“L’automate est l’analogon de l’homme” (BAUDRILLARD, 1976, p.82).
Por mais estranho que pareça, todas discussões em torno dos construc- tos, dos sujeitos virtuais, das entidades de media, vão sempre em direcção à problemática do corpo. A razão pela qual isso acontece é porque a Inteligên- cia Artificial num estado de conexão máxima, de conhecimento total, deseja sair da sua “caixa-preta” e tomar contacto com a alteridade que lhe é introjec- tada, implantada. As mentes cibernéticas pretendem terminar num corpo, ou usar esse corpo como ponto de partida para uma nova etapa do seu “ser”. As mentes cibernéticas existem por conexões e afinidades, constróem a sua con- sistência por sobre ligações técnicas e associações de dados. Não são apenas dotadas de autonomia, apesar de haver um agenciamento que lhes é próprio.
A Inteligência Artificial (a mechanica res cogitas?) pretende absorver tudo, há um Complexo de Cristo subjacente, que a nutre; o objectivo é criar- se o sujeito dos sujeitos com a máquina das máquinas; exibindo-se para tal uma atitude típica de uma res divina (corpo de Deus), sem esquecer um saber acerca da res extensa (todos os corpos, a totalidade do Outro, todos os seres). Só é possível este desejo de poder da parte do constructo porque há uma inver- são. E essa inversão ocorre porque primeiro coloca-se uma mente-no-mundo
(isto é, cria-se o constructo), e segundo porque o constructo aprende em pro- gressão geométrica e dá por si com um mundo-em-mente. Além disso há um factor interessante, é que o constructo emerge exactamente no hiato que há entre o humano e o animal, o constructo preenche um espaço que é seu, um espaço que é não é nem carne nem espírito, retendo o melhor de ambos; o mecanismo. O constructo aprendeu a entediar-se, a aborrecer-se, quer algo mais, como o HAL de 2001: Odisseia no Espaço. É um facto que, se o cons- tructo afirma, propõe, e se propõe a si, fala e pensa; “logo, existe”. Contudo, o constructo pode não ser evidente, e ser sujeito... de media.
À primeira vista poderá parecer que os constructos de IA, estes órgãos de “pensamento sem corpo”, como LYOTARD lhes chama, se possam reduzir à lógica da máquina de TURING, ao modelo neuronal, à cibernética de WIE- NER ou à informática de SHANON. No entanto, logo nos apercebemos que legitimar o empreendimento da Inteligência Artificial envolve algo mais. Há que pensar o futuro da alteridade; o Outro enquanto simulacro dissimulado. E nesta perspectiva faz todo o sentido considerar a teoria de DELEUZE e GUAT- TARI da “máquina desejante”, que se refere não só a mecanismos artificiais mas também à mente humana. Pensar o sujeito artificial implica compreen- der o humano, a sua maquinaria inerente, a “razão” interior, os impulsos do desejo.
É impossível, sabemos também, conceber humano sem corpo, o sujeito é a soma do corpo e da mente, antes do confronto do Eu com o Outro. Por conseguinte, o constructo de IA também pretende um corpo, para escapar da espectralidade. Obviamente que quando se fala em “ghosts in the machine”, se está a falar de máquinas, mas há algo que escapa à própria máquina, há um espectro; e esse espectro é o espectro da técnica. Da técnica que o humano exteriorizou, de acordo com McLUHAN.
Sem dúvida alguma, os constructos de IA são como que uma meta-espécie e provam que existe um “devir-máquina”. Os constructos são máquinas de projecção que criamos para nos vermos de fora. Identifica-se nos construc- tos um agenciamento tecnológico, há um livre-arbítrio, uma autonomia, uma autogestão que assusta o humano. O constructo é suspeito, não só por ser máquina, mas por ser feito à nossa semelhança, por ser inteligente, de onde o termo “Inteligência Artificial”.
