As mulheres tiveram participação ativa na resistência ao golpe militar. E, além de clamarem por liberdade e justiça social, buscavam redimensionar o papel da mulher na sociedade.
Participaram maciçamente no movimento estudantil e nas passeatas de protesto. Criaram, em São Paulo, o ‘Movimento do Custo de Vida’, que, depois, transformou-se no ‘Movimento Contra a Carestia’, comandando várias passeatas, com participação de milhares de pessoas, na capital paulista. Em 12 de março de 1978, uma assembléia de 5 mil pessoas iniciou a coleta de assinaturas para um grande abaixo-assinado pelo congelamento dos preços e por aumento de salários. O documento conseguiu a adesão de cerca de um 1,3 milhão de pessoas. Em 18 de agosto do mesmo ano, 8 mil populares se reuniram na Catedral da Sé e elegeram uma comissão para entregar o documento, no maior ato de protesto desde 1968. O governo não recebeu a comissão, sob alegação de que o movimento falsificou assinaturas. Assembléias, na periferia, protestaram, agitando panelas vazias. Em 28 de agosto, caravanas de todo o país tentaram, em vão, fazer a entrega do abaixo-assinado a João Baptista Figueiredo. Foram reprimidas pelas tropas de choque do Planalto.
O feminismo, que teve certa representatividade no Brasil, por influência dos Estados Unidos e da França, perdeu força após o AI-5. Só voltou a se rearticular, no Brasil, em meados da década de 1970, sob influência da onda revolucionária que percorreu a Europa, a América Latina e os EUA desde o fim da década de 1960, com os grandes movimentos estudantis e a contestação dos costumes. Em meio a essa efervescência política, o movimento de mulheres ressurgiu nos marcos do Ano Internacional da Mulher, decretado pela ONU em 1975. Ao lado do Movimento Feminino pela Anistia, surgiram grupos e jornais feministas, dando novo impulso ao debate sobre a questão da mulher. A imprensa feminina, que sofrera sério revés com a ditadura de 1964, reapareceu em 1975 no bojo das grandes manifestações de massa pela anistia. As duas publicações mais conhecidas foram Brasil Mulher e Nós Mulheres, que
duraram até 1979. Em março de 1981, surgia Mulherio, que foi publicada, intermitentemente, até 1988.
Um número incontável de mulheres, talvez milhares, participou de forma ainda mais invisível da resistência, apoiando filhos, pais, irmãos, netos e amigos, oferecendo suas casas como ‘aparelho’, trabalhando no apoio, doando dinheiro e bens e, sobretudo, oferecendo abrigo e alento.
O avanço democrático no país exigia, cada vez mais, maior participação política da mulher, deixando clara a necessidade de os grupos saírem do seu casulo e incorporarem a totalidade da sociedade, focalizando, também, outras questões que preocupam o povo. As mulheres tiveram grande participação nos movimentos de resistência à ditadura militar, nos partidos e nas organizações políticas de esquerda. Resistiram, nos embates com a polícia, nos cárceres e nas manifestações. Muitas tombaram na luta ou morreram sob tortura.
A resistência armada, realizada pelo PCdoB no Araguaia, sul do Pará, entre 1972 e 1974, contou com expressiva participação feminina, representando cerca de 20% dos efetivos. Mulheres como Helenira Resende, Maria Lucia Petit e Dina tombaram na luta, registrando seus nomes nas páginas da resistência popular ao regime militar. Praticamente todos os guerrilheiros foram mortos, em combate ou assassinados depois de presos. Entre os raros sobreviventes, destacaram-se duas mulheres. Uma delas foi Elza Monnerat, membro da direção nacional do PCdoB, que, embora não tenha pegado em armas, foi uma das articuladoras da guerrilha. Elza foi presa e torturada, no que ficou conhecido como ‘a Chacina da Lapa’. Faleceu em 11 de agosto de 2004, em Teresópolis, Rio de Janeiro, aos 91 anos. A outra é a enfermeira Criméia de Almeida, que saiu da área da guerrilha, depois da primeira investida do Exército, grávida e
doente. Presa e barbaramente torturada, em São Paulo, teve o filho no Hospital do Exército.
Na resistência armada nas cidades, também, há número significativo de mulheres. Yara Yavelberg, companheira de Carlos Lamarca, é um exemplo disso. Foi assassinada em Salvador, Bahia, tornando-se um ícone da resistência feminina. A guerrilha urbana durou apenas alguns anos, de 1968 a 1974, mas, em nenhuma outra época, o Brasil viu tantas mulheres pegarem em armas. Embora os números não sejam precisos, calcula-se que cerca de uma centena delas integraram as ações armadas. Algumas estiveram na linha de frente e se destacaram na luta: Dulce Maia, banida, em frangalhos (estava com 38 quilos), em 1970; Vera Silvia Magalhães, participou do seqüestro do embaixador norte-americano Elbrick; Lucia Murat, hoje cineasta; Yara Pereira, que perdeu na guerrilha dois irmãos e o marido; Maria do Carmo Brito, a baixinha, que teve comportamento heróico sob tortura e cujo marido suicidou-se no momento do confronto com a repressão; e Inês Etienne Romeu, membro da direção da VPR e da linha de frente no seqüestro do embaixador suíço Giovanni Bucher – presa e torturada, inventou um ponto em Cascadura (RJ) e, para não entregar nomes, jogou-se sob um ônibus. Inês ficou conhecida por denunciar a existência da ‘Casa da Morte’, aparato clandestino da repressão política, localizado em Petrópolis (RJ), testemunhando a passagem e assassinato de diversos presos desaparecidos. Inês tentou o suicídio, várias vezes. Sobreviveu, mas, até hoje, sofre em virtude das graves seqüelas deixadas pelas torturas sofridas.
As mulheres participaram da luta em condições de desigualdade, cozinhando, lavando, cuidando dos filhos. Foram ingressando nas estruturas dos partidos e, finalmente, na resistência armada, num processo de permanente contradição e luta, num cenário em que as relações de gênero permaneciam adversas.
Na luta contra o poder discricionário instituído, as mulheres que participaram da resistência tiveram, ainda, que enfrentar as concepções machistas, dominantes a respeito das diferenças entre os sexos, reproduzidas pelo discurso e pela prática masculina dos agentes da repressão. Na fala das próprias mulheres, que veremos a seguir, pode-se constatar como as relações de dominação política eram fortalecidas pelo universo simbólico e concreto da desigualdade entre os sexos.