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4. Resultados y discusión

4.2 Estructuras cristalográficas

O objetivo desse capítulo é reconstruir e analisar o período de formação acadêmica e os primeiros anos da trajetória profissional de Evandro Chagas, fase que compreende os anos de 1921-1935. Entre 1921-1926, Evandro Chagas realizou seus estudos médicos na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro (FMURJ), quando também foi interno no Hospital Oswaldo Cruz (HOC), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), e no Hospital São Francisco de Assis (HSFA), vinculado à FMURJ. Após a formatura, a vida profissional de Evandro Chagas prosseguiria nesses mesmos espaços institucionais, como chefe do laboratório da Seção de Patologia Humana do HOC (1930-1940) e docente da disciplina de doenças tropicais e infecciosas da FMURJ (1931-1935). Nessas instituições, conviveria estreitamente com seu pai, Carlos Chagas, de quem se tornou discípulo e colaborador. Com o pai, Evandro Chagas aprenderia os preceitos norteadores da prática científica e compartilharia os valores e diretrizes que, no âmbito do projeto institucional do IOC, Carlos Chagas conferia à ciência em sua relação mais ampla com a sociedade brasileira. Tendo em vista esta relação fundamental entre pai e filho, determinante na trajetória de Evandro Chagas, apresentaremos também neste capítulo suas origens familiares.

Para reconstruir o período de formação acadêmica e início da carreira científica de Evandro Chagas, utilizamos, como principal fonte, o memorial escrito e apresentado pelo próprio cientista no concurso que prestou para a cátedra de doenças tropicais e infecciosas da FMURJ, em 193521. Consultamos também alguns artigos de homenagem póstuma e necrológios sobre Evandro Chagas. Priorizamos, na seleção dessas fontes, textos que traziam informações sobre as funções ou atividades desempenhadas pelo cientista22. Do conjunto de relatos sobre Evandro Chagas destacamos os textos

21 “Memorial apresentado pelo Dr. Evandro Serafim Lobo Chagas à Comissão Julgadora do concurso

para a cadeira de doenças tropicais e infecciosas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1935”. Este documento encontra-se sob a guarda do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (doravante referenciado como CCS/UFRJ), no dossiê “Universidade do Rio de Janeiro / Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro – Evandro Serafim Lobo Chagas”, pasta 59-4-23-A. Este memorial foi reproduzido em artigo de homenagem póstuma a Evandro Chagas, escrito por Eurico Villela. Ver Villela, 1941.

22 Os textos consultados foram: uma separata da Revista da Associação Paulista de Medicina (1941) e um

50 produzidos por seu irmão, Carlos Chagas Filho. Seus escritos têm o diferencial de nos apresentar aspectos da infância e do ambiente familiar de Evandro Chagas, indicando ainda características mais particulares de seu comportamento. Além da convivência doméstica, Chagas Filho, cinco anos mais novo que Evandro Chagas, seguiu o mesmo percurso de formação do irmão, estudando e frequentando as mesmas instituições de ensino. Nessa fase, há uma interseção na vida de ambos, e através da autobiografia e das memórias de Chagas Filho é possível conhecer um pouco mais da ambiência e da dinâmica de funcionamento da FMURJ e do HSFA23.

Ao reconstruir a ‘primeira fase’ da vida de Evandro Chagas, pretendemos analisar como e de que maneira ocorreu a sua formação médica, e sob quais princípios, valores e práticas o cientista orientaria sua atuação profissional e sua visão da ciência. Toda a sua formação científica e profissional foi fortemente marcada pelo modelo de ciência institucionalizado no IOC, voltado para o estudo e o combate das doenças tropicais, modelo este construído e legitimado, em boa medida, pelo lugar que Carlos Chagas ocupou em Manguinhos como principal discípulo e herdeiro do “mestre” Oswaldo Cruz, tanto como pesquisador quanto como diretor da instituição. Neste sentido, nosso interesse é situar a formação de Evandro Chagas na tradição de pesquisa de Manguinhos, de maneira que possamos compreender a identidade profissional que construiria para si, filiada a uma determinada visão de ciência e da prática científica. Analisar a formação acadêmica e profissional do cientista é um dos caminhos para se compreender sob que bases seria concebido o projeto científico e institucional do SEGE, desenvolvido anos mais tarde no âmbito do IOC, e como o próprio Evandro Chagas apresentaria e defenderia o sentido e a importância deste projeto em estreita relação com o ‘legado’ de Carlos Chagas e da ‘escola de Manguinhos’.

