Empirical Modeling of the System of Wage Formation
5.4 A simultaneous equations model (SEM) of the systemof the system
5.4.2 Estimating the simultaneous system
As atividades de lazer, a arte e a cultura de modo geral são filtrados pela indústria cultural: a recepção é ditada pelo valor de troca à medida que os valores e os propósitos mais elevados da cultura sucumbem à lógica do processo de produção e do mercado. (FEATHERSTONE, 1995: p.32)
Impossibilitados de se dedicar às atividades intelectuais refinadas, seja por falta de tempo ou por medo, grande parte da população recorre às mídias de massa e outras facilidades fornecidas pelo governo, como os Fun Parks. No fragmento acima citado, Mike Featherstone (1995)142 destaca que na modernidade, a indústria cultural está intrinsecamente relacionada à vida da sociedade. Seu livro busca ponderar sobre o que seria a pós-modernidade e como os diferentes campos das ciências humanas abordam o assunto. O fragmento escolhido nos auxilia na análise de Fahrenheit 451 por ser uma síntese dos estudos de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Reconhecendo a importância da Indústria Cultural no inconsciente coletivo das sociedades massificadas, os teóricos explicam como o consumo de mercadorias é uma expressão do próprio mercado e do processo de produção, pois ambos permeiam as atividades em sociedade.
Mesmo não se encaixando na estética pós-moderna, Fahrenheit 451 aborda uma sociedade altamente consumista, em que a perfeição e a felicidade foram construídas e mantidas por meio dos meios de comunicação de massa. O padrão de vida é elevado, as casas estão equipadas com as facilidades modernas, os cidadãos tem veículos (chamados de beetles) e os jovens estão nas escolas. A imagem construída condiz com o imaginário coletivo da década de 1950, em que a vida nos subúrbios143 é um paraíso à parte do caos dos grandes centros urbanos. No capítulo “The fifties and
142 FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. Coleção Cidade Aberta. Série
Megalópolis.(Trad) Júlio Assis Simões. Studio Nobel,São Paulo, 1995.
143 Depois da Segunda Guerra Mundial, houve grandes êxodos populacionais, comumente relacionados ao baby boom e
às minorias que perderam suas vagas nas indústrias com o retorno dos soldados ao mercado de trabalho. Famílias com maior poder aquisitivo mudaram-se para os subúrbios, casas bem planejadas e bem equipadas em áreas distantes dos grandes centros urbanos.
62 after: an ambiguous culture” (2004)144, o crítico literário Frederick R. Karl nos alerta sobre o
poder das construções midiáticas, já que elas podem perdurar por anos, distorcendo a percepção da complexidade do momento histórico. Sua descrição da sociedade norte-americana assemelha-se ao tratamento dado por Bradbury:
The 1950s in America, as a consequence, have a distorted reputation: more part of the myth of recovery than the reality of experience […] The period has been characterized recently […] as a time of growth, development, progress, enlightenment, and achievement of goals; as a renaissance of sorts and essential to what helped turn the country into a superpower under a benign, grinning, ex-hero president. […] Yet, when we look deeper, we see the jagged edges: tremendous valleys amidst some heights, great disparities between our vision or ideals and what we actually were. It was a decade of much deceit, pervasive counterfeit, not little paranoia. 145 (KARL, 2004, p.21)
Em Fahrenheit 451, temos o mesmo tipo de ilusão. A prosperidade da economia e a abundância de entretenimento presente neste não-distante futuro imaginário logo se revela ambígua: suicídios, abuso de calmantes, violência e outros excessos vão aos poucos ruindo a imagem de perfeição. Fredrick R. Karl – assim como Mike Featherstone e anteriormente Adorno e Horkheimer – enfatiza a importância da mudança das atividades culturais, em especial, as culturas de massas (ou no fragmento abaixo, resumido na expressão 'popular culture') que concomitantemente influencia e é influenciada por seus consumidores; no caso, a preferência pela aparência e pelo artificial sobre a substância e ao verdadeiro.
No surprisingly, in popular culture, in the now rapidly developing area of television, the paradoxes characteristic of the decade prevailed, especially the capacity for the imitational, the forget, the artificial. Surface triumphed over substance.146 (KARL, 2004, p.25)
Ray Bradbury explora o lado negativo desta mudança na percepção da realidade, destacando como os cidadãos preferem dedicar suas atenções às mídias a seus semelhantes. Voltando-nos para o
144 KARL, Frederick R. ―The fifties and after: an ambiguous culture‖. In: A Concise Companion to Postwar
American Literature and Culture. HENDIN, Josephine G.(org) Blackwell Publishing Ltda, Oxford, 2004.
145 KARL.Frederick R., 2004. p.21
―Na década de 1950 nos Estados Unidos, como consequência, havia uma reputação distorcida: uma boa parte do mito da recuperação mais do que a verdadeira experiência [...]recentemente caracterizou o período [...]como um tempo de crescimento, desenvolvimento, progresso, iluminação e alcance de metas; como um renascimento em todos os níveis e essencial para o que ajudaria o país a se tornar uma superpotência com um presidente benevolente, sorridente e heroico veterano.[...] Entretanto, se olharmos mais atentamente, veremos alguns fios soltos; gigantescos vales entre morros, grandes disparidades entre nossa visão ou ideais e o que realmente somos. Aquela foi uma década de muito engano, falsificações generalizadas e não pouca paranoia.‖ (trad. nossa)
146 KARL, Fredrick R. Op. Cit.(2004), p.25
―não era de se surpreender, na cultura popular, agora na área de rápido desenvolvimento da televisão, que as características paradoxais da década prevaleceriam, especialmente na capacidade de imitação, de esquecimento e de artificialidade. O superficial triunfava sobre o substancial.‖ (trad. nossa)
63 texto ―Classe e Alegoria na cultura de massa contemporânea‖, Fredric Jameson discorre sobre a importância da conscientização das relações desiguais entre as classes sociais para que uma mudança ocorra. Na sociedade de Fahrenheit 451, não só não existe mais a questão de classe social, como também seu pré-requisito é negado. Para Jameson, a cultura deve ser mais do que um instrumento de consciência, mas um sintoma da própria consciência adquirida.
A relação entre consciência de classe e figuração, em outras palavras, requer algo mais básico que o conhecimento abstrato e implica uma forma de existência mais visceral do que as certezas abstratas da economia e da ciência social marxistas: essa última simplesmente continua a nos convencer da presença determinante, por trás da vida cotidiana, da lógica de produção capitalista. (JAMESON, 1995, p. 38- 39)147
Ou seja, a figurabilidade148 nos permitiria pensar sobre como a realidade social e vida cotidiana estão conectadas à estrutura de classes. Por se passar num estágio mais avançado do capitalismo tardio, nosso objeto de estudo também pode ser lido como um exercício reflexivo sobre suas consequências. Ao garantir trabalho e entretenimento a todos, o governo de Fahrenheit 451 construiu uma ilusão de prosperidade eficaz a ponto de apagar por completo as classes sociais, impedindo qualquer vestígio de figuração e mantendo sobre controle a população. Ao negar acesso aos registros escritos (livros), a população fica restrita a sua memória pessoal e perde a referência de como a sociedade costumava ser; portanto, é condenada ao eterno presente sem consequências. Todavia, essa ilusão não se mantém perfeitamente; seus cidadãos sentem inconscientemente os efeitos da reificação, conforme apontam as diversas cenas de ingestão de álcool e de tranquilizantes, de intimidação e violência. Tais atos, apesar de gerar consequências graves, não são comentados pelas personagens, passando por elas desapercebidos.