3. The Cost-Benefit Analysis
3.6 Estimating cost
As fontes utilizadas para a escrita deste capítulo foram um texto datilografado pela própria Alda, no qual relata o trabalho realizado na Escola de Aperfeiçoamento, de agosto a novembro de 1929, apresentando também um plano de ação. A outra fonte analisada foi um caderno de anotações de uma das professoras-alunas de Alda Lodi, da segunda turma da
instituição, Imene Guimarães, datado de 1932, contendo registros das aulas de metodologia da aritmética.
Cumpre-me ressaltar que, embora existam muitos documentos no arquivo sobre a atuação de Alda como docente, a escolha dessas fontes deve-se às possibilidades que oferecem para a compreensão de seu papel na Escola de Aperfeiçoamento como membro da equipe fundadora, bem como para conhecimento de sua prática educativa e algumas de suas concepções pedagógicas no ensino da aritmética. Por meio dessas fontes foi possível verificar também algumas apropriações feitas por ela dos estudos realizados no TC, de ideias de alguns teóricos com os quais conviveu como Thomaz Alexander, professor do curso de Treinamento de Professores, Kilpatrick, do curso Filosofia da Educação e, especialmente, o professor Upton, do curso Metodologia da Aritmética.
Tratarei primeiramente do texto citado que é bastante esclarecedor sobre o que ocorreu na trajetória docente de Alda Lodi em seu retorno de Nova Iorque. Trata-se de 16 páginas datilografadas em vermelho com informações complementadas por Alda, à mão, com caneta tinteiro preta. Esse documento que chamei de relatório tem as páginas numeradas em papel sem pauta, amarelado pela ação do tempo, medindo 6,5 cm por 8,5 cm, encontrado em ordem numérica, sem grampos, em bom estado de conservação, embora em algumas páginas a tinta vermelha esteja bastante borrada. O relatório tem duas partes: uma primeira, com 13 páginas, onde a professora usa um tom coloquial na escrita, indicando que ela o preparou para ser apresentado como um relato oral sobre suas aulas e as atividades realizadas com as professoras- alunas, nos três primeiros meses de trabalho com a metodologia da aritmética. Percebo que, ao mesmo tempo em que Alda relata o que foi realizado, usando verbos no pretérito, usa verbos no futuro apresentando propostas a serem realizadas. Tais propostas evidenciam a influência das idéias do curso no TC, especialmente, o de metodologia da aritmética com o professor Upton, como o ensino centrado na criança a partir de suas experiências e interesses, a necessidade da graduação das dificuldades no ensino da aritmética e o dinamismo que devia caracterizar o processo de ensino e aprendizagem. As páginas finais do relatório, numeradas de um a três, referem-se à descrição de outra incumbência que Alda recebeu na Escola de Aperfeiçoamento: organizar bibliotecas escolares na rede pública da capital, o que veremos mais adiante.
Destaco no relatório o trecho a seguir, em que grifei algumas frases e palavras para enfatizar as atividades que haviam sido realizadas, bem como os propósitos para a continuidade
do trabalho e seu compromisso com alguns princípios educativos, que pretendia colocar em prática na disciplina:
Em fins de agosto, quando de regresso de minha viagem aos E. Unidos fui incumbida do trabalho – Metodologia da Arithmética (na E. de A). Nesses três mezes alguma cousa foi feita, não muita pela escassez do tempo.
Como Arith. não deve ser ensinada com o fim de Arith. exclusivamente, á parte das necessidades da vida, sem attender ás sit. reaes que a criança encontra, mas sim a ajudal- a a estimar, a medir, a comparar, a calcular, a tornal-a socialmente efficiente no manejo das sit. numéricas, entendemos iniciar nosso curso discutindo a criança e o programa escolar. Assim firmamos as bases do nosso trabalho - giral-o em torno da creança, aproveitando seus interesses imediatos como ponto de partida da educação.
O ideal educativo deve ser, concluímos tornar efficazes as relações reciprocas, das duas forças – cr. e os valores adquiridos pela experiencia do adulto. Portanto, o programa adaptado ao aprendiz e não este ao programa (grifos meus).
Em seu relato a professora usa pela primeira vez a expressão escola nova, contrapondo-a a escola antiga, ao descrever as atividades realizadas com as professoras-alunas:
As três turmas foram divididas em grupos de 6 a 8 e cada um apresentou conclusões das discussões (falar dos trabalhos). O resultado do trabalho em grupo é fácil ver, em que o respeito á personalidade alheia é desenvolvido, em que ha oportunidade para a iniciativa, o pensamento, a responsabilidade, a cooperação, indispensáveis a qualquer emprehendimento. Passámos a ver depois os característicos de escola nova tratando-a como uma sociedade, vendo os alunos individualmente para conduzil-os ao seu maximo desenvolvimento attendo ás differenças individuais, ao meio, a todos os factores que influem no sentido quadruplo da educação – o desenvolvimento physico, inttelectual, moral e social do individuo (falar do trabalho individual).
