Existem indicações da influência de Schelling sobre Humboldt. Entre eles, pode- se perceber a concepção de uma ciência totalizante que extrapola seus limites em direção a uma dimensão estética do conhecimento. Pode-se falar, também, de uma visão holística, que integra não somente a arte e a ciência, mas também a subjetividade e a objetividade. Existem outros indícios, mas as cartas trocadas entre eles evidenciam essa influência de uma maneira mais precisa.
Humboldt, depois de sua volta da viagem ao Novo Continente, em janeiro de 1805, recebeu de Schelling a seguinte carta:
Ouso endereçar-me a você sobre o objeto da filosofia natural, desde que fui assegurado que essa nova escola de filosofia, a qual novamente conservou sobre sua antiga possessão, a natureza, tinha já chamado sua atenção. Grande expectativa foi tomada em relação a isso na Alemanha, onde sempre há muita oposição a tudo que seja novo. Primeiramente ela foi mal interpretada, depois mal representada [...]. Filosofia natural tem sido representada como experimento desprezível, e rejeitado seu emprego a cada vez que investigadores individuais têm conduzido seus experimentos sob a orientação de ideias filosóficas. Nenhum dos investigadores científicos na Alemanha ainda compreendeu completamente essa filosofia [...]. Se um homem com seu Gênio, cedo imbuído com o espírito dos clássicos, possuído por uma profunda variedade de informações, incluído, se tal coisa fosse possível, todo o alcance da moderna ciência, cujo conhecimento tão importante na história do mundo não é confinado simplesmente à presente geração e sua imediata predecessora, mas estendido também ao século passado – se um gênio com tal universalidade pudesse colocar essa nova teoria à prova, tão cedo poderia seu destino ser decidido, e quão entremente isso promoveria o desenvolvimento do pensamento!
Razão e experiência nunca devem ser mais do que aparentemente opostas, e tenho, portanto, firme convicção de que você não irá falhar em notar o mais surpreendente acordo entre teoria e experimento em muitos pontos da nova filosofia. Sua consciência tem em uma época empírica ultrapassado tão ousadamente as fronteiras prescritas da física, que você deve estar pronto para conhecer as fortes visões da presente teoria (SCHELLING30 apud BRUHNS, 1873, p. 202-203).
Humboldt logo o respondeu:
Você terá indubitavelmente ouvido do senhor W. quão desejoso estou em adotar tudo o que é grande e belo no novo sistema de filosofia, o qual você vem propondo durante os últimos poucos anos. O que, na verdade, poderia ter chamado minha atenção completamente do qual tal revolução ocorrendo nos estudos dessas ciências para as quais minha vida inteira é devotada? Depois de estar fora da Europa por seis
30
anos, sem livros, e proximamente ocupado com a natureza, minha mente foi mantida mais livre do preconceito que foi possível para muitos fisicistas, que se tornaram mais fixados em suas antigas interpretações da natureza do que no objeto de seu estudo – a própria natureza. Não! Eu vejo a revolução que você reproduziu na ciência com um dos mais felizes eventos desses tempos impetuosos.
Hesitando entre a teoria da ação química e da erupção violenta, sempre suspeitei que algo mais alto e melhor tinha que ser alcançado, para o qual a origem de tudo poderia ser traçada, e para essa mais alta causa original estamos em débito com nossas descobertas.
Não deixe, portanto, que essas descobertas lhe aflijam, como tudo mais que significa para o ser do mundo, poderia agir para algumas pessoas como um veneno. Filosofia nunca pode provar um impedimento para o avanço da ciência empírica. Ao contrário, ela traça os princípios fundamentais para cada nova descoberta e desta maneira permite a fundação de novas descobertas [...]. Tenho dessa maneira lhe dado, meu excelente amigo, uma explicação cândida. Embora habitualmente contemplando a natureza em seu aspecto externo, não existe ninguém que possui maior admiração do que eu pelas criações deduzidas do profundo e próprio pensamento humano (SCHELLING31 apud BRUHNS, 1873, p. 203-204).
