Concordamos com Borsoi (2005) quando a autora defende, ao estudar o modo de vida dos trabalhadores de Horizonte, que a compreensão da realidade deve passar pela consideração da subjetividade. Segundo a autora:
É preciso considerar a dimensão subjetiva dos indivíduos, pois essa, ao mesmo tempo, expressa e integra a dimensão objetiva da realidade. Através das representações que os trabalhadores constroem sobre suas vidas, dentro e fora do trabalho, antes e depois de sua inserção nas indústrias, é que se poderá chegar a uma compreensão dessa vivência. (BORSOI, 2005, p.34). Essa idéia esteve presente na realização deste trabalho, pois o interesse maior estava em retratar o percebido através da expressão das mulheres envolvidas na pesquisa. Nesse sentido, cabe também trazer alguns elementos da teoria do economista indiano Amartya Sen, pois, mesmo que sejam de outra área da ciência, muitas de suas afirmações se aproximam da nossa forma de abordagem.
Sen (2000) procura demonstrar que o desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão de liberdades reais que as pessoas desfrutam, liberdades estas que incluem capacidades elementares, como ter condições de evitar privações como a fome, a subnutrição, a morbidez evitável e a morte prematura, bem como as liberdades associadas a saber ler e fazer cálculos aritméticos, ter participação política e liberdade de expressão etc.
A perspectiva do autor em analisar o desenvolvimento se torna interessante porque, assim como o projeto abordado nessa investigação, focaliza o indivíduo, considerando a vivência das pessoas, o modo como elas conduzem a sua vida e aquilo que elas próprias percebem como sendo importante.
Esse enfoque nas liberdades humanas contrasta com visões mais restritas de desenvolvimento, como as que identificam este processo exclusivamente com crescimento do Produto Nacional Bruto (PNB), aumento de rendas pessoais, industrialização, avanço tecnológico ou modernização social. Sen (2000), embora não negue a importância desses elementos, atenta particularmente para a expansão das capacidades das pessoas de levar o tipo de vida que elas próprias valorizam.
Alguns itens do roteiro de entrevista da pesquisa de campo faziam referência ao que as mulheres entendiam por qualidade de vida, o que desejavam para o seu futuro e o de suas famílias. O objetivo desses questionamentos era justamente coletar elementos para compreender aquilo que elas consideram como realmente importantes em suas vidas. Os depoimentos obtidos confirmam a hipótese da centralidade do trabalho na vida das pessoas.
Em uma das entrevistas coletivas, tivemos uma colaboração bastante expressiva do pai de uma das entrevistadas (Virgínia) sobre o significado do trabalho:
Sem trabalho a gente não pode sobreviver. Tem que trabalhar pra trazer alguma coisa pra casa. Se o caba tá parado já sabe que a casa tá desarrumada, que não tem nada. Tem que trabalhar. Eu acho que trabalho é uma coisa importante pra gente. O cara hoje que tem condições ele tem que trabalhar, o que não tem aí é que tem que trabalhar mesmo. O meu trabalho é de agricultura mesmo, na roça. Só não gosto mais porque eu já tô velho, não tô mais com a saúde que eu tinha. Quando eu tinha saúde eu dava valor mesmo. Hoje eu não trabalho mais porque a idade já tá avançada. Enquanto a gente puder, tá trabalhando.
Nessa fala, estão presentes inúmeros pontos relevantes. Inicialmente, está a questão da própria sobrevivência: o trabalho como propulsor de outras realizações, como a semente que possibilita a coleta de diversos outros frutos. As mulheres entrevistadas compartilham dessa percepção e resumem como algo extremamente valioso:
Trabalho pra mim significa tudo. Porque, através do trabalho, nós temos tudo. E se ainda não temos, com certeza em algum dia da vida teremos, pois quem espera por Deus não cansa. Temos que ter nosso próprio trabalho, para que nós possamos se auto-sustentar, comer do próprio suor do nosso rosto e porque mente vazia é oficina do diabo. (Maria).
O trabalho pra mim é uma fonte, que cada um de nós depende dele. Porque sem trabalho nós não somos um pouco de nada. Dependemos para todas as coisas de nossas sobrevivências. O trabalho é uma coisa muito importante porque, através do trabalho, nós sustentamos a família, a nós mesmo e até ajudamos uns aos outros. (Lucimar).