Na sequência, Alda introduz elementos que considerei reveladores sobre como havia assimilado os pressupostos da educação progressista, estudados no curso de especialização em Colúmbia, elementos esses que me remeteram novamente aos registros que a professora havia feito no diário de anotações das aulas no TC. Alda faz uma declaração de princípios sobre como deveria atuar para integrar o ensino da aritmética ao conjunto das disciplinas, no curso regular da Escola de Aperfeiçoamento:
Mas hão de ponderar: si a cadeira é Methodologia da Arith. porque entrar nesse campo que parece não se relaciona, Não seria melhor entrar na matéria de uma vez? A razão está no seguinte: a escola antiga ensina matérias, geographia, leitura, arith, história. A escola moderna visa o desenvolvimento, ensina as creanças, ao inves de matérias, tem por objetivo seu desenvolvimento, garantir-lhes as possibilidades, (aqui Alda escreve à mão, entre as palavras) – “de se conduzir por si próprias, fazel-o senhor de seus actos”, fazel-o agente e julgador de suas acções. As disciplinas vêm pois como meio desse crescimento e, como tal, arithmetica é uma delas. Demais, si temos de aproveitar o
interesse, sem o que o trabalho não será profícuo, as matérias são dadas através de actividades. Seu valor não é intrinsico, mas está no serviço que presta, no emprehendimento e na comprehensão dos affazeres da vida. Terá por fim solucionar os problemas que se nos apresentam. Sem attender a esse objectivo perderemos de vista a vida que rodeia o menino. Se Educação é preparo do individuo para viver mais efficientemente na sociedade Escola deve ser vida. Não são poucos os conhecimentos que adquirimos na infância e no curso secundário e que por falta de applicação pouco duraram, ficando delles apenas a lembrança, ás vezes amarga, da energia e tempo gastos inutilmente. (grifo de Alda)
A partir daqui o relatório apresenta algumas de suas concepções sobre a aprendizagem dos números pelas crianças, ressalta os aspectos da aritmética que trabalhou com as alunas e cita os teóricos que estão à frente de experiências nesse campo nos Estados Unidos e Europa:
Feitas estas considerações geraes passamos a responder a pergunta: como se deve dar á creança de 7 annos o conhecimento dos números?
Virá a creança para a escola sem conhecer os números? Sim e Não. Conhece os nomes dos números aprendidos aqui e ali. Muito antes que ellas possam sentil-os claramente. Muitas vezes ella conta até 30 ou mais, certo ou errado, mas não poucas vezes , sem nenhuma comprehensão da ideia de numero, sem ligar à palavra a (ideia de) quantidade. Estudamos então a evolução das noções de quantidades continuas e descontinuas na creança , na edade pre-escolar, - o primeiro despertar da quantidade, quando ella começa a perceber a ausência de um objecto de um numero pequeno, três, quando começa a apparecer a noção visual do numero.
Ella não sabe contar, ella não sabe ainda falar, mas mostra por outros meios da linguagem que observa, que percebe a ausencia ou a presença de objectos.
Ella não sabe contar, ella não sabe ainda falar, mas mostra por outros meios da linguagem que observa, que percebe a ausencia ou a presença de objectos.
Falamos sobre experiencias feitas por McLellam, Dewey e Philips nos E. U., e Decroly e Degand na Belgica.
Embora sejam longas citações optei por trazê-las ao texto, uma vez que explicam com clareza as noções matemáticas e a especificidade dos conceitos com os quais a professora Alda conseguiu trabalhar em pouco tempo. Nesta espécie de prestação de contas que fez, provavelmente, na presença da direção da Escola de Aperfeiçoamento96 e do corpo docente da instituição, procurou relatar com detalhes como trabalhou em suas aulas, citando as publicações e os autores analisados com suas alunas:
Vimos as etapas do apparecimento das noções quantitativas começando pelo primeiro despertar da noção, quando ella revela, por gestos, que percebe o desapparecimento de
96Ao inaugurar a Escola o governo mineiro entregou sua direção ao professor Lúcio dos Santos, que ficou apenas um
ano, sendo substituído pela professora Amélia de Castro Monteiro, que permaneceu no cargo até a extinção da Escola em 1945, quando se transformou em Curso de Administração Escolar, funcionando à Rua Pernambuco, 47, no bairro Funcionários, hoje o prédio do IEMG. (PRATES, 1989).
