e profissional. O objetivo aqui não é o de concordar com a realidade do aluno, como se este fosse seu único destino, mas sim de fazê-lo refletir sobre a mesma, questioná-la e ter a atitude de modificá-la.
Conhecimento é uma construção cultural (portanto social e histórica) e a Escola (como veículo que o transporta) tem um comprometimento político de caráter conservador e inovador que se expressa também no modo como esse conhecimento é compreendido, selecionado, transmitido e recriado. (CORTELLA, 2011, p. 17).