Pode a ciência estar no cerne de uma religião? De fato, há tensões na configuração da identidade espírita, se é religião, ciência, ou ambas. No Brasil a opção pela religião veio a atender as demandas das classes baixas e médias da população em sua ênfase sobre a cura e sua perspectiva metafísica-transcendental sobre o destino do mundo, enquanto propõe a assistência e a reforma individual (íntima) e não a revolução como mote da mudança da realidade, abraçando os impulsos de ascensão destas classes.
Ao mesmo tempo consegue manter uma estrutura de linguagem e lógica que desenvolve as estruturas do pensamento científico, buscando ser identificada como ―religião racional‖.
Como nos indica Santos (2004), ―[h]á cientistas espíritas[...]‖142, mas não há no meio
acadêmico o que se poderia chamar certamente de ―ciência espírita‖, pois os paradigmas da construção do campo espírita não lhe permitem desenvolver as preocupações experimentais presentes em suas origens e descritas em termos estritos por Kardec, além de outras limitações inerentes a seu objeto de estudo, o mundo espiritual e os limites de seu paradigma eleito, a ciência positiva.
141 Cf. BASTIDE, 2006, p.102. 142 Cf. SANTOS, 2004, p. 105.
Foi através de todos estes elementos: a linguagem reconhecível científica, a ação assistencial de origem católica e o modo racional-sóbrio típico do protestantismo histórico, que a religião espírita penetrou e permaneceu tão eficientemente na sociedade brasileira.
Sua linguagem é científica, nos dizem que busca trazer a tranquilidade de estarmos diante de um fenômeno atual e acessível; sua ação é assistencial, o que me permite a comunicação com as demais vertentes cristãs da qual afirmamos fazer parte, de certa forma tão requisitada diante das desigualdades sociais brasileiras, sua postura é sóbria e restrita (disciplinada) o que permite reivindicar um afastamento e singularização dos modos corporais marcantes da ritualidade na Umbanda e Candomblé (ou demais religiões que invistam na centralidade das técnicas de transe), tranquilizando as camadas médias e intelectualizadas e amenizando os estigmas derivados.
É interessante para nossa análise, de forma tornar mais visível a tensão que se estabelece entre as práticas espíritas kardecistas e outras formas de descrição do mundo, observar que se tanto nos estudos antropológicos, quanto históricos, a Umbanda se apresenta aproximada à práticas espíritas kardecistas, assim como na vida do centro espírita kardecista e de seus adeptos (considerando conversas, debates, práticas relacionadas ao passado ou presente, fonte das mais diversas acusações). O centro espírita é espaço entre os quais registro constante e forte trânsito de adeptos e bens simbólicos. Em obra espírita organizada pela editora da FEB em forma de enciclopédia, com verbetes selecionados para apresentar e esquadrinhar o Espiritismo de ―a‖ a ―z‖, a Umbanda recebe a seguinte descrição:
―A Umbanda é prática religiosa dos negros africanos bantos que, juntamente com os sudaneses, foram trazidos ao Brasil, como escravos. Existindo entre os negros bantos, segundo Nina Rodrigues e Arthur Ramos, o culto dos antepassados, ou a crença a existência da alma dos mortos, os negros brasileiros fundiram esse culto com práticas do Catolicismo e do mediunismo, assimilando-o ao seu ritual supersticioso, daí nascendo então o culto banto-amerídio da Umbanda, conforme define João Teixeira de Paula in Estudos de Espiritismo‖143.
A descrição da FEB visa deslocar qualquer relação possível entre a Umbanda e o Espiritismo. Buscando analisar o que o texto propõe sobre a Umbanda, destaco: o termo utilizado na descrição disponibilizada é ―prática‖ e ―culto‖ e não (enfatizaria, nunca) ―religião‖; refere-se às origens, não como manifestação cultural de saber religioso, mas como
143 Cf. BARBOSA, Pedro Franco. Espiritismo Básico. Rio de Janeiro: FEB, 2002 Apud ―Fé Raciocinada‖
trazida por ―escravos‖, destaca-se sob o signo específico de um grupo étnico-racial (―dos negros africanos‖); sua origem é o primitivo e ancestral ―culto os antepassados‖ e a ―crença na alma dos mortos‖; não tem vigor intelectual, sendo produto de ―fusão‖ de ―práticas católicas‖ e do mediunismo (para os espíritas kardecistas, é como se chama utilização da técnica do transe e da incorporação sem base ética doutrinária); não registra nenhuma influência do Espiritismo e de suas técnicas, consideradas as que ordenam, controlam e manifestam a mediunidade; e enfim, não se agregam a estes saberes a moral cristã, portanto é na percepção dos organizadores da FEB, uma prática com nenhuma ligação ou semelhança com a doutrina espírita (que é a seu ver, nesta ordem: ―ciência, filosofia e religião‖). Enfim, investe-se na prática discursiva de negar qualquer relação entre o Espiritismo e práticas que seus adeptos consideram distantes do ideal moderno europeu de civilização, baseada na ―luz da razão e da ciência‖, sua linguagem e método e, não, no que acreditam serem as ―sombras perigosas‖ da emoção e do inconsciente.
