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O site do MST é um dos produtos mais recentes do setor de Comunicação do movimento, surgido em 1997 como uma evolução das discussões para a área durante o III Congresso do MST, em 1995, e como uma necessidade de ampliar as possibilidades de diálogo com o público externo após o Massacre de Eldorado de Carajás3, em 1996. Conforme descrito no Manual de Comunicação do Movimento (MST, 2011, p. 17), o Congresso teve como palavra de ordem “Reforma Agrária: uma luta de todos”, o que demonstrava a necessidade de expandir o debate do tema Reforma Agrária, ampliando o público envolvido nessa discussão, atingindo não somente a população rural, mas também urbana.

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O Massacre de Eldorado de Carajás ocorreu no dia 17 de abril de 1996 na cidade de Eldorado de Carajás, no sul do Pará. Nessa ocasião foram mortos dezenove colonos sem-terra e mais de 70 ficaram feridos em decorrência da ação da polícia militar daquele estado. O confronto ocorreu quando 1.500 sem-terra que estavam acampados na região promoveram uma marcha em protesto contra a demora da desapropriação de terras, principalmente a Fazenda Macaxeira. A Polícia Militar foi encarregada de tirá-los do local, porque estariam obstruindo uma rodovia, que liga a capital do Pará, Belém, ao sul do estado. A ação da polícia militar resultou na morte dos colonos. Cerca de 150 policiais que participaram da ação foram incriminados, no entanto, 15 anos depois do fato, apenas dois foram condenados e até abril de 2011 aguardavam em liberdade a finalização do processo. Depois do Massacre de Eldorado de Carajás o dia 17 de abril foi marcado como dia internacional da luta dos camponeses, em homenagem às vítimas de Carajás e de outros lugares do mundo. Nessa data, o MST e outros movimentos associados à Via Campesina realizam mobilizações para cobrar o julgamento dos responsáveis pela violência no campo e pela realização da Reforma Agrária. Ao mesmo tempo em que Carajás foi um marco da violência contra os sem-terra, o episódio reinseriu a discussão em torno da Reforma Agrária em nível nacional e também projetou o MST em nível internacional. Devido a essa exposição pública elevada, a página do movimento surgiu como uma alternativa para o setor de Comunicação manter um diálogo com frentes de apoio importantes para o movimento e que muitas vezes estão no espaço urbano ou fora do Brasil.

Concomitantemente a esses dois fatos, no mesmo período assiste-se no Brasil ao processo de popularização da Internet. À época os acessos ainda eram limitados, mas a ferramenta já se revelava como uma aposta interessante no terreno da Comunicação, possibilidade percebida pelo MST, que decidiu expandir suas investidas comunicacionais também para o ciberespaço.

Sendo assim, conforme revela o Manual de Comunicação para os Veículos do MST (MST, 2011, p. 18), a organização decidiu-se por manter uma página na

web, que em princípio obedecia a um formato bastante rudimentar, com conteúdo

fixo e sem atualização sistemática. A partir de 2003 essa mesma página tornou-se mais ágil e passou a contar com atualizações diárias. Nesse período o site já desempenhava um papel importante na Comunicação do MST, comprovado em um primeiro momento durante a Marcha de Goiânia até Brasília, em 2005, quando foi registrada na página a trajetória da marcha e as pautas pertinentes àquela mobilização. As atualizações a partir de textos postados no espaço on-line, e também de áudios, transformados em boletins de rádio que iam ao ar no site, reportavam a situação da marcha dia após dia (MST, 2011, p. 19).

Considerando a possibilidade de ter a página como um meio de Comunicação independente, capaz de abrigar vários recursos para noticiar os fatos relativos ao movimento e ainda ampliar o diálogo do MST, alcançando outros públicos, houve o esforço em investir nesse meio. Dessa forma, a página passou por atualizações tanto na programação visual como no sistema operacional, tornando-se mais ágil. Essas atualizações ocorreram nos anos de 2006 e 2009 assegurando maior flexibilidade, embora o MST reconheça em seu Manual o desafio de operacionalização que esse tipo de ferramenta representa ainda hoje (MST, 2011, p. 19).

