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Etiske refleksjoner knyttet til dokumentanalysen

4.6 Etiske refleksjoner

4.6.3 Etiske refleksjoner knyttet til dokumentanalysen

O fantástico tem uma tradição considerável na literatura portuguesa a que este estudo procurou não ser alheio (nem conseguiria). O número de publicações que versam sobre o tema contrasta notoriamente com o que se tem escrito em Portugal sobre o realismo mágico. São inegáveis os contributos de estudiosos como Filipe Furtado, A construção do

fantástico na narrativa (1980), Selma Calasans Rodrigues, O Fantástico (1988), e ainda O

128

Beatriz Berrini, «Do maravilhoso ao fabuloso alegórico», in Ler Saramago: O Romance, Caminho, Lisboa, 1998, p. 127.

Fantástico na Arte Contemporânea, que reúne um conjunto de comunicações de um

colóquio realizado em 1987, com coordenação de Maria Alzira Seixo.

Além dos textos base do realismo mágico referidos nos capítulos anteriores, como «Nach Expressionismus (Magischer Realismus)» de Franz Roh (1925), «Sobre lo real maravilloso en América» (1949), de Alejo Carpentier, Magical Realism in

Spanish American Fiction (1955), de Ángel Flores e El realismo mágico en la literatura hispanoamericana (1967), por Luis Leal, textos difíceis de encontrar se não fosse por terem

surgido integrados no livro Magical Realism: Theory, History, Community (1995), existe uma profusão labiríntica de ensaios e obras sobre o tema do realismo mágico.

A crítica literária e cultural portuguesa continua a usar o conceito em diversas recensões, mas sempre de forma ligeira e pouco aprofundada ou informada. À excepção do livro da autora brasileira Irlemar Chiampi, O Realismo Maravilhoso – Forma e ideologia no

romance hispano-americano, (1980), pouco se escreveu em território especificamente

português. Houve somente uma dissertação de mestrado entretanto publicada em Portugal, designada A Recepção do Realismo Mágico na Literatura Portuguesa Contemporânea, apresentada por Isabel Rute Araújo Branco à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, orientada pela Professora Doutora Maria Fernanda de Abreu. Pode-se ainda considerar uma aproximação ao tema realizada por Cristiana Sofia Monteiro dos Santos Pires, em O modo fantástico e a Jangada de Pedra de José Saramago (2006). Isabel Rute Araújo Branco na sua dissertação, considera também a existência de uma afinidade na obra Levantado do Chão, de José Saramago, com o modelo do realismo mágico sul-americano, seguindo na esteira de estudiosos como Maria Lúcia Lepecki, quando recensionou a obra. No entanto, se se proceder a uma leitura atenta de Levantado

ao realismo mágico ou mesmo ao fantástico. Todos os elementos encontrados e comparados a Cem Anos de Solidão, em nada incluem esta obra especificamente no realismo mágico, mesmo que haja pontos em comum como a recorrência dos olhos azuis e o facto de retratar várias gerações de uma família. Mas não ocorre efectivamente uma fenomenologia puramente maravilhosa, ainda que se aluda, por exemplo, a lobisomens, ou aos anjos que assistem de varandim ao que se passa cá em baixo na terra. José Saramago brinca com a linguagem e com os possíveis da história, conduzindo o leitor a certas dissertações mas sem nunca entrar, nesta obra, no campo do mágico.

Outro texto-base do presente estudo foi a Introdução à Literatura Fantástica, de Tzvetan Todorov (1970), mas foi ainda mais importante a leitura crítica e mais enquadrada face à ficção literária contemporânea de Amaryll Beatrice Chanady, com o livro Magical

Realism and the Fantastic: Resolved versus Unresolved Antinomy (1985). Esta autora

baseia-se no estudo de Tzvetan Todorov mas realizando pertinentes relações com a literatura do realismo mágico em contraste com o fantástico. A autora considera o realismo mágico enquanto modo literário, da mesma forma como procede com o fantástico, pois enquanto género literário o realismo mágico encontra-se demasiado disseminado pela literatura mundial, não se atendo assim a um movimento literário, passível de ser delimitado histórica e geograficamente, traços característicos que dariam coesão ao entendimento desta ficção enquanto pertencente a um género.

Outras duas autoras fundamentais para a compreensão do que é a literatura fantástica são Christine Brooke-Rose, A Rhetoric of the Unreal: Studies in Narrative & Structure

Especially of the Fantastic (1981) e Rosemary Jackson, Fantasy: The Literature of Subversion (1981). Seymour Menton publicara já Magic realism rediscovered 1918-1981,

plásticas face à literatura. Graciela N. Ricci no seu estudo Realismo mágico y conciencia mítica

en América Latina (1985) faz o único estudo existente até à data das bases míticas da ficção

do realismo mágico. A autora avança ainda uma nova designação que apelidou de «realismo mágico maravilhoso» e que vai ser tão-somente um dos muitos termos entretanto apresentados, como o «realismomagico» de Frederick Luis Aldama, que opta por unir os dois vocábulos num único, no seu Postethnic narrative criticism: magicorealism in Oscar

“Zeta” Acosta, Ana Castillo, Julie Dash, Hanif Kureishi, and Salman Rushdie (2003).

