Tabell 2. Estimert langsiktslikevekt for landet som helhet
4.3 Estimering av dynamiske timeverksligninger
A fim de se compreender a razão pela qual testemunha-se hoje de uma lógica pós- moralista na sociedade, Lipovetsky apresenta uma análise histórico-sociológica do modo como as questões éticas eram concebidas e aplicadas em épocas passadas. Suas considerações a respeito do momento em que a ética se encontrava plenamente sujeita à interpretação e aplicação de autoridades religiosas são sucintas, de modo que se faz necessário recorrer a outros autores a fim de se obter uma melhor compreensão daquilo que representava a questão ética naquele tempo. Para tanto, Comparato contribui ao enfatizar o apogeu da cristandade ao longo do século XIII instituindo-se como entidade reguladora da vida humana e das relações sociais. É neste tempo que a religião regula e determina a vida humana em virtude, não apenas de rogar para si o atributo de representante do sagrado, detendo consecutivamente o grau de autoridade espiritual sobre os homens, mas também por alcançar um status político e militar dominante, subjugando reinos e nações às suas vontades e interesses
A dominação territorial cristã, em primeiro lugar, expandiu-se notavelmente dentro e fora da Europa. Poloneses e húngaros tornaram-se católicos, enquanto os prussianos foram exterminados, e seu território ocupado por alemães católicos. Em 1212, os árabes da Espanha sofreram a sua mais terrível derrota, em Las Navas de Tolosa. No Oriente, a primeira cruzada, já em fins do século XI, levou à fundação do reino europeu de Jerusalém. A quarta cruzada, convocada pelo papa Inocêncio III em 1200, estendeu a dominação ocidental sobre o antigo império bizantino. [...] Sob o longo pontificado de Inocêncio III (1198-1216), a soberania papal sobre os reis suplantou a do imperador. O papa obrigou o rei da Inglaterra a entregar parte do seu reino ao monarca francês, e dispôs livremente das coroas da Hungria, da Dinamarca, de Aragão e de Castela, como se fossem suas.63
Mediante a constatação acima, compreende-se que o mundo daquele tempo não conhecia outra autoridade reguladora da vida a não ser a autoridade da Igreja. No entanto, a influência e dominação religiosa se faziam presentes não apenas na esfera da religião em si e
da política, mas estendia-se também a todas as demais esferas sociais nas quais o cotidiano era circunscrito
O clero mantinha tribunais próprios, os únicos competentes para julgar as causas em que eram partes clérigos, viúvas, órfãos, estudantes, bem como todas as demandas em matéria de religião, as quais envolvessem leigos, todos os litígios a respeito de casamentos e adoções, todos os processos penais de blasfêmia ou heresia. Tudo isso sem falar na educação e nas atividades artísticas, inteiramente submetidas à autoridade eclesiástica. 64
Vê-se claramente que as fronteiras sociais nas quais a religião atuava ultrapassavam a esfera do público para fazer-se presente também na esfera do privado, orientando no interior das casas as questões relacionadas à vida conjugal, a educação de filhos e aos papéis a serem exercidos pelos indivíduos em família. Nesta perspectiva, Vázquez salienta a manifestação de uma unidade moral na sociedade daquele tempo, tendo em vista a aceitação pacífica por parte da comunidade em relação aos preceitos que eram colocados pela religião
A moral da sociedade medieval correspondia às suas características econômico-sociais e espirituais. De acordo com o papel preponderante da Igreja na vida espiritual da sociedade, a moral estava impregnada de conteúdo religioso, e como o poder espiritual eclesiástico era aceito por todos os membros da comunidade – senhores feudais, artesões e servos da gleba – tal conteúdo garantia uma certa unidade moral da sociedade.65
Ainda que Vázquez aponte para o elemento de unidade moral presente naquele momento histórico, reunindo os indivíduos em uma comunidade com princípios e normas sociais igualitárias, Comparato atesta para um segundo elemento verificável, que diz respeito àquilo que seria o pré-surgimento do conceito de indivíduo
...é importante assinalar, no terreno da ética, o aprofundamento dado à doutrina do pecado. Em uma antecipação aos tempos modernos, os teólogos cristãos dão sua contribuição decisiva para a afirmação do indivíduo, ao conceberem o pecado não mais como uma falta coletiva, ou uma transgressão dos antepassados a refletir-se na cadeia dos descendentes, mas sim como um ato consciente da vontade individual e que acarreta, conseqüentemente, uma responsabilidade pessoal e intransmissível.66
Após esta compreensão do universo religioso, social e político daquele tempo, em que a religião imperava e fazia valer os seus preceitos, pode-se verificar a consideração que Lipovetsky faz acerca disto no que se refere à questão ética e moral. Segundo o autor