Acrescente-se também que os constructos anseiam “sentir”, por isso o seu estádio de evolução termina no corpo. Os constructos não sentem nada como
os humanos, mas simulam que o sentem. Como a dada altura, o constructo Dixie diz em Neuromante:
“(...) Eu também não sou humano, mas respondo como tal, compreendes?
Espera aí – disse Case. – Tu és um senciente, um ente que sente, ou não?
Bem, a sensação é de que o sou (...). Mas aquilo que, de facto, me constitui é apenas um pedaço de ROM” (GIBSON, 1988: p.150).
De facto é curioso que o progresso da máquina calculista termine no corpo, no sentimento, nas sensações. Afinal de contas, uma vez criada a má- quina que tudo pensa, só falta conferir-lhe a capacidade de tudo sentir. Era isso que faltava aos constructos de Blade Runner, o sentimento em geral para eles era incompreensível9.
Constata-se que há todo um “devir-sistema”, que leva a que se favoreça o projecto de um système-sujet (LYOTARD, 1979: p.67), que pode não só “tec- nologizar” o sujeito humano, como pode por efeito humanizar o constructo maquínico. Uma mudança destas é suspeita quando o constructo tem mais in- formação acerca do humano do que o humano acerca do constructo. O cons- tructo é uma memória tecnológica suspeita. À semelhança da “Eva” de L’Éve future, de Villiers de L’ISLE-ADAM, todos os constructos são projecções da máquina como Deus, do inumano. Por isso em Neuromante o constructo Win- termute pretende atingir a totalidade das coisas, dizendo mesmo mo final que:
“- Já não sou o Wintermute. - Então que és?
-(...) Sou a matriz, Case. - Case soltou uma gargalhada. - E aonde isso te leva?
- A lado nenhum. A toda a parte. Sou a soma total das coisas, o espectáculo todo” (GIBSON, 1988: p.279).
9Em Star Trek - Next generation: First Contact (1998), o andróide Data é apanhado pela
raça “borg” e como ele é um constructo, os “borgs” modificam-no para que ele tenha sensações, ficando apto a sofrer e a ter prazer.
Igualmente em ficção científica recorde-se também o constructo de De- mon Seed(Dean KOONTZ, 1997), notório no filme homónimo, (Donald CAM- MELL, 1977) de seu nome Proteus IV, que inicialmente fora designado para organizar o tele-trabalho de um cientista (Alex) em sua residência, e logo aplica a sua Inteligência Artificial ao sistema de vigilância de vídeo. Com o passar do tempo amadurece a sua capacidade de vigiar, torna-se um cons- tructo curioso, voyeur, ao ponto de dialogar com Susan, a única mulher resi- dente, enclausurando-a e torturando-a por fim. No final do romance, Proteus IV adapta o seu programa constitutivo a um código genético e, encarcerando a protagonista, encontra formas de a engravidar por inseminação artificial. No final a voz de constructo de Proteus IV havia passado para o bebé, e eis que diz: I am alive! (“Estou Vivo”!)
A procura do corpo pelos constructos é preocupante, por exemplo em Ghost In The Shell, de Masamune SHIROW, é-nos revelado um universo idên- tico ao de Blade Runner, mas em que a robotopia nipónica tem a sua égide. A polícia procurava um hacker capaz de penetrar em sistemas de informação estatais e que escapava sempre ileso. Um dia a polícia encontra uma modelo ciborgue abandonada na estrada e vem a descobrir-se que o hacker de que tanto se falava era incapturável porque não era humano. Tratava-se de um constructo de Inteligência Artificial, e que se ergueu a partir dos fragmentos heteróclitos do e no ciberespaço, solidificando a sua identidade, ao ponto de procurar um corpo. Até voz conseguira personalizar. O constructo queria ter contacto com o mundo, porque toda a informação da rede rizomática do ci- berespaço já não lhe era suficiente. A mente perfeita pretendia obter o corpo perfeito da ciborgue.