No meu ponto de vista, trabalhar é sempre aquela tarefa a fazer todos os dias, a fazer com carinho, porque trabalhar é lida do dia-a-dia. Sempre estamos trabalhando, fazendo uma coisa ou outra. Mesmo que não goste, a vida da gente é um trabalho. Tudo que você vai fazer tem um trabalho. [...] Tudo na vida depende do trabalho, sem o trabalho você não tem nada. (Valquíria).
Assim como o trabalho consiste no meio para atingir outros objetivos, ele também é fonte de realização individual. Contudo, a análise da trajetória das mulheres
aponta que a realização no âmbito profissional, e conseqüentemente, pessoal, está cada vez mais difícil, por uma infinidade de razões, em especial, pela necessidade de aproveitar o que aparece, por questões e obrigações junto à família e aos filhos. Virgínia disse algo sobre isso:
Eu me sinto uma pessoa realizada. Pessoalmente sim, profissionalmente não. É exatamente o que tô buscando nesse projeto (“Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”). Porque nesse projeto eu tenho a chance de aprender, ter uma profissão, e através dela me realizar profissionalmente. O difícil hoje é você trabalhar com prazer, trabalhar naquilo que gosta. A gente trabalha no que aparece,[...] mas trabalhar com prazer e na profissão que escolheu é difícil hoje.
Tanto neste como em outros discursos surgiram questões como ter uma profissão definida e fazer aquilo que dá prazer como sendo relevantes para a satisfação pessoal. Para Crisália, constitui motivo de admiração o fato de a pessoa trabalhar, estudar e ter uma profissão, sendo esse um anseio destinado agora para os seus filhos, da mesma maneira que pensam outras mães: “Eu queria muito isso pra eles (filhos). Eu queria que eles estudassem, se formassem e trabalhasse naquilo no qual eles se formaram. Eu queria muito isso, acho bonito”. (Lucimar).
Para elas mesmas, os sonhos talvez não vão muito longe, mas geralmente estão relacionados com a vontade de trabalhar naquilo de que gostem e, principalmente, poder oferecer um futuro melhor para os filhos, com direito àquilo que elas não tiveram.
Qualidade de vida pra mim é você poder oferecer pra sua família uma vida estável, sem você ter que ter aquela correria, sem ter que me preocupar, por exemplo, se eu vou ter dinheiro pra pagar uma água, uma luz, as minhas contas do mês eu vou poder pagar. Eu ter a certeza de que eu vou conseguir fazer isso. De que meus filhos vão precisar de fazer uma faculdade e eu vou poder oferecer isso pra eles; vão precisar se profissionalizar em algum curso e eu vou poder oferecer isso pra eles. (Virgínia).
Esses anseios sempre estão direta ou indiretamente vinculados ao poder de aquisição proporcionado pelo trabalho, como revela Mirtes: “Mais na frente a gente (ela e o marido) quer colocar nossos filhos numa escola melhor, porque nós dois trabalhando tudo fica mais fácil. Meu sonho também é ser costureira. Só você dizer que sabe costurar, já é uma coisa”.
Retornamos aqui a Sen (2000), quando afirma que a existência do duplo rendimento numa mesma família permite a distribuição do orçamento de forma mais equilibrada, bem como a satisfação de novas necessidades. Como apontado por Borsoi
(2005), a chegada das indústrias em Horizonte alterou as formas de apreensão da população, modificando a capacidade de consumo de gêneros duráveis e não-duráveis. Assim, temos que novas condições de vida determinam novas exigências, constroem ou despertam novas necessidades. Para Sen (2000, p. 71):
As pessoas têm de ser vistas como ativamente envolvidas na conformação de seu próprio destino, e não apenas como beneficiárias passivas dos frutos de engenhosos programas de desenvolvimento. O Estado e a sociedade têm papéis amplos no fortalecimento e na proteção das capacidades humanas. São papéis de sustentação, e não de entrega sob encomenda.
Partindo desse ponto de vista, tem-se que o indivíduo deve levar a sua vida a partir do que almeja, tendo o Estado o papel de oferecer subsídios para o desenvolvimento das capacidades das pessoas para realizarem o que desejam.