Jean Weisberger, no seu Le Réalisme magique: Roman, peinture et cinéma (1987), é um dos autores pioneiros em transladar este termo, que já vinha do campo das artes plástica, para o cinema, da mesma forma que depois será emprestado ao teatro. Outros autores a explorar o realismo mágico em filmes foram Fredric Jameson, no seu artigo On Magic

Realism in Film (1986) onde se considera, por exemplo, o uso da cor com intenção

alegórica. Um dos contributos de Fredric Jameson é a relevância que atribui às preocupações políticas do realismo mágico, no âmbito do pós-colonialismo, com uma certa agenda política que não só pretende denunciar alguns excessos cometidos pelos ex- impérios como também pelas instituições e regimes que se instalaram após a independência desses estados e nações, igualmente corruptos e nocivos. Salvaguarde-se ainda, a propósito do simbolismo da cor, que esta também tem sido utilizada na ficção literária, como explica a obra de Maria Isabel Gomes Marques, As cores de Lídia Jorge em A Costa dos

Murmúrios (2004) que analisa a presença predominante das cores verde, vermelho e

amarelo, portanto as cores da bandeira portuguesa, alusivos ao império português.

Em 1991, surge Realismo magico, cosmos latinoamericano – teoria y practica de Gloria Bautista Gutiérrez, um estudo que se afigura demasiado superficial, cometendo certos exageros como comparar A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, às grandes sagas de

romances clássicos como Anna Karenina ou Os Irmãos Karamazov. Nesse ano surge ainda

Trayectoria de la Novela Hispanoamericana Actual – Del «Realismo Mágico» a los Años Ochenta, de Darío Villanueva e José María Viña Liste, um estudo mais geral que

contempla o tema como uma fase da ficção contemporânea na América do Sul e, por arrastamento, em Espanha.

Magical Realism: Theory, History, Community (1995), das autoras Lois Parkinson

Zamora e Wendy Faris, é um marco na história da teoria do conceito enquanto volume que reúne diversos autores em torno do tema de forma interdisciplinar e intercontinental, unindo Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, Caraíbas, África e Austrália, tratando o realismo mágico como um fenómeno internacional que surgiu em lugares muito díspares, o que se deve, essencialmente, mais do que uma sincronia acidental, aos efeitos da globalização.

Alicia Llarena publica Realismo mágico y lo real maravilloso: una cuestión de

verosimilitud (Espacio y actitud en cuatro novelas latinoamericanas) em 1997, que tem a

particularidade de proceder à análise de quatro narrativas basilares da literatura latino- americana, distinguindo claramente as que integram o realismo mágico, como Homens de

Milho, de Miguel Ángel Asturias, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Cem Anos de Solidão,

confrontando-as com a narrativa O Reino deste Mundo, de Alejo Carpentier, que pertence ao real-maravilhoso.

No ano de 1998 multiplicam-se os livros publicados sobre o tema: Brenda Cooper com

Magical Realism in West African Fiction: Seeing With a Third Eye, focando-se em autores

africanos, como Ben Okri, aproximando assim o realismo mágico do pós-colonialismo. Esta autora parte do hibridismo próprio desse oxímoro que é o realismo mágico e aponta como estas obras ficcionais promovem a criação de um terceiro espaço, que une e resolve

os pólos contraditórios do realismo e do maravilhoso, como que constituindo uma realidade paralela. Seguem-se outros autores como Seymour Menton com Historia verdadera del

realismo mágico; Erik Camayd-Freixas no livro Realismo mágico y primitivismo: Relecturas de Carpentier, Asturias, Rulfo y García Márquez leva a fundo a questão do real-

maravilhoso de Alejo Carpentier e envereda por uma perspectiva mais antropológica, estudando o que ele chama o primitivismo de onde originam as crenças ou mitos que enriquecem as narrativas dos autores abordados. Uma abordagem destas resulta de forma complicada na medida em que livros como Cem Anos de Solidão, obras emblemáticas da ficção do realismo mágico, a maioria dos motivos sobrenaturais existentes são muito pouco nativos ou primitivistas, sendo impossível associar, por exemplo, os tapetes voadores a peculiariedades do continente americano. Ainda nesse ano, Jean-Pierre Durix's publicou o importante Mimesis, Genres and Post-Colonial Discourse: Deconstructing Magical

Realism, que se foca igualmente na ficção do realismo mágico enquanto um contra-discurso

das hegemonias. Jean-Pierre Durix num estudo bastante completo que passa em revista a ficção literária, a questão genológica e o conceito de realidade e mimesis, acaba por se cingir ao realismo mágico, estudando-o enquanto género literário mas sem fundamentar a razão desta sua escolha conceitual. Este autor opta ainda por um outro conceito, o de «New Literatures», que acha preferível ao de pós-colonialismo.