um objecto de um grupo pequeno de 2 ou 3, ele é levado à imitação de mostrar 2 dedos, o emprego da palavra mais, significando a repetição de um acto ou com a significação da addicção, quando começa a distinguir o menor do maior, noção do 2, comprehensão que 3 é mais que 2 e 1, quando conta não aponta certo os objectos, a comprehensão de quanto, do muito, decomposição de grupos pequenos, formação de grupos de egualdades, depois mais tarde aos 3 annos e meio, quando começa a partir quantidades continuas, a partir em 2 e 4, a ter a noção de grupos de 4 e 5 objectos até quasi aos 5 annos, quando ella conhece bem de 1 a 5. Portanto, a creança vem para a escola com a noção de numero, da quantidade e o nosso trabalho será facilitar o crescimento dessa noção na escola como o foi na edade pre-escolar, isto é, através de experiencias. Tomamos algumas actividades de creança nessa edade e analysemos para ver o contacto com os números e concluímos que em quase todos há relações numéricas. O aspecto quantitativo das cousas é universal. Tudo que tem existencia existe em alguma medida, gráo, quantidade ou numero. Para ver as cousas com exactidão, precisamos entre outras, vel-as quantitativamente. Estudamos assim a desenvolver o conhecimento dos números, falando na serie, na razão, na collecção e na relação, assumpto bastante discutido fora e na classe, resultando um trabalho collectivo que aqui está. (grifo meu).
Fizemos um estudo dos problemas, sua elaboração. Realidade de problemas:
No estudo dos problemas, fizemos uma analyse dos problemas das arithmeticas publicadas de Olavo Freire, F. T. D., Nelson Monção, Amedée Peret, Trajano, Souza Loubo, M. C. Netto, e da Escola Primaria, revista editada no Rio. Tenho aqui algumas dessas analyses. (grifo meu).
Pela expressão coloquial das frases que grifei acima pude vislumbrar a professora Alda, de pé, à frente do grupo ao qual fazia seu relato, manuseando papéis, mostrando relatórios, assumindo lacunas deixadas pelo trabalho e propondo avanços:
Ao par de alguns problemas que podem ser adaptados à actualidade. Muitos foram os problemas despidos complementamente de dados quotidianos, abstractos, desinteressantes, longe de todo de oferecer a menor parcela de realidade.
O tempo não nos foi sufficiente para a elaboração de problemas que despertassem a attenção e o interesse dos alumnos, do mesmo modo que os problemas que a vida nos depara vêm acompanhados do interesse e necessidade de os resolver.
Mas fizemos sentir a necessidade de se fazer uma investigação nas relações commerciais e particulares para se conhecer o consumo da arith. de todo dia, da arithmetica social, da arithmetica pratica, para determinarmos o que os meninos devem aprender, que a sociedade deles exige, e assim simplificaremos o trabalho da mathematica, tornando-o mais pratico, mais attrahente, mais útil, real. Investigações scientificas teremos de fazer para nos mostrar quaes são os problemas frequentes no commercio, na indústria, na casa. De taes investigações nossas professoras hão de ter bases scientificas, alguns tópicos terão de subir (ser eliminados), emquanto outros ganharão emphase.
Será este um dos fins do Club de Mathematica a ser fundado no próximo anno. Uma vez, no inico
Em nosso programma de trabalho, figura Arith. e ao lado da Methodologia, a Psycologia da Arith.
Assim, o estudo da natureza das habilidades arithmeticas, comprehendendo o conhecimento da significação do numero, a linguagem arith., o problema, o raciocinio, a Sociologia da Arithmetica.
Na natureza da habilidade arith. passe o professor para o estudo da medida arithmetica – estudando a habilidade no calculo, na solução dos problemas – sequencia dos topicos, ordem de formação das connexões,princípios geraes, a distribuição do exercício, o raciocionio (com cooperação de habitos organizados), utilização dos interesses instinctivos, interesse em arithmetica. (grifos de Alda).
As condições de aprendizagem – condições externas, hygiene dos olhos em arithmetica, o uso dos objectos, arithmetica oral, mental e escripta – o problema “attitude", os jogos educativos.
Na escrita de seu relatório aparecem idéias que ela revê na medida em que escreve, corrigindo a si própria, buscando uma melhor redação, mais clara, para comunicar suas intenções de trabalho, como neste trecho: No campo da Methodologia Correcção, afim de facilitar a
graduação, melhores meios para a aprendizagem, differentes methodos para atacar as operações, sendo todo o trabalho seguido de...