Dada a importância da figura de Carlos Chagas na formação científica e profissional de Evandro Chagas, procuramos relacionar a trajetória de ambos, destacando na trajetória de Carlos Chagas alguns aspectos e acontecimentos que consideramos relevantes para a compreensão das escolhas e dos caminhos trilhados por seu filho. Evandro Chagas era uma criança de quatro anos quando seu pai realizou a

Evandro Chagas (doravante referenciado sob a sigla BR RJCOC EC), depositado no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC). Ver BR RJCOC EC 01.022.

23 Carlos Chagas Filho ingressou na FMURJ em 1926, ano em que Evandro Chagas se formou. No

entanto, o convívio de ambos nessa instituição e no HSFA foi possível porque, como dito, Evandro Chagas continuou atuando profissionalmente nesses espaços. A autobiografia a que nos referimos é Chagas Filho, 2000. Além deste livro, encontramos referências a Evandro Chagas em outros trabalhos e depoimentos de seu irmão. Ver Chagas Filho, 1986; 1987; 1993.

51 descoberta científica que o consagraria. Este ‘grande feito da medicina brasileira’, como foi enaltecido na época, marcaria de modo indelével o sobrenome da família Chagas: impresso no próprio objeto que a ciência de Manguinhos ‘desvendava’ (Kropf, 2009a), a doença de Chagas tornou-se, a partir de então, o ‘emblema’ não apenas de uma família, mas de uma linhagem da ciência brasileira. O capital científico e simbólico que Evandro Chagas herdaria do pai seria decisivo na construção de uma carreira própria e singularizada (ainda que marcada pelo sobrenome Chagas) no campo da ciência e da saúde pública brasileira, que ganharia sua expressão máxima com a criação do SEGE. Consideramos ainda que relacionar tais trajetórias é uma maneira de demonstrar o peso (ou a admiração e o fascínio) que a carreira e a imagem de um pai consagrado podem exercer sobre as escolhas e motivações profissionais de um filho.

1.1 - As origens mineiras da família Chagas

Evandro Serafim Lobo Chagas nasceu no Rio de Janeiro, em 10 de agosto de 1905. Foi o primeiro filho do casal Carlos Justiniano Ribeiro Chagas e Íris Lobo Chagas. Seu irmão mais novo, Carlos Chagas Filho, nasceria cinco anos depois, em 12 de setembro de 1910.

Seus pais eram mineiros e descendiam de famílias de proprietários de terras em Minas Gerais24. A família de sua mãe era ligada à política. O pai de Íris Lobo Chagas, Fernando Lobo Leite Pereira (1851-1918), era advogado, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. Pouco depois de seu casamento com Maria Barroso Lobo, mudou- se para Juiz de Fora (MG), onde ingressou na carreira política. Foi, por um breve período, vice-presidente da província de Minas Gerais, e em 1890 transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro, onde ocupou importantes cargos públicos. Por indicação de um grande chefe político de Juiz de Fora, foi nomeado ministro das Relações Exteriores e ministro da Justiça e do Interior durante o governo do marechal Floriano Peixoto (1891-1894) (Lima, 2009). Em 1896, Fernando Lobo foi eleito senador pelo estado de Minas Gerais. Por ocasião das eleições presidenciais, apresentou-se como candidato a vice-presidente na chapa de Lauro Sodré. Seu nome foi derrotado em seu

24 As informações que se seguem, sobre a origem familiar de Íris Lobo Chagas e Carlos Chagas, baseiam-

se, salvo indicação em contrário, nos relatos de Carlos Chagas Filho escritos no livro de memórias sobre o pai. Ver Chagas Filho, 1993.

52 estado natal, e por isso, renunciou ao cargo de senador, após três anos de exercício do mandato. Fernando Lobo retornou com a família para Juiz de Fora, onde voltou a exercer a advocacia. Pouco tempo depois, foi nomeado diretor do Banco de Crédito Real de Minas Gerais.

