O movimento Feminista conceitua o termo humanização75 como
[...] uma atenção que reconhece os direitos fundamentais de mães e crianças, além do direito à tecnologia apropriada, baseada na evidência científica. Isso inclui: o direito à escolha do local, pessoas e formas de assistência no parto; a preservação da integridade corporal de mães e crianças; o respeito ao parto como experiência altamente pessoal, sexual e familiar; a assistência à saúde e o apoio emocional, social e material no ciclo gravídico-puerperal; e a proteção contra abuso e negligência.
A humanização do nascimento, por sua vez, é um movimento gestado a partir dos questionamentos sobre a sexualidade surgidos em meados do Século XX. De acordo com Balaskas (2015, p. 13), “apesar de os trabalhos de Grantly Dick-Read terem sido produzidos nos anos 1940, e de Robert Bradley ter começado seu trabalho de desmedicalização do parto e inserção do parceiro no ambiente de nascimento nos anos 50, foi depois da publicação de
Birth Without Violence, de Fredérik Leboyer, que a discussão sobre uma nova abordagem do
parto tomou um forte impulso”.
75 Rede Feministas de Saúde. Dossiê – Humanização do Parto. São Paulo, 2002. Disponível em:
<http://www.redesaude.org.br/home/conteudo/biblioteca/biblioteca/dossies-da-rede feminista/015.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2017, p. 14.
Parafraseando Nara Santos, em seu texto, Marques (2017, p. 25) diz que
o ‘parto humanizado’ é um movimento reflexivo que almeja reorganizar a conduta de atendimento ao parto a fim de promover um maior respeito aos direitos reprodutivos das mulheres e uma diminuição da morbi-mortalidade materna e neonatal.
Historicamente, a crítica à assistência ao parto começou a partir de algumas abordagens que se traduziram em várias perspectivas. De acordo com Diniz (2005), a primeira abordagem para o movimento foi o parto sem dor na Europa; depois, o parto sem medo; posteriormente, o parto sem violência; e, mais recentemente, o parto natural, advindo do movimento hippie e da contracultura.
Uma das militantes mais respeitadas do mundo chama-se Janet Balaskas, uma educadora perinatal sul-africana que foi uma das idealizadoras e ativistas de alguns dos maiores movimentos que contribuíram para mudar a história do parto e da obstetrícia na Europa. Hoje ela tem vários livros publicados. O mais recente chama-se Parto Ativo (2015), que já está na terceira edição publicada no Brasil. Ela liderou o movimento organizado de mulheres que denunciou e aboliu práticas obsoletas e agressivas na assistência obstétrica da Inglaterra76.
Esses feitos foram conseguidos porque, no norte de Londres, um grupo de mulheres, conscientes das vantagens do parto ativo, começou a tentar dar à luz nos hospitais da região adotando posições verticais. Algumas conseguiram e foram encorajadas por obstetras, outras encontraram muita oposição. Insatisfeitas com o sistema obstétrico inglês, elas organizaram uma manifestação nas ruas de Londres, que mobilizou seis mil pessoas para protestarem contra as episiotomias (cortes vaginais) de rotina e a imobilização das parturientes no leito.
O movimento pelo parto ativo foi criado na década de 80, e o ‘Manifesto pelo Parto Ativo’ foi redigido, pela primeira vez, em abril de 1982, por Janet e Arthur Balaskas e revisado por Janet Balaskas em fevereiro de 2001. Segundo Balaskas, (2015, p. 399), “a ocasião foi marcada por uma manifestação no dia 4 de abril, denominada The Birthrights
76 Nesse país, a forma mais comum de se referir à humanização do parto é chamando-o de ‘Parto
Rally (Comício pelos direitos de parir). Originalmente, o grupo planejou ficar de cócoras no saguão de entrada de um hospital”.
O comício foi um protesto contra os hospitais que negavam às mulheres o direito e a liberdade de se movimentarem durante o trabalho de parto e de darem à luz em posição vertical – de cócoras ou de joelhos – apesar das evidências77 sobre suas vantagens, pois a importância de basear práticas de saúde na melhor evidência disponível e de traduzir o conhecimento ou evidência em ação é cada vez mais enfatizada na maioria dos países. Alguns meses depois, novamente milhares de pessoas participaram de duas conferências internacionais pelo parto ativo, que provocaram mudanças significativas na assistência ao parto na Inglaterra, e os princípios do parto ativo foram sendo postos em prática mais amplamente, à medida que aumentava o conhecimento da fisiologia normal do processo de parto. Corroborando o pensamento de Beauvoir (1949), Lima (2008, p. 369) afirma:
Do ponto de vista da função reprodutiva, o corpo também funciona como um instrumento de singularização da condição feminina, contribuindo para a definição dos papéis que a mulher vai ocupar na sociedade. Isto não significa que o corpo, enquanto dado biológico, tenha autonomia para explicar a condição de inferioridade vivenciada pelo gênero feminino, ao longo da História. Assim se explica porque o corpo, enquanto objeto social, sofre a influência cultural advinda das relações sociais, a partir das quais os valores vão definir o que é positivo e negativo socialmente pois, “não é enquanto corpo submetido a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza: é em nome de certos valores que ele se valoriza”. (Beauvoir, 1949: 56)
O então chamado Movimento pelo Parto Ativo, criado nos anos 80, tem ramificações por todo o mundo. É basicamente conduzido por mulheres que redescobriram o parto por
77Cortês, et. al. (2015: 2), afirmam que “o cuidado com a saúde baseado em evidências se origina de
questões clínicas relacionadas às necessidades de saúde. A partir dessas questões, o conhecimento e as evidências são gerados por meio da pesquisa. Os demais componentes desse processo são: 1) avaliação e síntese das evidências geradas pela pesquisa; 2) transferência e uso das evidências na prática; 3) avaliação do impacto do uso das evidências na melhoria da saúde”
meio da própria experiência. Mulheres que optaram por abandonar a mesa obstétrica e dar à luz fora do padrão de assistência médica em vigor. Consequentemente, transmitiram o que aprenderam para as outras e, com esse engajamento, estão criando uma nova tradição na forma de contestação feminista, auxiliando mulheres de todas as partes do mundo a recuperarem sua autonomia, especialmente, quando na condição de gestantes. O movimento ainda traz a noção de ‘parto roubado’, que aparece recorrentemente nas falas de muitas mulheres cujo parto foi uma experiência traumática - física ou de caráter simbólico.
