O terceiro intervalo de leitura também foi elaborado pensando nas práticas elencadas por Paulino e Cosson, como condições para que o letramento literário se efetive, de sorte que priorizamos, também nessa atividade, o trabalho com pequenos textos que se ligavam ao texto maior, que era a peça Pluft, o Fantasminha, conforme assevera Cosson (2012), considerando, assim, a seleção dos textos, a interferência crítica e a formação de uma comunidade de leitores.
Essa atividade priorizou a oralidade, de sorte que a maioria dos questionamentos foi respondida de forma oral e discutida em uma roda de conversa. De acordo com Bajour (2012), “[...] o ato da leitura consiste em grande medida na conversa sobre os livros”. (p. 22). De modo que, “[...] o regresso aos textos por meio da conversa sempre traz algo novo”. (p. 23). Nesse sentido, acreditamos que a roda de conversa é bem relevante para a construção de uma comunidade de leitores. Todavia, para que a finalidade de um momento como esse seja alcançada, é necessário não só se expressar por meio da fala, como também saber se calar para escutar, respeitando, assim, a fala do outro:
44 A socialização das respostas ocorreu no dia 15/04/2015, durante duas horas/aula. Sendo que a segunda aula
Escutar, assim como ler. Tem que ver, porém, com a vontade e com a disposição para aceitar e apreciar a palavra dos outros em toda sua complexidade, isto é, não só aquilo que esperamos, que nos tranquiliza ou coincide com nossos sentidos, mas também o que diverge de nossas interpretações ou visões de mundo. (BAJOUR, 2012, p. 24).
Dessa forma, a atividade45 foi retomada no dia 27/0446 e iniciada com o poema “Nome da gente”, de Pedro Bandeira. Esse poema questiona sobre os motivos que levam os pais a escolherem os nomes que elegem para seus filhos após o nascimento, evidenciando que, muitas vezes, por trás de um simples nome, pode haver histórias incríveis. Por isso, questionamos os alunos se já procuraram saber a história de seu nome e solicitamos que nos contassem um pouco sobre essa história. Eis algumas das respostas obtidas:
Antes de mim nascer, todo mundo achava que o meu nome ia ser Letícia. Mas meu pai colocou meu nome assim para combinar com a minha mãe “Tayná”, e porque é nome de índio. (sic – T. S. C. – 11 anos).
O meu nome foi Deus que me deu, por isso gosto dele. (sic – V. M. S – 11anos). Eu gostei do meu nome porque significa alegria e paz. (B. G. R. – 11 anos).
É que quando eu nasci minha mãe colocou o nome do meu pai em omenagem. (sic – E. N. S. – 11 anos).
Meu nome seria Eder Filho, mas a prima da minha mãe achou o nome Arthur mais bonito e eles poram Pedro na frente. (sic – P. A. O. M. – 11 anos).
O meu nome é em homenagem a meu pai. (O. M. C. F. – 11 anos).
Tendo em vista que o nome das personagens pode influenciar na construção dos sentidos de um texto literário é que elaboramos esta atividade. A esse respeito, Machado explica que:
No caso da narrativa, tal posição é indefensável. Quando um autor confere um nome ao personagem já tem uma ideia do papel que lhe destina. E claro que o Nome pode vir a agir sobre o personagem e mesmo modificá-lo, mas, quando isso ocorre, tal fato só vem confirmar que a coerência interna do texto exige que o nome signifique. É lícito supor que, em parte dos casos, o Nome do personagem é anterior à página escrita. Assim, sendo, ele terá forçosamente que desempenhar um papel na produção dessa página, na gênese do texto. (MACHADO, 1975, p. 26 apud LOPES, 1997, p. 62).