Carlos Chagas Filho, em suas memórias, ressalta que a família de sua mãe, apesar do prestígio político, tinha uma vida bastante simples e de poucos gastos. Grande parte do “modesto” subsídio parlamentar que seu avô Fernando Lobo recebia era usado para pagar o colégio de seus oitos filhos e custear o transporte (um tílburi) que o levava até o Senado. Sua avó, Maria Barroso Lobo, “senhora de caráter muito forte”, ajudava a manter a economia doméstica costurando para a família, oficio que ensinou às suas filhas (Chagas Filho, 1993, p.52). Ele recorda que a avó era uma exímia costureira, e viria a confeccionar os ternos de linho branco com que Carlos Chagas se apresentava, fazendo o mesmo para o seu filho Hélio Lobo, diplomata de carreira. Fernando Lobo morreu em 1918, sem fortuna, numa casa alugada no Rio de Janeiro.

Além de um pai ministro e senador da República, Íris Lobo Chagas tinha um irmão que, como dito, era diplomata. Hélio Lobo Leite Pereira (1883-1960), bacharel em direito, ingressou no Ministério das Relações Exteriores em 1907, onde construiu uma sólida e reconhecida carreira. Foi delegado do Brasil na IV e na V Conferência Internacional Americana (1910 a 1923) e secretário da Junta de Jurisconsultos Americanos, encarregada de codificar o Direito Internacional Americano (1912). Foi designado, em 1919, secretário geral na Conferência de Versalhes. Entre 1920 e 1926 foi cônsul-geral em Londres e Nova Iorque, e entre 1926 e 1932, embaixador do Brasil em Montevidéu e Haia25. Embora não proviesse de uma família abastada, conforme ressalta Chagas Filho, Iris Lobo Chagas legaria aos seus filhos um importante capital social, relacionado à atuação política de seu pai e de seu irmão.

A família de Carlos Chagas possuía fazendas de café nas proximidades de Oliveira, município do oeste de Minas Gerais. Carlos Chagas nasceu em 1878, na Fazenda Bom Retiro, situada nesta localidade. O casamento de seus pais, José Justiniano Chagas e Mariana Candida Ribeiro de Castro, durou apenas cinco anos, em decorrência do falecimento prematuro de seu pai. Carlos Chagas tinha na ocasião quatro anos de idade. Sua mãe, então, assumiu a administração da Fazenda Bom Retiro e da

25 Hélio Lobo também foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), eleito em 1918. Nesta breve

apresentação sobre sua carreira, destacamos apenas os cargos ocupados durante o período de vida de Evandro Chagas. As informações sobre sua atuação na diplomacia foram retiradas do site da ABL. Ver: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=622&sid=174.Acesso em 27.03.2012.

53 Fazenda Bela Vista, próxima à cidade de Juiz de Fora, que havia sido adquirida pelo marido antes de morrer. Decidiu mudar-se com os quatro filhos para a Fazenda Bela Vista, onde o cultivo do café estava em plena expansão. A convivência de Carlos Chagas com um de seus tios maternos, Carlos Ribeiro Castro – chamado de tio Calito – teria despertado, ainda jovem, o seu interesse pela medicina. “Tio Calito” era médico, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ), e possuía uma casa de saúde em Oliveira. Seu outro tio materno, Olegário Ribeiro Castro, também era médico e possuía um consultório no terreno de sua casa. Apesar de ter dois tios médicos, Carlos Chagas não pertencia a uma família de tradição profissional na medicina, e tampouco ligada ao circuito da elite médica do Rio de Janeiro.

