5 DESENVOLUPAMENT DELS CONTINGUTS
5.3 Discussió i anàlisi dels resultats
5.3.2 Estratègies d’ensenyament-aprenentatge
As fábulas de Manuel Mendes da Vidigueira, transcritas por Teófilo na sua colecção de Contos Tradicionais do Povo Português, incluem vários textos de decepção e engano, que constituem o núcleo da sua estru- tura. Como vários críticos sublinharam, a construção do sentido na fábu- la, assenta, quase sempre num jogo de tensões, de uma comparação nuclear, e é nesse jogo de opostos que se baseia a demonstração da lição: o vencedor e o vencido; a boa ou a má decisão; a verdade ou a ilusão, etc.8 Porém, o facto de as fábulas de Teófilo se apresentarem desprovidas de componente moralizada contribui para evidenciar a componente lúdica sobre a moral, a qual se encontra retraída, embora não completamente ausente. Desaparece a lógica dedutiva que faz funcionar a fábula, e que postula que o caso particular se justifica pela sua capacidade de nos con- duzir à compreensão e aceitação de uma lei geral, de um princípio de conduta, de uma regra universal. Em lugar dessa lógica privilegia-se o puro jogo de tensões materializado no conflito das personagens, o forma- lismo da comparação. Ou seja, privilegia-se as formas, se não num estado puro, pelo menos num estado mais depurado. É nas figuras dos animais protagonistas que a atenção se concentra, aqui, afastando a lição. Esta, por seu turno, não é eliminada, mas sobrevive no plano da alusão pelo qual ela se imaterializa até ao limite de uma realização possível.
Por outro lado, a colecção ganha um novo relevo na medida em que ao esquema de oposições existente em cada uma das fábulas se acrescenta um outro nível do jogo conflitual que consiste na interacção entre as fábulas, as quais funcionam quase como capítulos de uma vasta história natural dos animais. Neste campo, assistimos a esquemas de duplicação, de repetição ou de oposição activos em pares de fábulas, por exemplo.
As fábulas “O lobo e o Cordeiro” e “O Lobo e as ovelhas” são dois bons exemplos deste tipo de funcionamento: no primeiro caso (o lobo procura argumentos para devorar o cordeiro), o embate entre o lobo e o cordeiro desenvolve-se através de um diálogo em que o lobo procura uma razão plausível para se lançar sobre o cordeiro (porque o cordeiro está a sujar a água que ele bebe ou porque se não foi ele fora o seu pai), mas esta lógica racional acaba por fracassar, e ele vê-se forçado a recorrer à sua arma habitual, a força; já no segundo caso, é à mentira, à traição e à força que os lobos recorrem, omitindo qualquer recurso à argumentação
8 Sobre a estrutura dupla da fábula, veja-se o artigo de Howard NEEDLER, (1991) “The Animal Fable Among Other Medieval Literary Genres”, New Literary His-
(os lobos fazem um tratado de paz com as ovelhas e estas dispensam a protecção dos rafeiros, mas acabam por ser vencidas e devoradas pelos lobos que as atacam mal as vêem desprotegidas). Num caso, a fábula pare- ce reproduzir, na sua parte inicial, o método dedutivo, que é específico do género da fábula – demonstrar uma moral, uma regra geral, um princípio orientador – antes de passar à lei natural do reino animal, que é a força das coisas; no segundo caso, dispensa-se a demonstração, e a narrativa lança-se de imediato nesse princípio da inevitabilidade da lei natural. Existe como que uma interdependência das duas fábulas. Esta relação interior à colecção intensifica, não a lição, que está latente em todas as fábulas, mas, a força da narrativa, a autonomia dos protagonistas, o que, noutros termos, se pode dizer que reforça a sua existência enquanto seres iguais a si mesmos, entre- gues como estão à pregnância dos seus próprios actos, ou seja à sua condi- ção animal. O engano só aparentemente contribui para ocultar; na realida- de, ele é revelador de uma verdade fundamental que é a natureza animal dos animais. Ao contrário do que acontece com as fábulas moralizadas em certos contextos literários, as fábulas de Teófilo estão despojadas de qual- quer dimensão alegórica, e isso contribui para fazer sobressair a “verdade nua”, para usar a conhecida expressão de Horácio.