Se a ciência é uma ―linguagem‖, no sentido de garantir sua própria lógica e estruturas de sentido específicas e distinguíveis, e a oposição ciências exatas e humanidades indicam dois estilos de pensamento, duas culturas144, sendo possível indicar a necessidade de utilizar esta estrutura diferenciada de explicação que é a ciência experimental e exata (de base naturalista) para compreender a ação espírita sobre o mundo em seu esforço de explicitação da verdade.
Não é nada de novo afirmar o quanto esta linguagem é investida de poder social devido a atual predominância e eficiência, suas consistências, seus padrões de verossimilhança e suas expectativas de convencimento, enfim sua construção em nossa sociedade ―moderna e industrial‖.
Este modelo desejado pelos adeptos espíritas, estimulados pelas expectativas de seu doutrinador Allan Kardec, se apoia em hipóteses, deduções, induções e frequências, empenhadas na construção de conceitos e categorias, explicação e leis, porém é urgente explicitar que a penetração deste modelo apresenta obstáculos dificilmente vencidos pelos adeptos, e na prática as construções espíritas se valem mais da estrutura de linguagem e legitimação do que efetivamente de sua proposta metodológica estrita.
144 Cf. IANNI, Octávio. Estilo de Pensamento: explicar, compreender, revelar. Araraquara/São Paulo:
Resta dizer que, não obstante as dificuldades apontadas, os adeptos tem relativo êxito em se ligar a este universo de concepções de poder hegemônico e ideológico no campo da modernidade. Como fenômeno moderno que é, se apresenta a supremacia de um estilo de pensamento precariamente aplicando às verdades últimas e perspectivas fundantes e inapeláveis como: a reencarnação, a evolução e progresso, o livre-arbítrio, a crença em um ―ser supremo‖ que criou o universo e atribui papel especial à humanidade.
O estilo é o da explicação, mas este se mantém em constante jogo de explicitação e ocultação com as perspectivas da revelação, distintas não só pela singular arquitetura de suas narrativas, como da própria imaginação, apresentando-se como três formas de autoconsciência da realidade.
Não sendo, portanto alternativas em oposição simples e como já nos afirmou Geertz (2004), seus campos de interesses sobrepostos, mas não necessariamente coincidentes, não sendo suas respostas direcionadas a suprir o mesmo tipo de questões e possibilidades.
A linguagem científica centra-se no impulso da ―explicação‖. Que por conta de sua pretensão de universalidade proposta, se movimenta de forma ―inclusiva‖, assim todos os fenômenos mágicos podem ser abarcados pela doutrina, que os encaixa em sua linguagem e explicações consideradas ―racionais‖.
Por exemplo, em conversa sobre o porquê de avaliação negativa durante sessão mediúnica a respeito da conduta de médium do Centro Espírita Caminheiros do Bem e recebendo de minha interlocutora a resposta que indicava que o fato deste ter comido imediatamente antes de sessão na qual trabalhou como participante, ao lhe questionar se este não deve comer ―para não ficar pesado‖, a interlocutora me diz que ―não‖, que é por que ―quando você se alimenta a circulação sanguínea se concentra no sistema digestivo‖, me diz indicando a área do ventre, e isto atrapalha, ela prossegue com sua justificativa, o desempenho do médium, pois afirma desvia ―recursos‖ da área do sistema nervoso central. Neste caso em pauta, o cérebro, onde se dariam as operações relacionadas à mediunidade, que me comunica esta já indicando a área da cabeça.
Apesar disso, o fato empírico, como nos traz Geertz (2004), é de que tanto religião, quanto ciência, aproximam-se por constituírem visões de mundo145. É de que o crescimento desta linguagem e estilo de pensamento, assim como de suas instituições legitimadoras,
inclusive no campo político, tornam mais difíceis de sustentar as crenças religiosas em geral, algumas impossíveis mesmo de manter nos afirma. Porém, em seguida nos alerta que ―[...] mesmo que não sejam antíteses diretas, há uma tensão real crônica e cada vez mais acentuada‖146. Se a luta pelo real, nestes termos não acabou e é provável que nunca acabe,
Kardec e a doutrina espírita buscaram construir uma ponte a partir dos esforços concentrados neste Pentateuco, base de um difícil diálogo entre religião e ciência, no qual veremos o corpo e as técnicas terapêuticas e mediúnicas terão papel de inegável relevância, em especial no Brasil a partir da interpretação destas ―obras básicas‖ kardequianas e sua própria carreira pessoal.
PARTE 2 - CASA
CAP II- O VÔO ASCENCIONAL DO CORPO E ESPÍRITO (o simbólico e o