64 Ibid, p. 131.
65 Adolfo Sánchez VÁZQUEZ, Ética, p. 46.
No começo da moral era Deus. No Ocidente cristão, até o alvorecer do século das Luzes são raras as mentes que recusam este axioma: Deus é o alfa e o ômega da moral. Somente por sua voz é que as derradeiras prescrições foram conhecidas e é somente pela fé que a virtude impera. Sem o concurso das Sagradas Escrituras e sem o temor a Deus, só pode haver vícios e extravios, pois a virtude meramente profana é desprovida de consistência e autenticidade. Nas épocas pré-modernas, a moral é essencialmente teológica: não se concebe como uma esfera independente da religião.67
Para Lipovetsky, em séculos passados, a moral se encontrava plenamente encerrada nos parâmetros da religião, em outras palavras, uma determinada atitude era ou não moral a partir do quadro moral estabelecido pela religião. O homem tinha na religião o ideal ético a se perseguir. Suas ações para consigo mesmo e para com aqueles que pertenciam ao seu círculo de relacionamento deveriam apontar para as prerrogativas já postas neste ideal, a fim de que fosse julgado um indivíduo moral perante a sociedade e, sobretudo perante Deus.
A implicação deste valor absoluto, ou seja, o ideal de moralidade era aquele que estava posto pela religião, se fazia visível em todas as esferas constituintes de seus relacionamentos, seja no realizar do trabalho diário, seja na vida privada encerrada em seu lar ou na sua vivência em sociedade. As ações do homem eram valoradas a partir do padrão, do modelo ético já previamente estabelecido pela religião. Não havia para o indivíduo daquele tempo a possibilidade de contestação das normas superiores de moralidade, pois estas estavam imbuídas de um caráter sagrado, de modo que qualquer ato de rebeldia aos seus preceitos representava, antes de tudo, uma ofensa ao Deus que as havia estabelecido. A igreja representava o instrumento divino de aplicação desta ética, quando às vezes assumia também o papel de instituidora de normas, reclamando para si uma autoridade equivalente à da Palavra revelada.
Não havia espaço para questionamentos ou para uma interpretação relativa da moral e de seus preceitos. Valores absolutos eram característicos do escopo ético regido pela Igreja, sua eficiência era indubitável e cabia ao homem a submissão às suas prerrogativas a fim de poder lograr o favor divino e, acima de tudo, atribuir a Deus toda a glória de suas ações. Nas palavras do autor, “o motivo que deve nos levar a prática da virtude não é o respeito moral ao homem, mas o desejo e a glória do Altíssimo”.68
67 Gilles LIPOVETSKY, A sociedade pós-moralista, p. 1. 68 Ibid, p. 1.
A partir do século XVII testemunha-se o início de um processo de secularização da ética a partir de um rompimento que a modernidade provoca em relação aos imperativos da religião até então determinantes. Há, a partir deste momento, a imposição de um novo paradigma de ordem moral e regulador da vida em sociedade que atuará livremente e emancipado dos postulados da religião, ainda que os preceitos religiosos continuassem a ecoar buscando fazer valer os seus valores, porém de forma marginal e com pouco alcance e significado. É um tempo em que a eficácia de normas religiosas no que se refere à sua aplicabilidade no espectro social será contestada. No entanto, como se deu esse rompimento? Quais são as suas implicações e qual a sua relevância para Lipovetsky e para o estudo em questão? É em busca de respostas a estas e outras questões que Lipovetsky se propõe a analisar as características principais daquela que seria a segunda grande matriz da ética que ele apresenta em seu texto, localizada numa época em que as instituições modernas assumiriam a competência de regulação e avaliação dos comportamentos, competência esta que antes estava conferida à religião.
Lipovetsky se propõe a apresentar o modo como se deu a ruptura com o modelo anterior, bem como a natureza desta ruptura, e em que este novo modelo irá contribuir para que a configuração ética atual alcançasse o presente status.