Humboldt, portanto, sempre aspirou a ocupar um lugar mais alto do que as próprias ciências naturais propiciariam. Sua inspiração filosófica estabelece o norte para suas ações e seus estudos empíricos. São, em verdade, princípios gerais que fundamentam cada uma das suas descobertas e orientam as novas. O desenvolvimento do pensamento intuitivo e reflexivo de Schelling sobre a filosofia da natureza servirá de parâmetro para as atividades científicas de Humboldt, assim como para auxiliar em sua exposição e apreciação estéticas da natureza. A filosofia da natureza não se opõe ao empirismo em Humboldt; pelo contrário, a especulação e a empiria podiam se completar.
Na ciência de Humboldt implica compreender na natureza tudo aquilo que é grande e belo, investigando os princípios fundamentais da vida e da sua origem como a motivação fundamental para o conhecimento sobre a natureza. Nela, Humboldt reconhece sua dimensão filosófica e poética, integrada harmonicamente e apreendidas pela intuição sensível.
A aproximação de Humboldt com a filosofia alemã do final do século XVIII e início do século XIX transparece tanto na interpretação da natureza quanto em sua exposição. Mas o que mais aproxima Schelling de Humboldt é a compreensão da unidade da natureza e do seu desenvolvimento orgânico harmônico e belo.
Seria pelo menos necessário lembrar que é na questão do contato direto com a beleza da Natureza, no retiro moral junto a ela, e mais especificamente, no desejo humboldtiano de criar uma “física do mundo” em plena concordância com a forma “estável” e “segura” dos fatos, instrumento fecundo para o “progresso da formação humana”, que o passo levado à ambição da totalidade foi dado. Dito isso, reconhece- se – sob esse conjunto do Kosmos – o fio condutor de uma preocupação maior e constante – o da linguagem do espírito criador, em convergência com a força
31
criadora da Natureza apta a reunir, de modo especular arte e ciência. É por isso que o romantismo de Humboldt se abre conjunta e indissoluvelmente como uma ação do espírito, uma ação totalizante da arte e da ciência, pelo seu feito de “impressão total” (RICOTTA, 2003, p. 115).
A prática romântica de Humboldt, segundo Ricotta, parte do conceito do todo sendo realizado tanto na imaginação quanto na prática da experiência na natureza. Além do mais, ele expressa um apelo à imagem, ao olhar sobre a natureza, que ocorre como um pressuposto de ação diante da paisagem. A experiência do olhar postula um conhecimento prático e moral do sujeito.
A dimensão moral na apreciação da natureza é uma das premissas de Schelling que se reflete também em Humboldt. A finalidade da observação da natureza e o prazer que ela proporciona têm a ver com a elevação moral do sujeito. O cosmos representa a visão mais ampla da força expansiva da natureza, que é compreendida a partir da visão poética das “cenas da natureza” em Humboldt. Sua ética do olhar expande os limites da razão e avança na estética intuitiva.
Humboldt, sem dúvida, encarna uma variante de ideia de sistema como objeto do agir, cujo valor é alcançado quando o homem, alçado ao Standpunkt, experimenta a imaginada comunhão íntima com a Natureza. Sonhando sempre com a elevação através da “apreciação reflexiva”, Humboldt pensa nos termos de uma totalidade entre o objetivo e o subjetivo. Numa maneira muito específica, inclusive, a comunhão entre espírito e natureza dá uma origem dramática ao modo de agir, pois o mundo já é suficientemente incerto e saturado pelas múltiplas representações. Nada de acentos trágicos. Pelo contrário. Essa origem é preservada na sua grandiloquência e integridade, no momento mesmo em que ameniza qualquer debate advindo de alguma intransigência entre ideias e sentimentos (RICOTTA, 2003, p. 121).