As mudanças que garantiram uma página mais rápida também repercutiram em outros aspectos relativos ao site. Como explica Miguel Stédile4, em um primeiro momento o site funcionava como uma espécie de atalho que encaminhava o internauta às páginas do movimento em nível regional. Muitas secretarias estaduais do movimento começaram a criar suas páginas que, segundo Stédile, eram bastante estáticas e tinham dados gerais sobre o MST naquelas regiões, sem atualizações

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constantes. O processo evoluiu para um espaço on-line único, com a supressão das páginas regionais.

[...] a página deve ser referência e fonte de informação para a discussão sobre os modelos de agricultura (agronegócio contra pequena agricultura), a Reforma Agrária, a luta dos trabalhadores rurais sem terra e as realizações do MST [...] (MST, 2011, p. 20-21).

No manual também estão descritas as editorias que devem estar presentes no site, como forma de orientar a produção e a edição de matérias, artigos, vídeos, áudios e fotografias. De acordo com o estabelecido nesse documento (2011, p. 21- 22), o conteúdo da página deveria se enquadrar nas seguintes categorias: agricultura camponesa, agronegócio, educação, cultura e comunicação, lutas e mobilizações, internacional, meio ambiente, projeto popular, reforma agrária, transgênicos, violência e criminalização. De certa forma o que se vê na prática é que a equipe responsável pela página consegue seguir essa linha editorial e manter o conteúdo referente a esses temas bastante atualizado.

No mesmo documento há várias outras indicações para o site como aquelas relativas à linguagem e à abordagem, ou seja, o enfoque que deve ser dado às matérias.

Um desafio permanente da página é garantir todos os dias alguma produção própria, como entrevistas, matérias, artigos. Os textos para a internet possuem uma linguagem particular. Os textos têm que apresentar todas as informações necessárias, mas devem ser curtos e objetivos. Em caso de textos maiores, colocar intertítulos, que facilitam a leitura. Em determinados casos, é melhor dividir o conteúdo, que pode entrar em outros links. É importante não misturar reportagens (de caráter informativo) e notas (com posicionamento político). Isso gera textos panfletários, com menor credibilidade. Quando houver algum manifesto, é importante fazer um texto de abertura mais informativo, com as informações centrais (quem, o que, como, quando, porque) e depois apresentar o manifesto, que deve sempre ser assinado. Em reportagens, apresentar o máximo de informações, como: número de famílias (em ocupações) e pessoas (em marchas e protestos em prédios públicos). O nome, local, cidade, tamanho e problema do latifúndio ocupado (se é improdutivo, cometeu crime ambiental, desrespeito às leis trabalhistas). Sustentar as ações com dados e informações de fontes oficiais quando possível (vistoria do Incra, multa do Ibama, fiscalização do Ministério do Trabalho). As nossas reivindicações e propostas. O número de famílias acampadas no estado (dados de assentados no ano anterior, por exemplo, podem demonstrar a lentidão da Reforma Agrária). Em protestos contra empresas do agronegócio, associar com a luta pela Reforma Agrária e apresentar com foco e objetividade nossos objetivos. Evitar “atirar para todos os lados”, o que dissolve as nossas denúncias e pode cair no vazio. Focar na denúncia em apenas um ponto, como problemas ambientais, produção ilegal de transgênicos, compra de terras por estrangeiros, grilagem, presença estrangeira em áreas de fronteira. Em caso de

acusações e frases de efeito, colocar entre aspas como pronunciamento de algum dirigente. Em relação às notas oficiais, não banalizar. Esse instrumento demonstra uma preocupação da direção do Movimento e deve ser usado em casos específicos, no qual existe a necessidade de fazer um posicionamento e/ou esclarecimento à sociedade (MST, 2011, p. 21-22).

A partir do relato do editor da página, Igor Felippe Santos5, sabe-se que, inicialmente, a construção do site ficou a cargo da Frente Digital do MST. Nesse período a página era feita com base em uma plataforma que não permitia muita mobilidade e que não possibilitava atualizações provenientes de qualquer lugar, “era preciso baixar o programa toda vez que se fazia alguma atualização” (SANTOS, 2011). Posteriormente, a página deixou de ser feita pela equipe da Frente Digital que, em geral, é responsável pela manutenção dos computadores do movimento, funcionando como suporte técnico. Então o MST terceirizou a execução da página, ficando essa incumbência a cargo de parceiros, como uma cooperativa da área de informática que colabora com o movimento. Segundo Santos (2011), para chegar ao

design da página que se vê hoje houve uma consulta junto a um grupo de pessoas

do MST, destacadas para participar desta discussão, atendendo à tradição do movimento de debates coletivos para definir ações em todas as áreas.