Essas ponderações são essencialmente importantes em nossa abordagem. No projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”, trabalhamos com a perspectiva de oferecer um aprendizado às mulheres para que pudessem, a partir dos conhecimentos adquiridos e da própria criatividade, assumir uma atividade laboral mais voltada para as suas aptidões e para aquilo que lhes proporcionasse prazer, não apenas no resultado final (financeiro), como também no processo de elaboração.
Difundir essa idéia não foi tarefa fácil, nem se pode dizer que foi conseguido em absoluto. No Estado do Ceará, infelizmente, ainda predomina a forma assistencialista de lidar com a população mais carente, principalmente em cidades do interior. As pessoas estão mais acostumadas a receber o tijolo, a telha, a cesta básica, o fardamento escolar dos filhos, o dinheiro para o pagamento da conta de luz atrasada, o medicamento para pressão alta. Discordamos dessa postura e acreditamos que o investimento na educação e na qualificação profissional, ou seja, nas “capacidades humanas”, para usar os termos de Sen (2000), é mais benéfico e traz melhores resultados em longo prazo.
O sonho de iniciar um negócio ou trabalhar por conta própria, presente na fala das mulheres entrevistadas, é adiado pelas dificuldades vigentes e pela impossibilidade financeira. Embora haja obstáculos, podemos dizer que pelo menos uma pessoa pareceu entender o nosso recado, ou está mais próxima da nossa forma de enxergar o mundo do trabalho:
Eu nunca peço o peixe, eu peço o anzol Aqui é assim, a gente tem o modo de sobreviver, a gente sabe fazer o artesanato, só que a gente precisa de uma divulgação [...] O trabalho dos meus sonhos é exercer minha profissão. Eu e meu marido, que eu fiz parte de um projeto (“Alinhavando Sonhos \ Construindo Realidades”) que me ensinou a sonhar demais. Hoje mesmo a gente tava conversando sobre o que a gente vai fazer, agora que tá mais fácil. A gente vai fazer uma mudança e a gente quer encher de artesanato. E assim, construindo o artesanato na hora, vendendo na hora, uma coisa assim bem natural. Meu sonho é isso, crescer com o artesanato. (Valquíria). A experiência no projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades” parece ter reativado alguns elementos que poderiam estar adormecidos em suas subjetividades, influenciando na modificação da percepção das mulheres acerca do trabalho.
8 CONSIDERAÇÕES “FINAIS”
Quem vê com o olhar de espectador ou de investigador descreve e julga a partir da própria história social e cultural e, assim, dificilmente consegue entrar nesse universo que soa, ao mesmo tempo, tão comum e tão singular. (BORSOI, 2005, p. 159).
A instalação de indústrias em Horizonte - CE, indubitavelmente, representa um marco divisor de águas na vida dos cidadãos do município. Logo após a sua emancipação, 22 anos atrás, as mudanças interferiram não apenas na infra-estrutura urbana e no cenário físico da cidade, mas também no cotidiano das pessoas, em especial devido à migração de milhares de famílias para a localidade em busca de emprego.
Partindo da perspectiva teórica da Psicologia Social do Trabalho, e tendo como caminho paralelo um período de meses de observação e convivência semanal, a presente dissertação constituiu uma reflexão sobre o mundo do trabalho e o que este representa na vida de mulheres participantes do projeto social “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”, desenvolvido em um território quilombola, localizado no município de Horizonte. Tal projeto visava incentivar a construção de grupos produtivos autônomos, formado por mulheres da comunidade, com a pretensão de criar alternativas de trabalho que não estivessem voltadas apenas para as fábricas da região. O caminho traçado possibilitou a obtenção de arremates relevantes.
As condições precárias de trabalho, disponibilizadas pelas fábricas inseridas nos modelos de produção vigentes, e observadas nas empresas instaladas em Horizonte, são percebidas conscientemente pelas mulheres entrevistadas. Elas próprias já se submeteram ao regime imposto pelas indústrias, ou conhecem alguém muito próximo que se encontra nessa situação.
