Um dos instrumentos utilizados na construção ideal do mito, possibilitando sua materialização, foi a cartografia. Essa ferramenta técnica possibilitou o desenho do território colonial idealizado pelos portugueses e pelos viajantes do século XVI ao XVIII179. A cartografia do território colonial representava o “caminho” construído pelas
águas – dos rios e do lago – que caracterizavam, pela natureza, a unidade dessa região. Algumas das principais contribuições sobre essa cartografia elaborada pelos portugueses e viajantes estão presentes nos textos de Jaime Cortesão180, Demétrio
Magnoli181, Janaina Camilo182, Íris Kantor183 e Maria de Fátima Costa184.
179 “Ao longo do século XVIII, o apelo ao mítico foi aos poucos dando lugar às observações e estudos mais empíricos sobre os lugares que os navegantes viam durante as viagens pela floresta Amazônica, seguindo o curso dos rios – “planícies de baixo gradiente” (MARTIN, 1996, p.94). Entretanto, não estamos afirmando que, naquele período, as explicações imagéticas tenham sido deixadas totalmente de lado, mas que houve uma relativização desses relatos, ora inferiorizando, ora enaltecendo a fauna, a flora e o homem da região. Esses dois movimentos, segundo Neide Gondin, “inventaram uma Amazônia” que variava do “primitivismo pré-edênico ao infernismo primordial”. (GONDIM, 1994, 77)”. (CAMILO, J. 2011, p.6).
180 CORTESÃO, J. História do Brasil nos velhos mapas. Rio de Janeiro: Instituto Rio Branco, 1965. 181 MAGNOLI, D. O Corpo da Pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista: Moderna, 1997.
182 CAMILO, J. Em busca do país das Amazonas: o mito, o mapa, a fronteira. I Simpósio Brasileiro de
Cartografia Histórica: Paraty, 10 a 13 de maio de 2011.
183 KANTOR, I. Usos diplomáticos da ilha-Brasil: polêmicas cartográficas e historiográficas. Revista
Varia História, Belo Horizonte, Vol.23, nº37: p.70-80, Jan/Jun 2007.
184 COSTA, M.F. De Xarayes ao Pantanal: a cartografia de um mito geográfico. Revista do Instituto de
Um dos primeiros documentos cartográficos que podemos fazer referência no sentido de projetar as terras da América do Sul data de 1519. Denominado de Terra Brasilis foi desenhado à mão sobre pergaminho definindo o Brasil como ““uma vasta
unidade geográfica e humana” delimitada pelas bacias fluviais do Amazonas e do Prata”
(CORTESÃO, J. 1965 apud MAGNOLI, D, 1997). Esse documento cartográfico apareceu no Atlas de Lopo Homem, cartógrafo oficial do Reino. (MAGNOLI, D. 1997).
O mapa apenas mostra as embocaduras do Rio da Prata e do Amazonas, sem definir claramente uma ligação das bacias. As bandeiras assinalam os pontos extremos do avanço português: uma está na altura do Maranhão, outra pouco ao sul da foz do Rio da Prata. A reivindicação de soberania se aplica com nitidez ao litoral compreendido entre elas e assinalado por numerosa nomenclatura (146 nomes). (MAGNOLI, D, 1997, p.49-50).
Diante do processo de formação do mito da Ilha-Brasil, Cortesão coloca que a transição estaria materializada nas cartas do Brasil de Diogo Ribeiro, de 1525 e 1527, e no planisfério de André Homem, de 1559. (MAGNOLI, D, 1997). Estas produções cartográficas mostrariam o delineamento de uma grande lagoa que conectava a bacia platina com a bacia amazônica, sendo essas visíveis nesses mapas. Segundo Cortesão (1965), nas cartas do Brasil de Diogo Ribeiro “o Amazonas e o Prata se dirigem ao encontro um do outro pelas suas nascentes, que contravertem, esboçando uma grande ilha” (CORTESÃO, J. 1965, p.343). No planisfério de André Homem (1559) “três afluentes do Amazonas, parecendo o mais oriental ser o Tocantins, se comunicam com o lago central, que é nascente do Paraná e Paraguai” (MAGNOLI, D, 1997, p.50). Em 1561, o mapa-múndi de Bartolomeu Velho, no qual a América do Sul é denominada de Quarta Pars Orbis, ilustraria “a quarta forma do mito em formação” (CORTESÃO, J, 1965, p.346).