Carlos Chagas e Íris Lobo (Chagas) se conheceram num sarau promovido na casa da família Lobo, no Rio de Janeiro. Carlos Chagas vivia na cidade desde 1897, para onde se transferiu a fim de iniciar os estudos médicos na FMRJ, concluídos em 1903. O convite para a festa veio do renomado médico e professor Miguel Couto, considerado por Carlos Chagas como um de seus principais mestres na faculdade, e que viria a tornar-se seu grande amigo. A cerimônia de casamento de Carlos Chagas e Íris Lobo ocorreria em 1904, em Juiz de Fora. O casal foi morar em uma pequena casa gemelada no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Ali nasceu Evandro Chagas, em 1905. Durante o período de férias escolares, ele e seu irmão mais novo visitavam a família em Minas Gerais. Em sua autobiografia, Chagas Filho refere-se especialmente às férias passadas numa pequena fazenda em Sobragi (localidade próxima a Juiz de Fora), propriedade de seus tios Otávio Barbosa Carneiro e Aurora Lobo, irmã de sua mãe, à qual era mais chegada. Dessa época, Chagas Filho guardaria as seguintes lembranças:

“Sobragi era um sonho de calmaria e beleza campestre. Nosso passeio principal era ir à beira do Paraibuna para tentarmos fisgar um lambari – tarefa um tanto difícil nas águas um tanto revoltas da região. Desse modo, à grande alegria na pesca de um peixe se juntava aquela de ver a passagem dos comboios na linha férrea situada na outra margem do rio” (Chagas Filho, 2000, p.23).

O retorno ao Rio de Janeiro era, para Chagas Filho, motivo de grande tristeza. Para ele, o regresso significava o fim da liberdade proporcionada pela vida no interior, que seria substituída pela rotina da vida da cidade, onde deveria cumprir suas obrigações escolares:

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“O retorno de Sobragi era sempre tristonho. Deixava a liberdade – ainda que supervisionada, de longe, por minha tia Aurora, pelos capatazes e pela Nica, ama de meus primos – para a vida regrada da rua Paissandu e do Colégio Rezende” (idem, p.25).

Encontramos nos documentos pessoais de Evandro Chagas cartas enviadas à mãe durante alguns períodos de férias passadas em Sobragi. A maior parte dessas cartas foram escritas em 1917, quando Evandro Chagas tinha 12 anos de idade. Nelas, o adolescente dava breves notícias da vivência em companhia da família, das visitas a outros parentes e das atividades que realizava na fazenda: andar a cavalo, tirar leite de vaca e alimentar o gado, entre outros afazeres típicos e cotidianos da vida rural. Suas cartas também relatavam o ambiente no interior, onde havia muitas formigas (“aqui há formigas que é uma praga”26), e davam informações sobre as pequenas moléstias adquiridas na fazenda, que eram menos comuns na cidade: “anteontem e ontem estive descalço por ter um dedo inchado de tanto bicho de pé, mas hoje já pude calçar”27. Seu irmão, que chegaria pouco depois em companhia da governanta, também seria acometido do mesmo mal: “o Carlinhos hoje já gritou muito para tirar um bicho de pé”28. Ambos sofreriam com este problema durante todo o período de férias – e o “Carlinhos”, que era mais novo (com 7 anos de idade), tinha sempre “medo de tirar”29.

Evandro Chagas tinha a preocupação de escrever todos os dias para a mãe (“tenho escrito todos os dias desde que vim. Ainda não deixei de escrever um só dia”30), e a ela pedia que fizesse o mesmo: “Quero também que você escreva também todos os dias para mim”31. O adolescente não descuidava dessa tarefa e arranjava tempo nos intervalos de uma brincadeira ou outra com os primos: “desculpe [termo ilegível] a letra, mas é que não tenho tempo bastante, esperam-me para brincar”32. Com a promessa de escrever todos os dias à mãe, via-se com a responsabilidade de justificar qualquer ausência nesse sentido: “você não recebeu minha carta outro dia foi porque ela ficou esquecida, quando iam levando, deixaram-na cair no chão”33. Evandro Chagas também zelava para que seu irmão seguisse seu exemplo, e para convencê-lo, apelava para a

26 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 21.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 27 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 27.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 28 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 21.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 29 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 25.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 30 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 15.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 31 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 12.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 32 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, s.d. BR RJCOC EC 01.003.

55 tristeza da mãe em não ter notícias do filho: “Carlinhos ontem teve preguiça de escrever mas hoje talvez ele escreva porque eu lhe disse que você ficaria muito triste se não recebesse cartas dele”34.

