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UNDERSØKELSER I H EDRUM

3.2 M ETODE

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De acordo com Sexto, os dogmáticos seriam aqueles que acreditam ter encontrado a verdade, os acadêmicos seriam aqueles que acreditam que a verdade não pode ser encontrada e os pirrônicos seriam aqueles que continuam procurando pela verdade. (SEXTO, 1994: 1-3)

274 AT, VII, 130. 275

Como por exemplo, quando ele afirma que os céticos duvidam apenas por duvidar. (DESCARTES, 1983, 44/ AT, VI, 29)

Para oferecer um contraponto, também referente a estudos recentes sobre o papel do ceticismo na filosofia de Descartes, não podemos deixar de visitar a interpretação de Paganini276, que apresenta um estudo detalhado das possíveis fontes de Descartes, dando maior importância aos céticos modernos, dentre os quais La Mothe Le Vayer é privilegiado como a principal fonte cartesiana. O estudo de Paganini tem o mérito de modificar a visão do ceticismo moderno como sendo fundamentalmente fideísta, como defende Popkin, revelando novas facetas presentes nesse novo ceticismo apresentado pelos modernos e de sua apropriação por parte de Descartes.

De acordo com o autor, ainda que a comparação com os céticos antigos, principalmente os pirrônicos, possa ser bastante útil, ela não está livre de problemas. Principalmente porque Descartes não se demonstra preso aos textos antigos e nem faz referências diretas a esses textos. A comparação mais importante não seria, pois, com os céticos antigos, mas com os modernos, contemporâneos a Descartes. Isso porque, por meio de pesquisas recentes, tornou-se incontestável o fato de Descartes ter tido contato com os textos dos modernos que fizeram reviver o ceticismo, como Montaigne, Charron, Sanches e Le Vayer.

Paganini acredita que Descartes tinha consciência que os céticos contemporâneos a ele teriam evoluído em relação aos antigos, e revela uma visão desse ceticismo diferente da tradicional, pois ele não estaria tão intimamente ligado aos interesses de uma Contra- Reforma, não podendo ser dito fideísta. Tal visão cartesiana teria sido expressa na resposta às objeções do padre Bourdin às Meditações, onde Descartes afirma que a seita dos céticos estava, em sua época, mais forte do que nunca. Esse texto cartesiano, como vimos, é a mais forte evidência a favor da tese de Popkin, mas Paganini chamará atenção para outro ponto dessa passagem que é geralmente negligenciado, a sua apresentação da imagem do ceticismo que não é aquela do ceticismo em geral, nem a do ceticismo da geração anterior ao nosso filósofo (Montaigne e Charron), mas sim aquela da geração do próprio Descartes, indicando precisamente o que haveria de novo nesse ceticismo (o ateísmo) e os métodos utilizados por ele, o da aparência e o fenômeno.

De maneira inteiramente correta, o ceticismo se apresenta, nessa página, seja como uma reação às fraquezas da filosofia “comum”, a saber, a escolástica (vulgaris Philosophia), seja como um abrigo protegido contra a influência de dogmatismos

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entre si concorrentes; é por isso que os adeptos da “seita” “se refugiam no ceticismo”. (PAGANINI, 2008, p. 244-45, tradução nossa).277

Para revelar a quem Descartes se referia em sua descrição dos “erros dos céticos ateus”, Paganini procede por exclusão, como Montaigne e Charron não correspondem ao perfil de cético traçado pelo filósofo na resposta ao P. Bourdin, pois:

O primeiro conhece, evidentemente, a filosofia das aparências, mas sustem-se de aplicá-la ao domínio da religião para concluir numa recusa explícita da divindade; o segundo mede as religiões positivas em relação à religião natural, recusando, ao mesmo tempo, a conclusão atéia; além disso, o seu ceticismo é sub-rogado nessa tarefa pela influência de temas estóicos que estão só parcialmente de acordo com o uso do método da epoché. (PAGANINI, 2008: 247-48, tradução nossa).278

O autor busca em Le Vayer essa correspondência e conclui que o cético libertino de fato corresponde a esse perfil, pois estende a categoria do fenômeno à metafísica e à religião e denuncia o caráter irreligiso, o do ceticismo. Como vimos anteriormente, Sylvia Giocanti (2002) também defende que o ceticismo ao qual Descartes se opõe nas Meditações é aquele dos libertinos. Segundo a autora, para Descartes, a dúvida cética, ao convencer o homem da sua incerteza, faz com que ele permaneça fora do caminho da certeza. Tal fato constitui o que se pode chamar de a figura cartesiana de libertinagem. O método da libertinagem seria aquele pautado na verossimilhança e no provável, que não possibilitaria escapar da incerteza. Método utilizado manifestadamente pelos céticos e disfarçadamente pelos dogmáticos, o que levou a filosofia, pré-cartesiana, a um estado de caos.

