O já discutido déficit habitacional brasileiro, mais especificamente do Estado do Ceará, é uma das justificativas do presente trabalho. Segundo Adriazola (2008) “Este déficit está diretamente relacionado com a população de baixa renda”. Esta realidade destaca a
importância na busca por soluções que ofereçam às populações de baixa renda alternativas para construções mais viáveis. Devido à baixa renda familiar, é preciso pensar em soluções que sejam tecnologicamente apropriadas e que atendam às necessidades destas populações, acatando o conceito de desenvolvimento sustentável. Este conceito foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas – ONU na Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) (1988) em relatório que diz este ser a “capacidade de suprir as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades”.
O termo sustentabilidade foi definido a partir deste evento, e foi amplamente divulgado a partir deste relatório, sendo hoje cada vez mais utilizado por diversas áreas do conhecimento. Nakamura (2009) afirma que a sustentabilidade é um dos principais argumentos dos defensores do sistema wood frame, e são três os principais fatores:
Utilização de madeira de reflorestamento; Menor pegada de carbono;
Racionalização de recursos.
Gehring Junior & Molina (2014) afirmam que ainda “existe a associação do uso da madeira a devastação de florestas, parecendo que seu emprego consiste numa ameaça ecológica”. Porém os autores afirmam que tal crença não é verdadeira, enfatizando que o uso da madeira de reflorestamento, como as espécies utilizadas para a construção de edificações em wood frame, o pinus sp e o eucaliptos sp, “associado ao manejo florestal e a maiores incentivos fiscais para reflorestamentos, tem garantido a preservação e uso racional dos recursos da floresta”.
Ainda sobre a utilização de madeira plantada no sistema wood frame, Menezes Filho (2016) diz que a preservação das florestas é o que mais inibe a expansão do uso da madeira na construção civil, pois seu uso em larga escala “exige práticas vigorosas de reflorestamento para suprir a demanda e tornar a madeira material, de fato, competitivo e viável”. A respeito do reflorestamento, Nakamura (2009) afirma que:
Uma barreira a ser transposta é a ideia de que construir com esse tipo de material implica, necessariamente, desmatamento de áreas verdes preservadas. "É importante frisar que quando falamos em construção leve de madeira, nos referimos a um sistema construtivo baseado exclusivamente no uso de madeiras de reflorestamento e que é extremamente racionalizado", ressalta José Franco, lembrando que a madeira é o único material de construção renovável que demanda quase que unicamente energia
solar para ser produzida, enquanto o cimento, o aço e os blocos cerâmicos, por exemplo, utilizam-se de outras matrizes energéticas menos sustentáveis.
A autora compara os materiais principais do sistema wood frame e do sistema convencional brasileiro, de forma que foi possível demonstrar de forma clara e acessível que o processo do desmatamento não é um impeditivo para a execução do sistema. Porém, é importante lembrar que cabe ao construtor a função de acompanhar a procedência da madeira adquirida, de forma a intimidar procedimentos abusivos de exploração de materiais de construção.
Sobre a questão da pegada de carbono, Nakamura (2009) afirma que “durante o seu processo de crescimento, as árvores reflorestadas sequestram carbono, colaborando para a redução do efeito estufa, em vez de agravá-lo”. Porém, Monich (2012) complementa a informação, afirmando que existem fatores que podem eliminar essa vantagem do sistema, como a procedência da floresta e o transporte da madeira:
A estratégia de utilizar materiais à base de madeira em aplicações duráveis promove a fixação de carbono, porém estes produtos têm de ser de floresta plantada certificada e não devem estar a uma grande distância dos pontos de aplicação, para que o impacto do transporte não anule esta fixação. A quantia de 90 kg de CO2/m2 – já descontados o carbono fixados nos materiais a base de madeira – emitidos na produção dos materiais componentes da habitação em Wood Frame é sensivelmente menor do que os 229 kg de CO2/m2 emitidos na produção dos materiais da habitação em alvenaria.