Ainda na década de 1980, o Reino Unido vivia o que era chamado de Active
Management of Labour (manejo ativo do trabalho de parto). Esse termo descrevia um processo conduzido pela Medicina, com indução seletiva no hospital, anestesia peridural e monitoramento eletrônico contínuo dos batimentos cardíacos do bebê. É claro que essa situação representa uma perda total do controle e do poder da mulher em processo de parto, cuja única opção é deitar-se de costas e deixar o médico assumir o comando. Juntamente com ela, havia mulheres que comungavam do mesmo pensamento e acreditavam que o bebê sabe quando nascer, portanto, esperavam que o trabalho de parto se iniciasse espontaneamente. Durante o trabalho de parto, as mulheres decidiram sair da cama e adotar as posições que consideravam mais confortáveis e práticas.
Essa liberdade do corpo significava muito mais do que apenas uma questão de posições. Significava que a mulher estava resgatando o controle sobre seu corpo e reivindicando o poder do parto. Chamei isto de Parto Ativo, em oposição ao Manejo Ativo do Trabalho de Parto. Nem imaginava que essas duas palavras se tornariam um termo genérico conhecido no mundo inteiro e que teria um efeito tão transformador nas práticas adotadas no processo de parto. (Balaskas, 2015: 36)
Para criar esse conceito, depois que sua filha nasceu, a educadora Janet Balaskas decidiu pesquisar a história do parto para descobrir mais sobre como as mulheres davam à luz ao longo dos tempos e em outras culturas em que o parto não é medicalizado. De todas as imagens que levantou, não havia uma de mulheres parindo de costas. Ao contrário, as mulheres de todas as partes do mundo eram retratadas adotando posições verticais durante o
trabalho de parto e o parto. Isso aparentava um dado universal e transcultural, razão por que decidiu analisar o formato da pélvis feminina, e logo percebeu que ela é perfeitamente desenhada para se abrir para o parto em posições verticais, o que proporciona que a poderosa força da gravidade ajude o bebê a descer e a fazer rotações e que a mãe ajude seu bebê e estimule o processo de parto. Então, concluiu que, ao longo de milhares de anos, a anatomia e a fisiologia do parto não tinham sofrido alterações em sua essência. Por outro lado, a atitude cultural certamente que sim.
O conceito de parto ativo é uma pedra fundamental na história do parto. Colocar essas duas palavras juntas foi, por si mesmo, um toque de gênio: “parto ativo” cobre uma gama enorme de significados, em níveis diferentes e complementares. (Odent, 2015: 11)
Para Michel Odent78 (2000), médico e pesquisador francês, existem três níveis dentro da lógica do parto ativo. O primeiro é o muscular; o segundo adentra profundamente o processo fisiológico do nascimento; e o terceiro refere-se à atitude da sociedade em relação ao parto. Assim, as tecnologias de comunicação e as biotecnologias passam a ser ferramentas cruciais no processo de remodelação dos corpos (Haraway, 2013), porquanto corporificam e impõem novas relações sociais para as mulheres em todo o mundo.
A fronteira entre ferramenta e mito, instrumento e conceito, sistemas históricos de relações sociais e anatomias históricas dos corpos possíveis (incluindo objetos de conhecimento) é permeável. Na verdade, o mito e a ferramenta são mutuamente constituídos. (Haraway, 2013: 64)
78 É um dos profissionais mais importantes da área do nascimento no mundo atualmente e uma
referência sobre o assunto há décadas. Autor de mais de 50 publicações científicas e mais de 10 livros publicados em várias línguas. Fundou, em Londres, o Centro de Pesquisa em Saúde Primal, com o intuito de estudar as correlações entre o que acontece no período que vai da concepção ao primeiro ano de vida – o chamado período primal - e a saúde e o comportamento ao longo da vida da pessoa.
No que concerne ao terceiro nível proposto por Odent (2000), a sociedade deve, através desse fenômeno, refletir mais e compreender mais a si própria. Assim, afirma Certeau (1996: 31), “uma história a caminho de nós mesmos, quase em retirada e, às vezes, velada”. Uma história a ser contada, a partir de uma mudança de atitude que, necessariamente, denota mudanças de cunho cultural.
Sobre isso, Castells (2000: 23) diz que, “em um mundo de fluxos globais de riqueza, poder e imagens, a busca pela identidade, coletiva ou individual, atribuída ou construída, torna-se a fonte básica de significado social”. Assim, dentre os discursos que permeiam o movimento, considera-se importante ‘empoderar’ as mulheres e promover práticas baseadas em evidências como estratégias para melhorar o modelo de assistência obstétrica e a vida e a saúde de sua população.