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4. Taylor-renter og boligprisutvikling

4.2 Estimering av variabler og parametre i Taylor-regelen

Durante as festas de comemoração do centenário de elevação de São João del-Rei à cidade, o jornal “A Ofensiva”, do Rio de Janeiro, ao publicar matéria sobre esse evento, construiu uma caricatura das cidades coloniais de Minas Gerais. Ironizou: “E aquelas tranquilas cidadezinhas

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SANTOS, José Belline dos. São João del-Rei: a cidade que não olhou para trás. São João del-Rei: Gráfica do Diário do Comércio, 1949.

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VIEGAS, Augusto das Chagas. Notícias de São João del-Rei. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1942. Irmão do prefeito Antônio Viegas, Augusto das Chagas Vieras foi eleito deputado estadual pelo PSD em 1945.

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De acordo com Antônio Gramsci, os “intelectuais orgânicos” são aqueles que conferem coesão aos grupos sociais, mantendo-os conscientes de suas posições, objetivos e finalidades políticas. GRAMISCI, Antônio. Os

intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

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Sobre a versão “moderno-iluminista” da história ver: REIS, José Carlos. Da história total à história em migalhas: o que se ganha e o que se perde? In: História e teoria, historicismo, modernidade, temporalidade,

do interior que vivem mais do esplendor do passado do que da vida do presente vão se reanimar. Repicados de todos os sinos dos velhos templos católicos. Salvas de dinamite. Alvoradas com bandas de músicas. Haverá bandeirolas nas ruas.” 85

Enquadrar São João del-Rei como cidade vinculada estritamente ao passado colonial, como fez o jornal “A Ofensiva”, fora considerado um insulto ao “progressismo” local. Episódio digno de nota, o editorial do Diário do Comércio responde à ofensiva:

São João del-Rei não vive somente do esplendor do seu passado. A energia e o patriotismo de seus filhos construíram e vêm melhorando cada vez mais uma cidade moderna e progressista, onde as torres de nossos templos seculares se emparelham às altas chaminés das nossas fábricas. 86

No excerto acima, “cidade moderna e progressista”, “torres dos nossos templos seculares” e “altas chaminés das nossas fábricas” servem de recurso semântico para contrapor à representação de “cidadezinha do interior” que vive “mais do esplendor do passado do que da vida presente”. Nessa luta de representações, a redação do Diário do Comércio contestava também a própria imputação a São João del-Rei do epíteto de “cidade-morta”.

Sabemos que a representação de “cidade-morta”, que traz consigo um indicativo temporal, se difunde no Brasil na virada do século XX como lugar-comum do retrato das cidades coloniais. São identificadas como mortas, paradas no tempo, decadentes e estagnadas porque já não respondem mais à dinâmica da estrutura produtiva nacional como nos séculos anteriores. Então, as “cidades-mortas” são tomadas como expressão de um Brasil rural, arcaico e atrasado. Refletem o estado de miséria nacional, constituindo um entrave ao projeto de construção de uma civilização moderna, urbana e industrial.

As “cidades-mortas” representam a imagem do Brasil colonial e atrasado e, portanto, a antítese das promessas republicanas de instalação de uma nova ordem a partir dos ideais de liberdade, progresso e civilização. “Quantas cidades mortas se nos apresentam típica, exclusivamente coloniais. Esquecidas pela nossa civilização, de há muito cessaram de contar na economia nacional. São pedaços desvitalizados do território nacional.” 87

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A Ofensiva, Rio de Janeiro, 06 de março de 1938. Matéria também reproduzida no Diário do Comércio, 12 de março de 1938, n° 6, intitulada: “Uma nota infeliz”; editorial.