O lago unificador, onde nascem o rio Pará (na posição aproximada do Tocantins e desaguando próximo à foz amazônica) e o rio São Francisco (o qual se interliga por outro lago ao Parnaíba e ao Paraná), é pela primeira vez, denominado Alagoado Eupana. Como no mapa de André Homem, o Meridiano de Tordesilhas corta a foz platina de delimita quase toda a Ilha- Brasil. Os escudos e armas portugueses, a oriente do Meridiano, e espanhóis, a ocidente, assinalam as soberanias europeias. (MAGNOLI, D, 1997, p.50). No final do século XVI, a concepção e figuração do lago lendário parecem bem estabelecidas. A América Austral de Luís Teixeira, “carta em pergaminho iluminado,
produzida circa 1600, é uma “volta ao protótipo de Bartolomeu Velho””. (CORTESÃO, J, 1965, p.346 apud MAGNOLI, D, 1997, p.50).
A diferença é que o Meridiano de Tordesilhas não aparece. A designação
Dourado é aplicada à lagoa central, que une o Tocantins ao Paraguai, o que –
queixa-se Cortesão – ecoaria as “concepções espanholas”. A América Meridional, de Arnoldo Fiorentinus, da mesma época, revela a repercussão da Ilha-Brasil na cartografia holandesa. O Tapajós une-se ao Paraguai pela
Laguna Del Dorado. O Brasil (Brasilia) está nitidamente configurado,
delimitado pelo curso flúvio-lacustre e diferenciado da América espanhola pela coloração. O Meridiano de Tordesilhas não aparece, mas a proporção das áreas favorece amplamente o lado espanhol e o Tapajós encontra-se deslocado para leste, o que reflete a influência subjacente da antiga partição papal. (MAGNOLI, D. 1997, p.50-1).
Para Cortesão, a “mais ampla interpretação alcançada pela Ilha-Brasil e que mais até certo ponto se aproxima da verdade” é o Amérique meridionale de Nicolas Sanson d’Abbeville, incluído no Atlas Cartes générales de La Géographie ancienne et nouvelle de 1650.
Diante do exposto, exemplos de produções e projeções cartográficas de 1519 a 1650, elencam-se algumas conclusões no que diz respeito ao papel da cartografia na produção do imaginário geográfico construído sobre o território colonial português, o nosso atual Brasil.
O conceito de Ilha-Brasil não ficou restrito às produções cartográficas nos séculos XVI e XVII. O conteúdo do mito aparece também nas crônicas quinhentistas e seiscentistas, “nas quais se identifica que as nascentes do Prata, Amazonas e São Francisco tinham origem num mesmo lago interior”. (KANTOR, 2007, p.71). Percebe- se assim, a ligação do mito com um discurso que identifica um processo de exploração e reconhecimento das terras do interior do continente da América do Sul.
A cartografia holandesa também incorporou “as míticas ilhas ou lagos interiores
que conectavam a rede hidrográfica no interior do continente sul americano”
(KANTOR, 2007). Contudo, mesmo os holandeses tendo incorporado esse “discurso” pelo viés da cartografia, somente os portugueses, nos seus discursos, realizaram a ligação entre as lagoas de Xarayés185 e Eupana, que conectavam as bacias do
185 “Já nas primeiras entradas às terras da bacia do Prata, os espanhóis começaram a descrever a região. Nas suas narrativas aparecem, entre outros indígenas, os Xarayes, povo que habitava as duas margens de um trecho do rio Paraguai. Por extensão, Xarayes se transformou em topônimo, surgindo assim, a região de Xarayes, registrada como um lugar fértil, inundável, entrecortado por muitos rios, lagos e baías. As
Amazonas, Prata e São Francisco num sistema hídrico único. Até o momento da chegada dos holandeses nas terras da colônia portuguesa, a produção e representação cartográfica estavam direcionadas na costa, sem nenhuma preocupação no detalhamento do interior do continente. (KANTOR, 2007).
A coroa portuguesa não tinha intenção de controlar territórios, mas, sobretudo, de defender suas rotas marítimas e comerciais preferenciais. A representação do interior do continente naqueles mapas constituía uma metáfora das possibilidades de apropriação do espaço real. Neles se traçava uma entidade geográfica, em que eram dispostos alguns elementos ou signos que remetiam a direitos de domínio ou titularidade da posse dos territórios dos impérios (Bandeiras, Brasões, Fortes e Fortalezas, linha das Tordesilhas). Com o estabelecimento da Companhia das Índias Ocidentais no Nordeste, um novo impulso foi dado à cartografia terrestre e ao mapeamento in loco do interior dos sertões brasílicos. (KANTOR, I. 2007, p.76).
Em relação à cartografia produzida pelos espanhóis, a representação da grande lagoa no interior do continente corresponde, atualmente, à região do Pantanal – Mato Grosso. É exatamente esta região considerada por Sodré por “terra das águas”, assunto que discutiremos ulteriormente.
3.3.3. O interior como a terra das águas: características, pensamento