Essa entrega dos animais a si mesmos, às suas próprias qualidades (ou defeitos) é magistralmente exemplificada na fábula mais auto-reflexiva de todas, “O cão e a carne”, a fábula IX da colecção9: um cão leva uma peça de carne na boca; ao passar por um rio vê a sua imagem reflectida na água e pensando que aí estava um outro cão com mais um bocado de carne, larga o seu naco para perseguir o que via reflectido na água. Porém, o rio levou o verdadeiro pedaço água abaixo, e ele perdeu o naco de carne e também a sua “sombra”. Este jogo de reflexos torna especialmente nítida a ideia da ilusão, da inevitabilidade da ilusão, uma vez que o protagonista da fábula não consegue distinguir o objecto do seu reflexo. Mas a esta simetria entre a verdade e a ilusão segue-se quase de imediato a sua solução, ou antes o seu antídoto, na fábula XI, “O Cão e a imagem”:
Buscando de comer, o Cão acertou de achar uma Imagem de homem, muito primorosa e bem feita de papelão com cores vivas. Chegou o Cão a cheirar por ver se era homem que dormia. Depois deu-lhe com o focinho e viu que se rebolava, e como não quisesse estar queda, nem tomar assento, disse o Cão: – Por certo que a cabeça é linda, Senão que não tem miolo.10
9 “O cão e a carne”, in Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, Lis- boa, Publicações Dom Quixote, Colecção Portugal de Perto, 1987, vol. II, p. 272. 10 “O Cão e a imagem”, in Op. Cit. p. 273.
Assim, se a imagem pode ludibriar no primeiro caso, no outro ela reocupa o seu lugar como imagem cuja componente ilusória é imediata- mente reconhecível. Convém atentar no texto intercalar, “A Mosca sobre a Carreta” que é uma fábula de denúncia do engano: a mosca pousa sobre um carro de mulas e, ao ver-se assim tão alta, julga-se muito superior e começa a falar com grande altivez e a espicaçar a mula para que andasse sob pena de que ela a picaria onde doesse. Mas a mula desfaz as suas ilusões dizendo-lhe: “Cala-te, parva sem vergonha, que não temo nem me podes fazer nada; o medo que me causa é do carreteiro, que leva na mão o açoite, que tu só com importunações cansas-me, sem me fazeres outro mal.”11 Estas três fábulas podem ser lidas como uma pequena sequência sobre várias fases do engano, onde se passa da ilusão pura acerca da ima- gem à constatação do erro e, finalmente, à separação da imagem e do objecto. Curioso é que a aprendizagem da lição seja feita pelos animais e que a criatura convertida em imagem seja o homem, como se houvesse aqui uma inversão que tivesse tornado o universo animal (a lei da nature- za, da impulsividade, da força) mais verdadeiro do que o universo (civili- zado) dos homens.
Neste sentido não nos espantará encontrar no conjunto das fábulas populares o texto intitulado “O Bugio, o lobo e a raposa”12, onde se relata a fonte do engano através da narração da origem da desavença entre o lobo e a raposa. Trata-se, aqui, da génese daquilo que é mais seminal na fábula, que é o engano ou o erro: o lobo queixou-se ao bugio da raposa dizendo que ela lhe tinha feito um furto. O juiz inquiriu ambos. A raposa negou, e o lobo acusou e disputaram de tal modo que revelaram todas as maldades que sabiam um do outro. Depois de os ouvir, o bugio pronunciou a sentença, dizendo que o Lobo não provara bem ter-lhe sido feito o furto, mas que ele entendia que a raposa tinha furtado alguma coisa. Condenava, por isso, ambos a ficarem entre si sempre desavindos e suspeitosos.
Assim, a fábula pode conter a ilusão e o seu antídoto, mesmo sem recorrer à moral, ou sobretudo se não recorrer à moral, pois ela contém mecanismos de controlo e de autodomesticação da ilusão. Do mesmo modo que, segundo Teófilo, os contos tradicionais, para serem populares, devem prescindir da moral a fim de se tornar mais evidente a matriz popular.
11 Idem, p. 273.
Bibliografia:
BRAGA, Teófilo, Contos Tradicionais do Povo Português (1883) Vol. I-II, Por- to, Livraria Universal de Magalhães e Moniz Editores.
BRAGA, Teófilo, Contos Tradicionais do Povo Português (1914-1915) Vol. I-II, Lisboa, J. A. Rodrigues & Cª, Editores (ed. ampliada). [reed.: (1987) Publicações Dom Quixote, colecção Portugal de Perto]
Fabulas de Esopo traduzidas da língua grega com applicações moraes a cada Fabula por Manoel Mendes da Vidigueira (1603), Évora, Manuel da Lyra [ed. ut.: (1791) Lisboa, Typographia Rollandiana].
NEEDLER,Howard, (1991) “The Animal Fable Among Other Medieval Literary Genres”, New Literary History, 22, pp. 423-439.
VASCONCELOS, J. Leite de (1903-1905) Fabulário Português, in Revista Lusi- tana. Vol. VIII.
Máscaras, Mistérios e Segredos, Lisboa, Edições Colibri, 2011, pp. 131-139