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Monteiro Lobato é um dos principais expoentes dessa versão que toma as “cidades-mortas” como retrato das mazelas do Brasil88 e suas ideias também tiveram ressonância em São João del-Rei. O livro “Cidades Mortas”, por exemplo, compõe uma série de contos que representam a decadência das cidades do Vale do Paraíba com a queda do ciclo do café. De acordo com Lobato, o progresso – “nômade” e sujeito a “paralisias súbitas” – migrou daquela região e desde então estas “cidades moribundas” passaram a “chorar as saudosas grandezas de antes”. Seus palacetes estão em “ruínas”, condenados pelo “bolor da velhice”. Por isso, as “cidades-mortas”, onde “tudo é pretérito”, se desviaram da civilização. 89

Podemos notar que esta noção de “cidade-morta” esteve permeada dos preceitos higienistas e sanitaristas e, no bojo deste ideário, a redenção do Brasil – constituição de uma nação moderna, urbana e industrial – se daria fundamentalmente por meio de medidas disciplinadoras de ordem social e moral que resultassem na assepsia e combate às “endemias” das tais “cidades-mortas”. Estas deveriam sofrer intervenções cirúrgicas à luz de métodos racionais e científicos da engenharia sanitarista, apresentados como o único recurso para regeneração de seu tecido urbano. O tema da reforma urbana e sanitária entrou, portanto, na agenda pública como promessa de retirada e cura do “organismo doente” dessas cidades. 90

Ouro Preto, por exemplo, logo após a transferência do título de capital de Minas Gerais à Belo Horizonte, fora estigmatizada como lugar do atraso, identificada como “cidade-morta”, imperial, rural e decadente. “Até os anos 20 e 30, quando veio a ser descoberta pelos intelectuais modernistas, Ouro Preto era mais uma das tantas ‘cidades mortas’ – na expressão de Monteiro Lobato – existentes no Brasil.” 91

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Diário do Comércio de 20 de novembro de 1938, n° 210. Matéria: “Turismo e cidades mortas”; Constantino Campos Fraga.

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LAMARÃO, Sérgio. Os Estados Unidos de Monteiro Lobato e as resposta ao ‘atraso’ brasileiro. Lusotopie, Paris, v. 1, 2002.

89

LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 3 ed. São Paulo: Monteiro Lobato, 1921. 90

HOCHMAN, Gilbert. A era do saneamento. As bases da política de saúde no Brasil. São Paulo. Huitec/Anpocs, 1998.

91

GONÇALVES, José Reginaldo. Autenticidade, memória e ideologias nacionais: o problema dos patrimônios culturais. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 2, 1998, p. 272.

Reiteramos que os jornais locais recorreram à estratégia de tornar São João del-Rei mais conhecida na imprensa por meio de propagandas que ressaltam seu progresso material e suas adaptações aos preceitos modernos para então desfazer dessa impressão de “cidade-morta”.

São João del-Rei... Contrariamente ao que possam muitos supor, a “Princesa do Oeste” nada tem de perfeitamente idêntico com as suas irmãs: Sabará, Mariana ou Ouro Preto. (...) A melancolia não é a sua atmosfera nem, de seu casario (...). Nada de ruínas históricas e nem vastos lajedos em ruas desertas, nem paredões esborcinados a se adornarem dos liquens e das madressilvas, a indefectível floração das ruínas. São João del-Rei é diferente! De comum com as velhas irmãs, talvez apenas os majestosos templos de um mirífico barroco, um ou outro beco, um ou outro sobrado, de corredores e varandas em projeção à maneira das construções de antanho. Fora isso, dir-se-ia que a cidade se remoçou ou nunca envelheceu...92

Essa distinção entre “nós” progressistas e “eles” atrasados serve para demarcar uma identidade territorial e para destacar São João del-Rei das demais cidades coloniais mineiras, fortalecendo a ideia da transposição da sua imagem de cidade colonial para cidade moderna e industrial. De acordo com a imprensa local, São João del-Rei era, sobretudo, um atestado dos “melhoramentos” que uma cidade do interior podia receber dos tempos modernos. “Aqui, não somente se evoca e se mostra o passado; mas vive-se intensamente a época que passa e se constrói promissoramente o futuro. Por tudo isso é mister tornar S. João del-Rei mais conhecida.” 93

Na enquete da comemoração do centenário de elevação de São João del-Rei à cidade, o cronista Agostinho de Azevedo assinalou que as festas e feiras de exposições expressavam a pujança comercial e industrial da cidade. E acrescentou que os indivíduos “pouco líricos” não conhecendo São João del-Rei “acham que essas veneráveis terras fedem a mofo e bolor” 94. Fica nítida a preocupação do grupo Associação Comercial, do qual ele é porta-voz95, em apagar de vez essa impressão de São João del-Rei enquanto cidade colonial, estagnada no tempo, morta e decadente na sua estrutura urbana e produtiva.