Elsa Linguanti, Francesco Casotti e Carmen Concilio, reúnem-se em torno de

Coterminous Worlds: magical realism and contemporary post-colonial literature in English (1999), onde entre os vários artigos reunidos se contempla inclusivamente o autor

moçambicano, Mia Couto, a par de outros autores internacionalmente conhecidos como Ben Okri ou Salman Rushdie.

Em 2004, são publicados vários livros, como o estudo de Wendy Faris, Ordinary

Enchantments: Magical Realism and the remystification of narrative, que representa um

importante contributo que vai além dos artigos que já tinha realizado no seu volume anterior, em colaboração com Lois Zamora, atentando no realismo mágico como uma das mais importantes correntes da ficção literária e depois referindo-se-lhe como género literário, onde desenvolve a análise dos seus aspectos formais e temáticos. Pela primeira vez considera-se o nome de José Saramago, levando a ficção portuguesa para o panorama internacional, através do seu romance alegórico A Jangada de Pedra.

A obra Magic(al) Realism de Maggie Ann Bowers pode ser comparada a um livro de bolso sobre o conceito, dando uma perspectiva sucinta do tema, que confronta a questão do realismo mágico sul-americano com o de outras literaturas. A autora complexifica ainda a interpretação do conceito de realismo mágico criando uma distinção conceptual entre «magic realism» e «magical realism». «Magic realism» corresponde à ficção que se tem vindo a considerar neste trabalho como realismo mágico, correspondendo ao conceito introduzido por Franz Roh, em 1925, nas artes plásticas, que aponta para a representação do mistério como sendo inerente à própria realidade. Não deve, portanto, ser confundido com o conceito de «magical realism», criado por Angel Flores, que remete para a ocorrência do extraordinário e do inexplicável segundo as leis da ciência, num mundo pautado pelo «commingling of the improbable and the mundane»129, distinguindo-se do anterior na medida em que tem origem na ficção literária dos anos 40. A obra de Shannin Schroeder,

Rediscovering magical realism in the Americas, também pertencente ao ano de 2004, faz

uma transposição do conceito para a literatura norte-americana, em particular no romance

Beloved, de Toni Morrison.

Em 2005, foi publicado A Companion to Magical Realism, em jeito de comemoração da década volvida sobre a publicação de Magical Realism: Theory, History, Community (1995), um volume organizado por Stephen Hart e Wen-Chin Ouyang que inova ao apresentar uma análise essencialmente crítica, de diversas obras e de diversos autores, onde se inclui mesmo um capítulo dedicado a José Saramago. O único autor português considerado na colectânea é abordado num estudo de David Henn, em que relaciona o uso do fantástico com a ficção historiográfica do Nobel português, indo mais além das considerações anteriores, inclusas no livro de Wendy Faris, em que incidia apenas numa obra. Ainda no mesmo ano, foi publicado o livro After colonialism: african postmodernism

and magical realism, de Gerald Gaylard, que foca mais especificamente o pós-modernismo

da literatura africana, tornando-se particularmente interessante quando foca a questão dos estudos de género, atentando nas representações do corpo feminino, com a questão do pós- colonialismo. Christopher Warnes em Magical Realism and the Postcolonial Novel:

between faith and irreverence (2009) considera o realismo mágico como uma tensão entre

dois pólos, o ontológico que se prende com a fé do leitor naquilo que vê espelhado pelo autor no que lê acerca do seu continente de origem e na irreverência técnica e temática de que o realismo mágico se reveste, num puro jogo lúdico onde confluem a intertextualidade, a metaficção, a paródia, a ironia, numa atitude de contestação sociopolítica e des- construção literária. Eva Aldea publica, em 2011, o seu Magical Realism and Deleuze: The

Indiscernibility of Difference in Postcolonial Literature, que entra numa perspectiva mais

filosófica, mas faz importantes ressalvas como uma distinção entre as obras que efectivamente se enquadram no realismo mágico e se tornaram canonicamente representativas desse estilo ficcional, recusando, todavia, obras como O Perfume, que integra no filão mais comercial do género.

«Se pudéssemos desenhar o fluxo de vida que existe em torno duma pessoa, reconheceríamos em redor de cada ser humano outros corpos ilimitados. É precisamente esse o domínio que interessa (...). Esse campo feito do desejo de vida e de morte que não conseguimos controlar, lá onde nós mesmos, o social e o ontológico criam uma sopa viva de materiais humanos fantásticos. Esse é o campo da ficção, onde me movo.»

Lídia Jorge