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Estimering av geometriske depresieringsrater

Um projeto de pesquisa, coordenado por mim, foi desenvolvido entre 2003 e 2004 e, posteriormente (em 2007), com o material pesquisado, foi produzido um CD ROM, intitulado Tudo de novo - uma experiência de construção da barragem de Sobradinho/BA.

A construção dessa barragem e da usina hidroelétrica, no submédio São Francisco, implicou profundas mudanças na vida das comunidades rurais e urbanas que habitavam a área onde hoje é o lago e gerou uma significativa migração de trabalhadores para erguer a obra. Trata-se, porém, de uma permanente produção da barragem, nem tanto do ponto de vista da obra de engenharia, mas da sua consolidação no ambiente físico-social da região. Constitui-se aí um processo contínuo de subjetivação. A área afetada pela barragem é muito extensa, a população dispersa e o acontecimento mostrou-se cada vez mais em sua complexidade. Diante disso, o que essa pesquisa se propôs, desde o início, foi traçar algumas linhas de análise dos processos subjetivos.

O modo como essa experiência marcou e marca a existência foi pesquisado através de algumas entrevistas, ouvidas e gravadas, com trabalhadores atraídos para a obra; de documentos e outros registros arquivados pelo órgão responsável por esse empreendimento monumental; de fotografias atuais e da época, disponibilizadas pelos atuais moradores de Sobradinho. Com esse material, foi possível vislumbrar a força do impacto dessa obra, bem como mapear algumas ações de resistência e de oposição em diferentes modos de manifestação. A seleção de pessoas entrevistadas mostrou-se capaz de dar visibilidade à

variação das experiências (e não a concretização de um levantamento por amostragem), para observar o modo como a diferença se impôs aos processos subjetivos.

Apenas duas indagações estavam previamente postas para orientar as entrevistas: o que levou o entrevistado à obra da barragem e o que foi marcante nessa experiência. Os relatos desses trabalhadores apontaram um movimento que, desde a fundação do acampamento, transitava pelas brechas das formas do que fora planejado oficialmente para a ocupação do lugar, engendrando novos coletivos. Esse movimento expressa-se na criação de uma cidade, Sobradinho. Em nenhum momento buscou-se verificar a veracidade dos fatos narrados pelos entrevistados, nem reconstituir uma história. Interessou pensar o modo como a singularidade dessa experiência se compôs na vida dos entrevistados.

No CD-ROM Tudo de novo..., a proposta inicial era meramente facilitar o acesso das pessoas em geral ao acervo reunido no breve percurso da pesquisa realizada. Chegou-se, pois, à linguagem digital partindo de uma pesquisa anterior, com seus materiais diversos e um bloco de análise na forma de um texto escrito intercalado por imagens sobre problemas postos pela construção da barragem de Sobradinho. Colocou-se, então, de saída, um duplo desafio: 1º Como fazer o CD-ROM de modo a dar visibilidade a um processo de pesquisa errante, que foi encontrando um percurso por materiais heterogêneos, ou seja, orientando a análise pela experiência intensiva que se produzia no encontro entre as nuances de falas, fotos, narrativas, informações, etc.? A forma com que habitualmente um CD-ROM tem sido organizado, como um menu de exposição de acervos, a partir da classificação do material em categorias distintas, isolaria as fotos históricas das atuais, dos documentos, das entrevistas gravadas, etc. Sem a pretensão de esgotar o assunto, a composição da mídia digital precisaria dar visibilidade à complexidade da questão pesquisada e o emaranhado do processo de pesquisa. 2º Como digitalizar as linhas traçadas pela pesquisa de modo que continuasse sua potencialidade de novas articulações? Não fazia o menor sentido apenas digitalizar o material disponível, como não fazia sentido transpor de uma linguagem para outra, do escrito para o digital, sob pretexto de tradução. O que estava em jogo eram as exigências e possibilidades do aplicativo, o cd-rom, por um lado e, por outro, a intensidade dos processos pesquisados e da própria ação de pesquisar.

Assim, o arquivamento da pesquisa no CD-ROM Tudo de novo... não repetiu um trabalho já feito, mas exigiu uma nova pesquisa104. Além das questões técnicas e conceituais,

104 Alguns aspectos dos problemas aqui apresentados foram tratados por Belfort (2007), pesquisador da equipe

de criação do referido CD-ROM, no que diz respeito aos recursos técnicos para a experiência inventiva. Problematiza as manipulações das linguagens no contexto digital, em que são disseminados certos padrões

as quais foram sendo tratadas e resolvidas durante a produção dessa mídia, a decupagem das entrevistas produziu novos problemas. A classificação do material, que muitas vezes se conseguia evitar pela inventividade técnica, voltava a atuar como tendência no momento de recortar trechos das entrevistas. Foi ficando clara a exigência que essa nova pesquisa impunha aos pesquisadores: era preciso deixar que as conexões se fizessem no CD-ROM com as mesmas forças com que atuavam sobre os pesquisadores. Essa clareza não era instrumental e, de certo modo, a condução dos trabalhos seguiu intuitivamente. Os trechos escolhidos não atendiam a critérios outros que não a importância que pareciam ter para expressar a singularidade da experiência narrada. A edição se fez ao ouvi-los, independentemente da qualidade do áudio ou do tamanho do arquivo.

A conclusão geral dessa produção foi uma mídia que fazia pensar a construção da barragem e usina de Sobradinho ouvindo-se as vozes dos trabalhadores atraídos para essa obra. Não se tratava, porém, de uma nova tese a respeito do assunto, nem de opiniões a serem defendidas, mas de uma outra perspectiva para o próprio pensamento. Experimentou-se, assim, a criação de um dispositivo atravessado pelas formas e conteúdos de uma prática em linguagem, sob diferentes regimes sígnicos, impondo outro modo de pensar.

Enuncia-se, com essa prática, uma série de problemas: de que forças eram portadores aqueles trechos das entrevistas escolhidos? Essa densidade ouvida dizia respeito aos atos da fala, mas haveria no texto mesmo dessas falas uma gramática da língua capaz de atuar no sentido que ali se produzia? Como se constituem esses textos, já que não é simplesmente pela informação ou pelo conteúdo semântico que interessam?