92

O Correio, 2 de novembro de 1938, n° 705. Matéria: “São João del-Rei”; dr. Wilson Mello Silva. 93

Diário do Comércio, 12 de abril de 1938, n° 32. Matéria: “A nossa propaganda”; editorial. 94

Diário do Comércio, 10 de março de 1938, n° 4. Matéria: “Centenário”; Agostinho de Azevedo. 95

Decerto indivíduos podem representar coletividades inteiras, assumir a sua ética, seus projetos, em resumo, a sua ideologia.

Nesse caso, a polarização entre “cidade-morta” versus “cidade viva”, progressista e movimentada serve para fortalecer a crença de que São João del-Rei já não se enquadra naquela representação do Brasil pitoresco difundida pelos viajantes nos séculos XVIII e XIX, mas sim na do Brasil moderno, urbano e industrial que participa do circuito das nações civilizadas:

Na vertiginosa carreira do progresso mundial, com os albores novos do século vinte, São João del-Rei marca lugar proeminente de destaque no desenvolvimento e na transformação para o complexo, para o perfeito e para o atual, entre as cidades modernas e ultra civilizadas. (...) Não é apenas o passado que ali se respira, e sim a vida mineira e brasileira bem viva e bem presente, bem ativa e bem consciente da sua força e do seu destino. As coisas do passado, ali, parecem ter apenas lugar que devem ter em nossa vida, nenhum romantismo, nenhum saudosismo. São João del- Rei não vive do seu passado. Vive com ele. São João del-Rei é uma cidade que não envelheceu. 96

Como fica evidente no enunciado acima, o passado é visitado a partir de valores e experiências próprios da modernidade – que apontam para uma concepção linear, absoluta e “objetiva” do tempo social – e de certa maneira ele tem o sentido de ressaltar as possibilidades do próprio presente, conferindo respaldo ao ideário da marcha evolutiva da humanidade.

Ao mesmo tempo em que procuravam reverter essa legenda, os grupos locais concentrados em torno do espaço da Associação Comercial, a partir de uma leitura muito atenta da cartilha de Monteiro Lobato, atribuíam esse epíteto de “cidade-morta” à vizinha Tiradentes, condenada como símbolo do atraso, afastada do binômio progresso-civilização. Para estes, a cidade de Tiradentes dormia um sono profundo e só acordava durante a festa de Santíssima Trindade. “Tiradentes acorda uma vez no ano, põe um traço na sua agonia e se engalana para o culto da Santíssima Trindade, com aquele bulício das festas do seu ontem.” 97 De acordo com José Belline dos Santos, não se ouve nesta cidade nem o barulho da passagem rápida do automóvel – símbolo da compressão espaço-temporal da modernidade – rumo a outras cidades “mais felizes”. “Nada mais ouviria ali além do badalar compassado e soturno do sino da velha matriz.” 98

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Diário do Comércio, 6 de março de 1938, nº 1. “São João del-Rei, cidade contraste”; editorial. 97

A Tribuna, 30 de maio de 1937, n° 1379. Matéria: “A festa da Trindade”; editorial. 98

Diário do Comércio, 15 de outubro de 1940, n° 785. Matéria: “Tiradentes, cidade em agonia”; José Belline dos Santos.

A fórmula veiculada por esse espaço para reverter esse ranço de “cidade-morta”, assim como toda impressão de “imobilismo”, foi a da “ruptura dos horizontes”, ou seja, a valorização da prática de intervenção e modernização da paisagem urbana como parte de um processo de afirmação de um “novo tempo” na cidade.

Não consintamos nunca que a nossa terra ofereça o triste espetáculo de decadência que apresentam as velhas cidades, que não souberam ou não puderam manter a opulência de outrora. Façamos por manter sempre acesa a flama desse entusiasmo que nos tem animado até agora, e há de nos levar à conquista de novas glórias. 99