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Et komplekst perspektiv

A relação entre níveis de análise do discurso e níveis da análise textual está sintetizada na figura seguinte, que é redefinida por Passeggi et al (2010, p. 265) a partir do esquema apresentado por Adam (2008a, p. 61), com pequenas modificações: introdução do termo socioletos ao invés de línguas e maior destaque aos gêneros.

Figura 2 – níveis da análise de discurso e níveis da análise textual15- Fonte: Passeggi et al (2010, p. 265)

Podemos observar que a figura apresenta oito níveis de análise (sendo três níveis discursivos e cinco níveis textuais), sobre os quais faremos uma breve descrição, ainda com base em Passeggi et al (2010), apresentando seus principais tópicos. É importante ressaltar que o modelo teórico da ATD é definido com base nesse esquema.

15 Na segunda edição (2011), Adam acrescenta algumas modificações na parte superior desse

quadro. No N3, em vez de línguas, temos gêneros e no lugar de socioletos, aparece intertextos. Há também alterações na disposição dos níveis N1, N2 e N3 (Cf. ADAM, 2011, p. 61).

No nível discursivo (parte superior da figura), uma determinada intencionalidade (ação visada) realiza-se numa interação social e numa formação discursiva dadas, utilizando o socioleto dessa formação e no interior de um interdiscurso, com a mediação de um gênero. Adam (2008a, p. 63) elucida esse esquema, observando que toda a ação de linguagem se inscreve em uma determinada formação sociodiscursiva, que deve ser pensada como “[...] um lugar social associado a uma língua (socioleto) e a gêneros de discurso”. O gênero, segundo entendimento de Passeggi et al (2010), é o eixo da articulação discurso/texto e, no esquema acima, poderia situar-se na fronteira texto/discurso. Os autores ressaltam ainda que, dada a sua crescente importância, o gênero também poderia ser tomado como categoria de análise da linguística textual no Brasil. Exemplificaremos os níveis, tanto da análise discursiva como da análise textual, tomando como base o nosso corpus de estudo.

No nível 1, que está em correspondência com o nível 8, ancoram-se os objetivos, as ações visadas: manter os laços de amizade; trocar informações sobre eventos culturais e literários; pedir informações específicas, como o significado de um termo regional; dar e pedir parecer sobre um texto literário; pedir exemplar de livros, revistas.

No nível 2, a interação, no caso do nosso corpus, se dá a distância, por meio das mensagens trocadas entre os dois intelectuais. Há também interação dos familiares e amigos de ambos os correspondentes. Essa interação é mediada por intermédio dos gêneros utilizados na correspondência: cartas, bilhetes, telegramas.

No nível 3, a formação sociodiscursiva: inscrevem-se as posições ideológicas dos dois missivistas. É nesse nível que os sentidos se constroem: as palavras, as expressões, as proposições adquirem seu sentido na interação, o qual é determinado pelas posições ideológicas produzidas no processo social-histórico no momento de sua produção. As expressões utilizadas definem a relação de seu produtor com a ideologia, ou seja, elas se inscrevem em uma formação discursiva que determina o que pode e deve ser dito: no caso em estudo, as posições ideológicas dos dois escritores. É na formação discursiva que o sentido se constitui e o sujeito se identifica.

 interdiscurso: dentro das cartas, encontramos outros gêneros, como poemas, listas de títulos, índices de ensaios.

 socioleto: a variante dos dois intelectuais, conforme suas regiões (um nordestino e um paulista); com expressões regionais típicas e características linguísticas (lexicais, fraseológicas, retóricas) marcantes. Além dos inúmeros neologismos semânticos e lexicais. Exemplos:

“Riquifífi é que é o tal ditinho mandado.” (LCC).

“Estou carecendo de arames pra pagar o médico.” (MA) “Quisemos rir um poucadinho e sarapantar o público.” (MA)

 gênero: dentro do gênero mais amplo das cartas, trata-se de um subgênero, o da “carta pessoal”, o qual tem resistido às inovações da era digital e tecnológica e tem se mantido, servindo à manutenção de relações sociais com propósitos comunicativos diversos.

Os níveis 4 e 5 (proposições, períodos, sequências e planos de texto) remetem diretamente à textura/composicionalidade do texto, de forma mais abrangente à sua sequencialidade. Nesse nível, encontramos diferentes sequências, já que se trata de gênero bastante heterogêneo quanto à sua composição.

Os níveis 6, 7 e 8 (representações discursivas, responsabilidade enunciativa e valor ilocucionário) são dimensões constantes ao longo dos textos, quer se trate de cada texto individualmente ou do conjunto dos 20 textos, pois cada enunciado elementar dos textos expressa um conteúdo semântico, um ponto de vista e um valor ilocucionário / argumentativo.

Conforme observam Passeggi et al (2010), esses níveis (6, 7 e 8) constituem categorias semântico-pragmáticas que se distribuem em diversos pontos da linearidade, podendo sua manifestação ser tanto linear quanto reticular (em rede). Isso leva os autores a entender que “[...] uma dada representação discursiva pode ser construída em vários pontos do texto, não necessariamente sucessivos.” (op. cit. p. 268). Essa interpretação, segundo eles, não é explicitada em Adam

(2008a), mas já está contida na ATD. Dessa forma, as dimensões semântica, enunciativa e argumentativa são abordadas com base no enunciado mínimo.

Soares, Passeggi e Silva Neto (2010), analisando um discurso político, revisitam esses níveis, simplificando sua organização e condensando-os em quatro níveis principais: sequencial-composicional, enunciativo, semântico e argumentativo. O nível sequencial-composicional refere-se diretamente à estrutura linear do texto. Neste nível, as sequências têm papel fundamental. Os enunciados elementares (proposições-enunciado) se organizam em períodos, que comporão as sequências. Estas se agrupam de acordo com um plano de texto.

O nível enunciativo, que se expressa linearmente, mas também pode corresponder a uma estruturação não linear do texto, é baseado na noção de

responsabilidade enunciativa, que corresponde às vozes do texto, à sua polifonia. A

explicitação da responsabilidade enunciativa, conforme observam os autores, apresenta diversas características não lineares.

Os níveis semântico e argumentativo, à semelhança do nível enunciativo, também são expressos linearmente, podendo, também, corresponder a uma estruturação não linear do texto. O nível semântico se apoia na noção de

representação discursiva (Essa categoria será tratada na seção 2.6) e em noções

conexas, que remetem ao conteúdo referencial do texto: anáforas, correferências, isotopias, colocações. O nível argumentativo é embasado nos atos de discurso realizados e na sua contribuição para a orientação argumentativa do texto.

Este trabalho centra-se no nível semântico (N-6), focalizando as representações discursivas construídas no conjunto dos 20 textos analisados, em pontos não sucessivos, por meio de diferentes categorias semânticas.