Figura 1 - Página do MST no formato atual

Fonte: Disponível em: <www.mst.org.br>. Acesso em: 5 ago. 2011

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Entrevista com Igor Felippe Santos, em fevereiro e março de 2011, realizada na sede da Secretaria de Comunicação do MST, em São Paulo.

Além do conteúdo próprio do MST, a página reproduz matérias daqueles que o movimento chama de “veículos aliados” (MST, 2011, p. 22). Entre eles estão: Brasil de Fato, RadioAgênciaNP, Vermelho, Repórter Brasil, Greenpeace, Instituto Humanitas Unisinos, alguns blogs e sites públicos (Agência Brasil, Senado e Câmara). Também existem os links para consulta ao conteúdo on-line de parceiros como jornal Brasil de Fato, blog da Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária, Rádio Agência NP, Associação dos Amigos da Escola Florestan Fernandes, Minga Informativa e Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones Del Campo.

O internauta pode acessar via site outros produtos do setor de Comunicação do MST como a videoteca virtual Gregório Bezerra – organizada pelo movimento e que tem o objetivo de disponibilizar filmes e vídeos sobre a questão agrária brasileira, de forma a contribuir com o debate sobre esse tema – a Revista Sem Terra e o Jornal Sem Terra, bem como o Informativo Letra Viva, que pode ser recebido, mediante cadastramento, por e-mail e que é produzido pelo MST, sempre abordando um tema central (a edição de 11 de abril de 2011, por exemplo, tratava da contaminação dos agrotóxicos no meio ambiente). Esse informativo não tem sido atualizado e mesmo após termos nos cadastrado para recebê-lo por e-mail o envio não foi feito no espaço de um ano.

No site do MST também há links para as páginas dos parceiros do movimento em outros países, os chamados “Comitês de Solidariedade”, organizados em caráter voluntário por pessoas ou organizações estrangeiras que são simpáticas a causa dos sem-terra. Assim, os internautas de outros países têm acesso a conteúdos gerados pelos comitês na Alemanha (www.mstbrasilien.de), Holanda (www.mstndereland.ne), Suíça (www.infoterra.ch), Finlândia (www.maattomienliike. wordpress.com), Reino Unido (www.mstbrazil.org), Espanha (www.sindominio.net/ mstmadrid), França (http://amisdesansterre.blogspot.com), Itália (www.comitons.it) e Suécia (www.mstse.org).

Esses espaços contêm, muitas vezes, o material que está disponível na página do MST, mas no idioma daquele país. O conteúdo do site do MST é traduzido por voluntários dos Comitês de Solidariedade e reproduzido nos espaços

on-line desses parceiros. O resultado dessa interação virtual, segundo Stédile

movimento, como aquele protagonizado no começo de 20096 por ocasião do fechamento das escolas itinerantes. Conforme relata Stédile (2009), especificamente em relação a esse fato surgiram automaticamente petições on-line lideradas por comitês de solidariedade de outros países, como da Suécia, sem que o movimento tivesse solicitado apoio. A adesão voluntária à mobilização contra o fechamento das escolas itinerantes ocorreu de maneira mais veloz porque os comitês ficaram sabendo da notícia de forma instantânea, através da página. Como explica Stédile (2009), os comitês de solidariedade são uma tradição na luta popular e o MST conta com esses apoiadores desde os anos 80. No entanto, a comunicação do MST com esses comitês era bastante restrita antes da Internet, resumindo-se a contatos esporádicos via correio.

Com a Internet passou a ter uma quantidade, um volume, uma qualidade no fluxo de informação com estes apoiadores internacionais, muito maior. [...] Antigamente para você conseguir um apoio, conseguir divulgar a luta do movimento na Europa, nos Estados Unidos, de um modo geral ficava quase que na oportunidade de um militante viajar para lá [...] (STÉDILE, 2009).