Evandro Chagas levava sua correspondência todos os dias à estação, antes do horário de partida do trem. Era sempre acompanhando de um empregado “de muita confiança” da família. Um dia escreveu à sua mãe contando, com orgulho, que este empregado lhe dissera “que lá em Pirapora e Lassance todos os meninos e homens conheciam o paizinho, ele disse que já esteve na serra do Cabral, onde o paizinho conta as suas caçadas”35. Foi no povoado de Lassance, localizado próximo a Pirapora, que Carlos Chagas realizou a descoberta da tripanossomíase americana, fato que o consagraria cientificamente no Brasil e no exterior. Evandro Chagas parecia contente em saber que seu pai era conhecido pelos habitantes da região, mostrando-se animado ainda com o fato de uma pessoa, que agora lhe era próxima, conhecer o local onde se passavam as histórias contadas pelo pai sobre suas caçadas, seu hobby preferido.

As lembranças e menções a Carlos Chagas são constantes nas cartas de Evandro Chagas. Indagações como estas eram recorrentes: “Como vai o paizinho? Quando é que ele acha tempo para me escrever? Ainda não li nenhuma carta do paizinho”36. Era junto à mãe que ele insistia para que o pai lhe redigisse algumas linhas: “peço-lhe para fazer o Paizinho escrever”37. Evandro Chagas parecia sentir a ausência e o silêncio do pai, embora este o escrevesse – mas não com a regularidade desejada. No entanto, o adolescente demonstrava compreensão quanto às inúmeras exigências de seu trabalho: “o Paizinho ainda está muito [atarantado]? Está sempre, mas pergunto se está menos”38. Um pouco mais velho, com 15 anos, já acompanharia de longe sua atuação pública através da imprensa. Diz ele numa carta à mãe:

“Querida mamãezinha,

Continuamos graças a Deus, bem. Diga ao Paizinho que estou muito zangado com ele, por ainda não haver me escrito. Creio porém que ele não tem tempo para isto. Dou-lhe parabéns pelas enérgicas medidas que tem tomado em defesa do nosso porto. Tenho tido notícias dele, pelos jornais”39.

34 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 19.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 35 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 14.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 36 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 17.03.1917. BR RJCOC EC 01.003. 37 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, s.d. BR RJCOC EC 01.003.

38 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, em 21.01.1920. BR RJCOC EC 01.003.

39 Carta de Evandro Chagas a Íris Lobo Chagas, s.d. BR RJCOC EC 01.003. É muito provável que essa

carta tenha sido escrita em 1920, em virtude da referência às ações de seu pai no porto, com medidas que visavam prevenir a entrada de doenças no país por meio de navios estrangeiros. Nesse ano, Carlos Chagas assumiu a direção do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), cargo que ocuparia até 1926.

56 Carlos Chagas Filho conta que ele e o irmão tinham uma “admiração profunda e sem limites” por seu pai, e seguiam de perto sua vida científica e pública (Chagas Filho, 1986, s.p). A trajetória profissional de Carlos Chagas ganhou grande ascensão e visibilidade em 1909, quando Evandro Chagas ainda era uma criança. Aos quatro anos de idade, ele teria um pai consagrado e glorificado por um ‘grande feito científico’: a descoberta de uma nova doença no interior do país, que levaria seu nome.

1.2 - O primogênito de um cientista consagrado: Carlos Chagas e sua descoberta

Carlos Chagas deixou a pequena localidade de Oliveira, em Minas Gerais, para realizar seus estudos médicos na FMRJ, onde ingressou em 1897 (Kropf, 2009a)40. Sua formação médica ocorreu num momento de transformação e reformulação dos paradigmas científicos no campo da medicina, expressas, principalmente, pela emergência da microbiologia e da medicina tropical. O ambiente de renovação das teorias médicas foi acompanhado pela FMRJ, que procurou incorporar ao seu currículo os novos postulados de Louis Pasteur e Robert Koch sobre a ação dos microorganismos como agentes causais de doenças. Por esta razão, vários professores da faculdade passariam a defender a incorporação da pesquisa experimental (a pesquisa no laboratório) na formação dos estudantes, como forma de se produzir novos conhecimentos e recursos, como soros e vacinas, para o combate das doenças.