As ciências naturais fragmentadoras da realidade foram alvo de ambos os pensadores, pois a unidade do cosmos é um dos pontos de conexão entre Humboldt e Schelling. Outra similitude pode ser encontrada na intuição como meio de apreensão do todo, ponto de partida de suas ciências. Porém, a intuição, para Humboldt, nos moldes de Kant, tem que ser sensível. Na junção entre o pensar e o agir encontra-se o princípio de sua ciência. “A natureza, reflexionante e totalizadora, da estética em Humboldt fomenta a unificação entre pensamento e intuição, espírito e matéria ou experiência e saber” (RICOTTA, 2003, p. 73).
Humboldt expressa a tentativa de junção entre a materialidade apreendida na experiência e o seu efeito causado na subjetividade. Por isso, ele não se contenta com a separação entre a ciência, a filosofia e a estética. A ciência e a arte buscam o mesmo fim. E se
a ciência busca o caminho mais consciente, racional, a arte desperta o subjetivo, o intuitivo. Em Humboldt, é a linguagem estética que apresenta a ciência do cosmos.
Não é exagero, talvez, em acreditar-se que Schelling contribuiria de modo ainda mais decisivo para que, em Humboldt, a concepção totalizante da darstellung estética tornasse caracteristicamente singular sua ciência. Dado seus cursos sobre
Filosofia da Arte, em Jena (1802-1803) e em Würzburg, tendemos, aliás, a reforçar
tal suspeita. E a circunstância de, depois dessa preleção, ter sido aberta a perspectiva inconfundível do idealismo transcendental pode inclinar à suposição de que a arte seria para filosofia um objeto mais generalizado do que se pode presumir à primeira vista (RICOTTA, 2003, p. 74-75).
Para Schelling, a intuição intelectual seria uma garantia a priori do absoluto e manifestaria a impossibilidade de se apreendê-lo na experiência imediata. O resgate do absoluto tem como intenção recuperar a unidade perdida entre a subjetividade e a objetividade, ou entre o ser humano e a natureza. A impossibilidade de se alcançar a totalidade por meio da experiência empírica tornou a intuição intelectual a chave para recuperar o absoluto, envolto por uma concepção mística de natureza. O conhecimento intuitivo da natureza fornece de imediato a sua apreciação reflexiva; ou seja, um conhecimento que se forma sem necessariamente precisar de uma mediação lógica para desvelar o que se vê na aparência da natureza.
Humboldt também não se contenta em compreender os fenômenos físicos apenas medindo e contabilizando seus dados. A pintura da natureza oferece algo mais, um conhecimento que se origina do efeito da visão sobre a natureza, mas que vai além dela ao desvelar na realidade um todo organizado que dá vida e dinâmica à particularidade de suas manifestações. A imaginação dá asas ao observador, que promove o encontro entre a subjetividade e o real.
Para Ricotta (2003), o projeto de ciência de Humboldt é reflexo da ruptura com a metafísica dogmática. Ao cientista cabe indagar sobre o papel que o inteligível fornece ao mundo sensível e sobre a influência que ele exerce sobre a razão na modernidade, o fato de que o espírito encontra-se a partir do mundo sensível. É o ato do homem se apresentar como sensível que desperta nele o desejo pelo não sensível.
Há uma opção em Humboldt e Schelling de compor uma visão abrangente que subsume a fragmentação dos fenômenos sob um conjunto de leis posto pelas ciências naturais. A intuição de um todo orgânico mediante a construção conjunta da ciência com a arte e a filosofia tem como objeto essa visão ampla do conhecimento. O Standpunkt assume um papel importante, porque é o ponto de partida do sujeito diante da natureza que prevalece na análise
da paisagem. Quanto mais o cientista, o artista e o filósofo compartilhem a ideia de uma visão mágica do universo, mais eles se aproximam da “verdade inteligível”.
Assiste-se a um processo de laicização da ciência em Humboldt pertinente à separação entre teologia e ciência no movimento da Aufklärung, por outro lado, verifica-se ainda na investigação cósmica da Natureza certo teologismo dominante, que se desdobra na busca inclemente de Humboldt por uma “física do mundo”, e pela expressividade estética dos fenômenos apreciáveis numa totalização (RICOTTA, 2003, p. 82).