Após o compartilhamento das histórias dos nomes dos alunos, informamos a eles que em muitos textos literários os nomes das personagens têm significados importantes que nos ajudam a descrevê-las melhor e, assim, facilitar nossa compreensão da história. Quando lemos um livro literário, precisamos estar atentos a todos os detalhes, e a atenção aos nomes das
45 A atividade, em sua integralidade, está disponível no apêndice B.
46 Retomamos, nessa data, tendo em vista que nos dias 20 e 21/04 foi recesso e feriado respectivamente. De sorte
que ministramos somente uma aula nesta semana e não retomamos o projeto nessa aula para não quebrar a sequência das atividades.
personagens é fundamental. Por esta razão, informamos aos alunos que eles leriam alguns trechos de uma peça teatral chamada O fantástico mistério de Feiurinha, e, através dessa história, perceberiam que os nomes das personagens têm grande influência em suas personalidades, e também em todo enredo apresentado. Além disso, escolhemos esse texto, por ser também um texto teatral, a fim de que os alunos percebessem que se tratava de um texto de mesmo gênero de Pluft, o Fantasminha, e relembrassem as características desse gênero.
Os alunos fizeram a leitura dramatizada da peça O fantástico mistério de Feiurinha47, como já haviam feito da peça Pluft, o Fantasminha, e após a leitura dessa peça, fizemos uma roda de conversa e dialogamos sobre cada nome das personagens apresentadas na peça e suas simbologias na narrativa. Assim, perceberam primeiramente a sonoridade entre o nome próprio Caio e o adjetivo lacaio /caio/. Em seguida, consultaram o dicionário e verificaram que esse adjetivo significa criado. Dessa forma, compreenderam a relação entre a personagem Caio e seu ofício de lacaio. Depois, observaram, com bastante facilidade que a maldade presente no nome das bruxas Malvada, Ruim e Piorainda, se estendia à personalidade dessas personagens. Além disso, ficaram evidentes para os alunos, as contradições entre os nomes Feiurinha e Belezinha e as características de suas respectivas personagens. Logo, verificaram que essas contradições faziam parte das maldades das bruxas, a fim de fazerem a personagem Feiurinha sofrer por pensar que era feia, que o feio era bonito e vice-versa. Ademais, conversamos sobre o que, de fato, era a beleza e os estereótipos que a mídia e a sociedade nos apresentam. A conversa levou à reflexão de que o que importa para sermos felizes são nossa beleza interior e as relações interpessoais que cultivamos.
Por fim, após verificarmos as simbologias dos nomes das personagens na peça O
fantástico mistério de Feiurinha; discutimos também sobre as características das personagens da peça Pluft, o Fantasminha, e, juntos, os alunos atribuíram as seguintes características: Pluft era medroso, mas se torna confiante; Maribel era bonita, gentil e doce; Perna de Pau era malvado e ambicioso; Gerúndio era dorminhoco e comilão; os marinheiros eram amigos fiéis; Prima Bolha foi relacionada, pelos alunos, a uma bolha de sabão que possui um formato esférico. Razão pela qual, eles deduziram que se tratava de uma fantasma gorda. Já a Mãe fantasma, mesmo não havendo a exposição de seu nome próprio, os alunos a caracterizaram como conversadeira. À personagem Xisto, eles atribuíram a característica desconfiado. Em seguida, montamos um cartaz com as características das personagens. Para tanto, os alunos
47 Iniciamos a leitura na 2ª aula do dia 27/04 e a concluímos no dia 28/04/2015 na primeira aula. Iniciando a roda
pesquisaram anteriormente imagens da peça na internet, imprimiram e recortaram as imagens e as colaram no cartaz, que foi fixado na sala de aula, juntamente com os demais. A atividade de montagem do cartaz possibilitou, mais uma vez, a interação e colaboração entre os alunos.
Além disso, a pesquisa prévia da imagem das personagens e de suas características foi bem relevante, pois os alunos já imaginaram como ficariam caracterizados como as personagens da peça. E ao pensar como seriam esses figurinos e cenários, os estudantes já começaram a contribuir com ideias para a dramatização da peça. Os alunos também sugeriram que dramatizássemos a peça O fantástico mistério de Feiurinha, sugerindo quais deles atuariam, como fariam os figurinos, os cenários, dentre outros elementos da peça. Não os desmotivamos, todavia dissemos a eles que essa dramatização não havia sido planejada para este projeto, mesmo porque tínhamos um tempo determinado para sua execução. Entretanto, poderíamos pensar nessa dramatização para o segundo semestre letivo.