O desejo de ocupar um posto de trabalho na linha de produção nessas indústrias existe, sendo que, algumas vezes, ele é permeado por questionamentos e abraçado como possibilidade última e ligada à sobrevivência, principalmente nos casos de mulheres que tiveram sua saúde física e / ou psíquica prejudicada, em virtude do tempo de serviço ou da experiência de situações difíceis no ambiente de trabalho. Por outro lado, pode ser observado, também, entre mulheres do mesmo grupo pesquisado, intensa vontade em trabalhar ou retornar ao emprego nas fábricas, o que pode ser explicado pelo aumento do poder aquisitivo proporcionado pelo salário fixo.
Sobre essas conquistas possibilitadas pelo emprego de carteira assinada, cabe destacar a representatividade que a fábrica que mais contrata trabalhadores em Horizonte possui na fala dessas mulheres, pois, somado a esta grande absorção de pessoas, ela oferece atrativos a mais que nem sempre são disponibilizados por outras empresas. Além disso, disponibiliza cargos comumente ocupados pelo sexo feminino, o que repercute na motivação para a entrada da mão-de-obra feminina na indústria ou no mercado de trabalho.
A qualificação profissional e um nível mínimo de escolaridade são itens cada vez mais exigidos por essa e pelas outras indústrias de Horizonte. Nesse aspecto, foi percebido, entre as mulheres abordadas, certa acomodação com relação a si mesmas, visto que, em geral, os planos de dedicação aos estudos, no momento atual, são prioritariamente destinados aos filhos e ao marido. Elas continuam tendo como ocupação central a manutenção da casa e o cuidado dos filhos, o que não é percebido como atividade laboral significativa.
A participação no projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”, ação direcionada para a comunidade em razão das raízes quilombolas desta, constituiu uma oportunidade de qualificação profissional abraçada pelas mulheres dessa pesquisa. O acesso ao conhecimento das origens da comunidade, bem como a aproximação afetiva a pessoas antes desconhecidas, foram aspectos importantes apontados pelas mulheres como resultados do projeto.
Algumas entrevistadas perceberam nessa experiência a chance de facilitar o início ou o retorno ao trabalho fabril, ao passo que outras vislumbraram também a possibilidade de trabalhar naquilo que realmente poderia ser fonte de prazer, o que não foi apontado como sendo no chão das fábricas. Entre elas, há aquelas que afirmam não mais conseguir acompanhar o ritmo acelerado das máquinas, subordinar-se a um chefe, adaptar-se à jornada intensa de horas de trabalho, à falta de tempo para um descanso adequado ou para a convivência com os filhos e com a comunidade. O projeto atuou seguindo uma perspectiva mais voltada para o trabalho autônomo, sendo esta uma tarefa difícil, uma vez que há uma constante busca por estabilidade financeira que possibilite um maior acesso ao consumo.
Essas mulheres estão conduzindo suas vidas e, conseqüentemente, suas perspectivas em termos profissionais, de acordo com aquilo que elas próprias consideram importante, quando, por exemplo, optam por tentar ou não um posto de trabalho nas fábricas de Horizonte. Por esse aspecto, mesmo não tendo constituído um
grupo produtivo em forma de cooperativa, o “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades” criou algumas condições para que essas mulheres possam seguir o caminho que consideram mais adequado, seja na busca de um emprego, seja no trabalho autônomo.
Portanto, de um modo ou de outro, vinculado a um emprego fixo ou ao trabalho por conta própria, ficou claro nesse estudo, a partir das falas das mulheres, o papel central que o trabalho exerce em suas vidas e a consciência por parte delas dessa centralidade. Elas falaram das conseqüências de suas experiências anteriores de trabalho em seu cotidiano familiar e social, das conquistas efetivadas a partir delas, bem como dos sonhos que pretendem realizar. Mostraram que sabem o que gostariam de ter e/ou de fazer para si e para os filhos. Suas falas revelaram, também, que elas têm consciência das dificuldades e impossibilidades de pôr seus projetos e sonhos em prática.
Como desdobramentos desse estudo, e da implantação desse projeto social, algumas questões podem ser aprofundadas, como as influências das diferentes gerações familiares sobre a atribuição de significado ao trabalho pelo indivíduo, bem como a comparação entre a percepção do trabalho por indivíduos inseridos numa lógica de trabalho fabril e a de indivíduos que desenvolvem atividades mais autônomas. Isso somente outras pesquisas poderão mostrar.
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