A autora finaliza dizendo que “no contexto da construção civil, produtos de função semelhante podem ter a sua escolha definida no quesito de transporte dos materiais até o canteiro de obras, definindo qual seria a melhor opção”. Com isso, para afirmar que a implantação do sistema wood frame no Ceará é ambientalmente viável, é necessária a realização de estudos que comprovem o impacto do transporte da madeira do Sudeste para o Nordeste do Brasil, visto que não existem florestas de madeira plantada no Estado do Ceará. Para isso, a ferramenta de contabilidade de impacto ambiental mais indicada é a ACV, que fornece base para que a empresa fabricante do sistema wood frame identifique os pontos que necessitam de melhorias (MONICH, 2012). Porém, a autora indica que para que este processo possa ocorrer “é necessário que exista um banco de dados que reúna informações sobre matéria-prima, consumos energéticos, emissões atmosféricas, desperdícios do processo, entradas e saídas tecnológicas, entre outras”.
A empresa Tetti, abordada nas visitas técnicas do presente estudo, empresa brasileira construtora de telhados e edificações em wood frame com madeira plantada, contratou uma consultoria especializada para determinar a pegada de carbono de seus produtos por meio
da ferramenta ACV. Os resultados apontam para uma pegada de carbono dos telhados em madeira plantada da empresa “trinta e seis vezes menor, quando comparada com a utilização de madeira Amazônica não sustentável, infelizmente uma prática muito comum no mercado” (TETTI, 2015). Já em estudos desenvolvidos para edificações em wood frame, comparou-se a pegada de carbono de uma casa produzida com este sistema com a pegada de uma edificação similar, porém construída pelo sistema convencional de alvenaria. “O resultado indica uma diferença de quase 35% na pegada de carbono do sistema construtivo wood frame com relação ao sistema construtivo convencional” (TETTI, 2015), confirmando o menor impacto do sistema wood frame frente ao convencional em alvenaria.
Por fim, a questão da sustentabilidade inclui ainda a racionalização de recursos que vão além de somente materiais de construção, mas incluem também tempo de produção e recursos financeiros. Nakamura (2009) aponta que o fato do sistema wood frame ser desenvolvido em ambiente industrial contribui bastante para a racionalização de recursos:
A concepção do sistema construtivo em ambiente industrial poderia, ainda, reduzir significativamente desperdícios, altamente impactantes nos sistemas de construção tradicionais. "Em média, o índice de perdas no wood frame é inferior a 10%, valor que pode ser ainda menor conforme a experiência adquirida", revela Franco.
Com relação à produtividade e o custo de produção, Monich (2012) afirma que a construção no sistema wood frame apresenta como características vantajosas, dentre outros exemplos, um menor tempo de execução. Em seu trabalho, foi apresentado um estudo de caso onde a manufatura do produto durou apenas 36 horas. A autora aponta ainda, como vantagem do sistema, que “o custo de uma habitação pré-fabricada em Wood Frame é mais baixo que uma em alvenaria convencional, além do ganho na espessura da parede”. Com isso, as economias de tempo e recursos financeiros caracterizam também o caráter sustentável do sistema wood frame.
Com relação às desvantagens ambientais, alguns autores apontam limitações relativas ao tratamento em autoclave, como Monich (2012) que citou que “as madeiras tratadas com preservantes podem ter um impacto toxicológico sobre a saúde humana”. Por isso, a autora propõe o incentivo à estudos que desenvolvam uma “nova geração de preservantes sem metais pesados”, sendo “uma promissora alternativa com menor impacto ambiental”.
Por fim, é importante destacar que os fatores aqui comentados fazem parte de uma gama de características do sistema, sendo necessário, para manter essas propriedades, o cuidado
com a procedência dos insumos, sua utilização, e o meio no qual o sistema wood frame está inserido.
6 ANÁLISE DE VIABILIDADE ECONÔMICO-FINANCEIRA
O presente capítulo aborda e discute os resultados relativos a análise de viabilidade econômico-financeira do projeto em questão. Com isso, são respondidas algumas questões relacionadas aos custos de implantação do sistema wood frame para Habitação de Interesse Social no Estado do Ceará, diante de cenários prováveis dentro da realidade brasileira.