Fonte: Fotografada pela autora (2015). Figura 13: Cartaz características das personagens
Após a atividade de montagem do cartaz, expusemos a análise48 dos nomes das personagens feita por Lopes (1997), baseada na análise de Machado (1976), sobre o nome das personagens de Guimarães Rosa. Contudo, adaptando a linguagem aos alunos, a fim de que percebessem que muitas características, por eles elencadas, relacionam-se com os nomes próprios das personagens. Vejamos o que observa esse autor sobre as personagens da peça
Pluft, o Fantasminha:
Os três marinheiros, além de serem [sic] uma tríade trapalhona e medrosa, se unem pela sonoridade em /ão/: Sebastião, Julião e João. Pluft é o aproveitamento onomatopaico da explosão de uma bolha – e aqui o sentido a ser buscado é da bolha- de-sabão das brincadeiras de criança. Ele é frágil, mas explodirá em coragem e determinação no decorrer da peça, por força das ações que tem que empreender para salvar a menina ameaçada. Gerúndio, mais que um nome sonoro, ligado à forma verbal indicativa de uma ação em desenvolvimento, sugere ligação etimológica, ainda que falsa, com gerar, geração. Ele é o velho tio com quem moram, por não possuírem casa própria, a mãe fantasma e o filho, logo ele é a raiz viva, alimentadora da família. (LOPES, 1997, p. 63)
A análise é iniciada com as personagens dos marinheiros e Pluft. Sobre os primeiros, a análise dos alunos não coincidiu, todavia a análise de Pluft está diretamente relacionada à do autor, pois os alunos verificaram a passagem de medroso para confiante, só não haviam relacionado ao barulho de uma bolha estourando, porém acreditaram que o nome Pluft parecia com o barulho de algo ou alguém caindo – “Escorregou e pluft...caiu!”. No que tange ao Gerúndio, os alunos não fizeram essa relação com o nome, somente apontaram a característica de ser dorminhoco e comilão, bastante exploradas na peça. Sobre as personagens Perna de Pau, Maribel e Xisto, Lopes (1997) analisa da seguinte forma:
Perna de Pau tem esse nome pela sua própria condição de aleijado, portador que é de uma prótese de madeira, no lugar de uma das pernas. Ao aleijado físico corresponde o aleijado moral, com se verá. Maribel, une ao nome Mari (simplificação de Maria), o adjetivo bel, de beleza. Maria sugere identificação, em candura e pureza, com o nome da mãe de Cristo. O primo Xisto, que é fantasma de avião, tem seu nome ligado, remotamente ao xisto betuminoso, mineral do qual se extrai petróleo que, por sua vez, é transformado em gasolina de avião. (LOPES, 1997, p. 63-64)
No que se refere ao Perna de Pau, os alunos, mesmo percebendo que o nome (no caso apelido), relacionava-se à deficiência física da personagem, não perceberam a ligação entre a deficiência física e a moral (maldade, ambição), conforme sugere o autor. Porém, no que tange à personagem Maribel, os alunos verificaram a beleza sugerida pelo nome, contudo sem relacionar a gentileza e doçura com o nome de Mari (simplificação de Maria – nome da mãe
48 Análise feita por Ivo Cordeiro Lopes em sua dissertação de Mestrado intitulada Pluft, o Fantasminha e o
de Cristo). À personagem Xisto, os alunos atribuem a característica de desconfiado, tendo em vista que essa característica é mencionada no texto, não relacionando a característica ao nome da personagem. O autor supõe que ao criar esses nomes para as personagens, Maria Clara Machado teria considerado o “[...] efeito de atração que eles exerceriam sobre a criança, pois esta própria utiliza em suas brincadeiras cantadas ou faladas as rimas, os jogos de palavras, as parlendas [...]” (LOPES, 1997, p. 64).
Toda a atividade teve a duração de cinco horas/aula, nos dias 27, 28 e 29/04/2015. Acreditamos que atingimos os nossos objetivos com essa atividade, tendo em vista que consideramos as práticas ensinadas por Paulino e Cosson (2009), como requisitos para que o letramento literário aconteça. Portanto, selecionamos bons textos para a leitura literária que se relacionaram, de algum modo, com a peça Pluft, o Fantasminha, bem como interferimos criticamente ao mediar a análise dos nomes das personagens da obra. Ademais, o compartilhamento das opiniões, discussões e o respeito a elas contribuíram para a formação de uma comunidade de leitores.