Na sequência do texto há uma referência a Osburn, citado no diário de anotações das aulas no TC, à página 224, como autor de “Aritmética Corretiva”, de onde suponho a professora extraiu as seguintes idéias:
No campo da Methodologia da arith. vemos o estudo das difficuldades, fazendo, por meio de tests o diagnostico dos erros nas operações fundamentaes, a correcção – a gradação dos exercícios de modo a serem as difficuldades vencidas cada uma a seu tempo, differentes methodos de atacar as operações, os problemas, o calculo mental, o escripto, a dosagem da materia, sendo todo o trabalho seguido de applicação nos grupos que são os nossos laboratorios. (grifo meu)
A frase que ressaltei acima indica que já no primeiro ano de funcionamento da Escola de Aperfeiçoamento teve início, nos grupos escolares em Belo Horizonte, o trabalho orientado com base no ideário do movimento da Escola Nova, do ensino centrado na criança, na observação de suas dificuldades à luz da psicologia educacional. No texto-relato de Alda, os grupos escolares eram vistos como campo para estudos e pesquisas e um laboratório de aplicação dos tests sobre aprendizagem infantil para verificação das professoras-alunas:
Temos entrada franca em todos os grupos da Capital, portanto grande material à nossa disposição para experiencias, investigações e pesquisas.
Faremos ainda no nosso curso um estudo especial dos tests de arithmetica, adaptando o que for possivel, ou mesmo fazendo novos, para informação da habilidade de cada alumno, não só para dar ao professor as difficuldades e aptidão de cada um, como tambem para informar o alumno de suas próprias habilidades, applicando-os para desenvolvimento da precisão e rapidez.
Prepararão as professoras o material illustrativo das lições, com jogos, gráficos além de cultivar o melhor dos materiaes – o verdadeiramente actual – os jornaes.
Finalmente, com os resultados praticos obtidos faremos um programa de arith. para o curso primario seguido de instrucções para as professoras.
Para ampliação de nossos trabalhos projectámos a fundação do Club de Mathematica, que se incumbirá da solução de nossos problemas, elevando o aspecto social da mathematica.
Uma das actividades será a installação de um banco e correio no grupo anexo à escola, para maior contacto com os números.
Alda passa um traço para separar uma observação que parece indicar o trabalho integrado de todas as disciplinas pautado pela instituição: ainda não foi executado, sujeito ainda
a modificações que se venham a fazer depois de discutido pelas professoras de Methodologia.
Ao final de seu relato apresenta um planejamento em três etapas que constatei ter sido adaptado a partir das idéias do curso Treinamento de Professores no TC, com o professor Thomaz Alexsander:
PLANO DA PRATICA PROFISSIONAL
1º periodo – Observação – estando definidas de antemão as bases da observação: 1 - saber o que observa;
2 - Ser capaz de reconhecer isto;
3 - Saber a situação da classe – creanças, disciplina – informação antes da observação.
Observação seguida de um relatorio minucioso, com problemas descobertos na classe. Esse relatorio é commentado e criticado em classes por todos os estudantes.
A critica deve ser objectiva, baseado nos princípios geraes do ensino – deve ser especifica e dar perspectiva.
O prof. da classe deverá algumas vezes ser chamado, para esclarecer pontos duvidosos. 2º período – Participação em que as prof. discutem e auxiliam nos planos de
lições, na acquisição de material, e nas diff. Actividades da classe.
3º periodo – Pratica propriamente dita, em que as prof. estudantes tomam a responsabilidade da classe, assistida pelas outras prof. seguindo-se então a critica do trabalho. Nessa critica, far-se-á o possivel para que a propria prof. faça a sua cirtica, e sejam estimuladas seggestões para maior efficiencia do trabalho.
Antes de terminar, quero lhes falar sobre o criterio usado este anno para a classificação das prof. No fim de cada mes, um test foi dado para revisão da materia dada. Como factor primordial na classificação entrou o interesse da prof. revelado nos seus trabalhos collectivos e individuaes nas discussões em classe, emfim, na sua actividade.
(Alda Lodi completa a frase à mão): Tenho aqui duas amostras dos textos, applicados em classe. (grifos de Alda)
Ao final, encontra-se um lembrete de Alda para si própria: (Falar do curso das prof.
primarias) Parece que essa medida vem em parte resolver o problema do desequilibrio entre a pratica prof. e as aulas de methodologia.