Com esta pesquisa, foi possível traçar o perfil das professoras participantes em relação ao que cada uma entende por avaliação e como realiza o processo avaliativo em sala de aula.
Para esboçar esse perfil, sentimos necessidade de compor as nossas considerações a respeito do processo avaliativo. Assim, tomando como referência autores como Hoffmann (2014a; 2014b; 2014c), Luckesi (2011; 2014), Perrenoud (1999), Santos (2008) e Zabala (1998), entendemos o processo avaliativo como integrado ao processo de ensinar a aprender. Além disso, defendemos que a avaliação deve ser contínua e não deve ser centrada apenas no aluno, mas sim refletida como um conjunto de ações no qual professor e aluno são personagens principais. Foi importante situarmos o nosso posicionamento quanto às avaliações, pois as análises das entrevistas foram tecidas à luz das nossas concepções sobre o processo avaliativo, caracterizando a subjetividade inerente à pesquisa.
O perfil de cada professora foi traçado a partir das seguintes categorias de análise: concepções sobre avaliação reveladas pelas professoras, maneiras de avaliar praticadas pelas professoras e percepções das professoras sobre as avaliações externas.
Na categoria Concepções sobre avaliação reveladas pelas professoras, buscamos compreender, tomando como referência estudos de Thompson (1997) e Ferreira (1998), o significado que as professoras dão ao termo “avaliar”. Consideramos “concepção” como sendo um conjunto de conhecimentos, crenças, visões, teorias e experiências acerca de um
assunto, que, nesta pesquisa, é avaliação da aprendizagem matemática. Assim, essa categoria reuniu as concepções que as professoras traziam a respeito do processo.
Percebemos que as professoras têm como ideia central de avaliação um processo que envolve, acima de tudo, o diálogo com o aluno. Elas situaram a avaliação como uma forma de obter informações sobre o que os alunos aprenderam e sobre o que eles ainda têm dificuldade. Para as professoras, é importante que todas as provas, tarefas e dúvidas sejam corrigidas no coletivo da classe a fim de aproveitar a oportunidade para explicar os erros diagnosticados. Elas defendem ser importante para o processo de aprendizagem do aluno que ele reconheça seu erro para poder superá-lo, sem que isso signifique punição.
Verificamos que as professoras concebem que é papel do professor mudar a estratégia de ensino de um determinado conteúdo se observou que os alunos estão com muita dificuldade em compreendê-lo. No entanto, não fizeram relato de práticas nesse sentido. Para as professoras, os resultados ruins provêm, principalmente, da não dedicação do aluno aos estudos.
A concepção declarada pelas professoras sobre avaliação tende a ser formativa no sentido de investigar a aprendizagem do aluno e de servir como recurso para orientá-lo diante de dificuldades. Elas concebem um processo avaliativo no qual professor e aluno dialogam e participam. Contudo, não nos pareceu haver reflexões delas sobre a própria prática diante dos resultados dos alunos. Prevaleceu a ideia de que o aluno seria o principal agente do seu próprio fracasso, fato que não corresponde ao processo avaliativo formativo.
Outra categoria de análise que compôs o corpo deste texto corresponde às maneiras de avaliar praticadas pelas professoras. Nessa categoria, procuramos captar, a partir dos depoimentos das professoras, as práticas delas relacionadas à avaliação. Investigamos os instrumentos de avaliação e os recursos teóricos para a elaboração desses instrumentos que utilizam.
As professoras relataram que o conceito final do aluno é baseado em provas escritas, trabalhos realizados em sala de aula e tarefas feitas em casa. As provas correspondem a exercícios situados com temáticas do cotidiano ou não e, mesmo que as questões sejam de múltipla escolha, as professoras disseram que pedem para que os alunos apresentem as resoluções para que possam compreender a forma como eles resolvem os exercícios. Apenas a professora Valéria relatou que avalia a partir de trabalhos manipulativos.
As questões das provas elaboradas pelas professoras são semelhantes às questões do SARESP, fato que nos leva a sinalizar que existe uma preparação indireta para o exame ao longo do ano.
Um dos aspectos formativos da prática dessas professoras é o fato de dialogarem com o aluno sobre os erros sem ter como foco a nota final, não considerando como avaliação apenas o desempenho nas provas.
Na categoria Percepções sobre as avaliações externas, buscamos conhecer a compreensão das professoras sobre os exames aplicados externamente no sentido de captar qual o envolvimento delas com essas avaliações e quais impactos os resultados têm sobre a rotina da sala de aula.
As três professoras foram unânimes em afirmar que as avaliações externas não exerciam influência alguma em suas práticas em sala de aula. Entretanto, percebemos uma intensa atividade dedicada à análise dos resultados dos exames e em torno de se encontrar maneiras diferentes para trabalhar com os erros mais recorrentes. Além disso, há uso tanto do livro didático, como apoio, quanto do Caderno do Professor e do Aluno (materiais didáticos produzidos pela SEE/SP), que contemplam questões do SARESP. Em outras palavras, mesmo que indiretamente, as professoras trabalham focalizando tipos de tarefas e de questões de provas nos moldes desse exame.
O processo avaliativo deve contemplar a investigação sobre a aprendizagem e a tomada de atitude diante das informações colhidas e, no caso do SARESP, são coletadas informações que vão servir como fundamento para elaboração de políticas para melhoria do ensino. No entanto, a partir dos depoimentos das professoras, nem elas e nem os alunos da escola sofrem influência e, por isso, não veem sentido em tal exame.
Assim, essa categoria também nos permitiu refletir que o desempenho dos alunos é reflexo de um trabalho contínuo, desenvolvido ao longo do ano todo, o qual toma como base exercícios semelhantes aos do SARESP e, portanto, ocorre uma preparação não intencional para tal exame, mas que resulta em bons resultados, os quais são reconhecidos pela comunidade escolar e também pela comunidade local.