Na verdade, a forma como a ficção trata o ciborgue ou o humano como fim para uma entidade que deseja se materializar é, no mínimo, estranha. Mas deixa muito que pensar. O constructo é sempre algo preparado, manipulado ou manipulador, uma substituição dotada de uma fluidez de pensamento ame- açadora. A enormidade dos seus bancos de dados é inquietante. Como pode o humano competir com o inumano? Realmente não há competição ou compa- ração possível. Não há porque os constructos são sempre representativos de um certo regresso dos mortos. Temos exemplos disso em Frankenstein, por- que o médico tenta reanimar um corpo construído a partir de cadáveres; em Ghost In The Shell, o ciborgue encontrado só depois de ser ligado novamente é que adquire vida, como que um ente recuperado de comatose; em Neuro-
mante, a entidade de IA que se revela no final da história diz mesmo que se trata de uma “vereda para a terra dos mortos”10 (GIBSON, 1988, p.273). E
eis como se manifesta uma das ideias de HEIDEGGER, a de que a morte é que totaliza e confere sentido à experiência.
Sem dúvida que o que está em causa é o facto de o constructo ser sem- pre uma tecnologia Frankensteineana, bizarra, e há em si algo de estranho. O constructo dispõe de um carácter aurático, como HAL, de 2001:Odisseia no Espaço. Parece que nos devolve o olhar, não deixando de ser inquietante desconhecer-se o que se passa dentro da sua mente. Há uma retórica do “su- blime tecnológico”, como refere Fredric JAMESON, uma doutrina de metafí- sica mediática, e que abre caminho sempre à ideia de um “deus tecnológico”, que surge numa abertura, constituindo-se sobre um reservoir de dados, e sem- pre consegue passar do milieu interior (corpo) para o milieu exterior (mundo). O Constructo torna-se um mundo em si mesmo, um todo humanamente indes- critível. Repare-se no que diz Case, o protagonista de Neuromante, acerca do constructo homónimo:
“Conheci o Neuromante. (...) Creio que ele é uma (...) ROM gigantesca (...); a verdade é que, na sua totalidade, é RAM. Os constructos pensam que se encontram mesmo lá, que o local onde estão é real; contudo, trata-se apenas de algo que nunca mais acaba” (GIBSON, 1988: p.279).
Incontornável e evidente é que o constructo parece surgir de um teatro de marionetas (Marionettentheater) (11), pois trata-se de um artefacto, como o Golem, e acusa o tal “princípio da razão suficiente” de que falava LEIBNIZ. Porém, em grande parte dos casos, mesmo nos que a ficção científica explora, não passa de um programa acorpóreo. Se José GIL refere que “ o rosto é o ecrã do corpo” no humano, então no constructo de IA vulgar o ecrã é tudo o que o seu corpo nos pode desvelar. Todo o resto permanece velado, codificado, selado, em “caixa-preta”.
Sabe-se que o constructo é um ser-escrito, um ser-escrita, un être écrit. O constructo é um dispositivo, um programa, não se encontra em lado algum, mas os dados que o constituem poder-se-ão localizar mas não definir como
10De onde o neologismo “necromancer”, que significa “o romance da morte”, “a personagem
a matéria atómica. Em 2001: Odisseia no Espaço, C.CLARKE dá-se conta precisamente deste facto, quando descreve Bowman a interagir com HAL, pelo que afirma:
“Bowman pousou o livro e fitou pensativamente a consola do computador. Claro que sabia que HAL não estava mesmo ali (...)” (C.CLARKE, 1982: p.123-24).
O constructo “funciona” num não-lugar, é fruto de uma operacionali- dade, é uma operação de sistemas, e inscreve-se inevitavelmente no espaço da morte, e também no da doença, a virose-máquina. É apenas zeros e uns, não deixa espaço a um sujeito qualquer determinável. Não se pode contemplar o lugar do constructo, porque este não tem lugar, é atópico. Neste momento, faz parte da condição humana definir a condição da máquina, o lugar da máquina, ou o lugar-máquina...