A ampliação das formas clássicas de dúvida traz consigo o traço característico da reflexão cartesiana e torna necessária a empreitada metafísica de tipo diferente, pois diz respeito às condições mediante as quais eu posso estar certo da realidade dos meus objetos de conhecimento. Nesse sentido, a aproximação com os libertinos também se torna evidente, pois, vistos como “mestres da suspeita”, são eles que, sobretudo, vêem os enganos como signos da imperfeição humana. Assim, partindo principalmente dos escritos de Le Vayer, o mais importante não seria a verdade, mas a descoberta do erro.

Paganini (2008) ressalta a importância de perceber que há semelhanças entre o método de Descartes e aquele de Le Vayer, principalmente no que diz respeito a esse ponto (evitar o

277 “De manière tout à fait correcte, la scepticisme se présente, dans cette page, soit comme une réaction aux

faiblesses de la philosophie ‘commune’, à savoir, l’scolastique (vulgaris Philosophia), soit comme un abri soustrait à l’emprise des dogmatismes en concurrence entre eux: c’est pour cela que les adepts de la ‘sect’ ‘se réfugiant dans le scepticisme’.”

278 “Le premier connaît évidemment la philosophie des apparences, mais se garde bien de l’appliquer au domaine

de la religion pour en tirer un refus explicite de la divinité; le second mesure les religions positives à l’aune de la religion naturelle, tout en refusant la conclusion athée; en outre, son scepticisme est subrogé dans cette tache par l’influence des thèmes stoïques qui ne s‘accordent que très partiellement à l’usage de la méthode de l’époché.”

erro). Entretanto, essa aproximação deve ser feita de forma cuidadosa, respeitando a distância e as diferenças entre os dois filósofos. De acordo com o autor, as semelhanças entre Descartes e Le Vayer param na suspensão do juízo, a partir da qual os filósofos seguirão caminhos diversos. Le Vayer se contentaria com o fenômeno, pois a verdade não estaria ao alcance dos homens. Assim, a epoché seria, para ele, aquilo que há de melhor para o espírito filosófico e o objetivo do cético seria uma sabedoria moral, alcançada por meio da ataraxia e da epoché. Entretanto, para Descartes, essa indiferença não seria jamais satisfatória, pois seu objetivo não era a paz de espírito, mas, antes, a busca pela a verdade. Para o metafísico, ao contrário do cético, a eqüipolência não é suficiente, não seria possível parar nesse ponto. O ceticismo seria apenas um meio de se livrar dos preconceitos, o estado da dúvida seria apenas uma etapa, etapa essa, é importante dizer, fonte de agonia e inquietação para Descartes, não de tranquilidade.

Embora Paganini recorra ao contexto cartesiano em sua interpretação, ele afirma que não se pode reduzir um texto ao seu contexto, no caso de Descartes principalmente, pois anularia a sua originalidade. O certo seria integrar a análise interna do texto com a análise do contexto. O contexto privilegiado por Descartes é aquele dos céticos modernos, e não dos antigos, pois é no ceticismo dos primeiros que se encontram questões metafísicas, tão caras ao filósofo.

Portanto, para Paganini, Descartes teria sido sim muito influenciado pelo ceticismo e principalmente pelo ceticismo moderno. A diferença é que o autor, ao contrário de Popkin, não interpreta os céticos modernos pelo viés fideísta, pelo menos não todos eles. Assim os céticos que mais teriam influenciado Descartes seriam os libertinos como La Mothe Le Vayer. O autor sustenta a tese de Popkin de que Descartes teria como projeto a refutação do ceticismo, mas desse ceticismo libertino. O estudo empreendido por Paganini traz à tona esse cenário, pouco visitado até mesmo pelos que estudam as relações entre Descartes e o ceticismo. A comparação detalhada feita pelo autor dá mais plausibilidade à teoria lançada por Popkin, que Paganini defende de uma forma mais amena, pois acredita que há em Descartes uma refutação do ceticismo ocasionada pelo advento de uma crise cética da qual o filósofo estava plenamente consciente, mas não afirma que a refutação do ceticismo seja o objetivo de toda a filosofia cartesiana, assumindo o fato de essa colocação ser vista como sendo um pouco exagerada.

Ao que nos parece, a interpretação de Paganini é bastante plausível, pois se ampara em um estudo extremamente detalhado das possíveis fontes de Descartes e, ao tomar uma postura menos radical, ele escapa a grande parte dos problemas da teoria levantada por Popkin.

Entretanto, ao privilegiar os pirrônicos como fonte de Descartes, o autor deixa de lado a forte influência que o ceticismo acadêmico teve sobre o filósofo. Provavelmente, a refutação do ceticismo presente na filosofia cartesiana visa os pirrônicos, mas os métodos utilizados por Descartes o deixam muito mais próximo dos acadêmicos, como frisa Lennon. Nesse sentido, o filósofo teria conhecimento das duas correntes céticas, mas teria sido mais influenciado pelo ceticismo acadêmico, recusando os pirrônicos, ou os libertinos.

3.5 Interpretações alternativas sobre o que seria o verdadeiro projeto cartesiano nas