6. Implementació de l’aplicació
6.2 Core
6.2.2 Estats
A caridosa, por excelência, era a mulher dotada de condições materiais e tempo disponível para se doar ao próximo. Portanto, somente uma parcela restrita da população feminina, provenientes de famílias abastadas, tinha a possibilidade de exercer a caridade. Percebida como uma dimensão da vida das mulheres, a caridade é apontada pelos jornais católicos como uma forma de expressar a generosidade e a compaixão, atributos supostamente femininos.
Michelle Perrot (1994), analisando a sociedade européia, especialmente a sociedade inglesa, enfatiza a caridade como uma forma encontrada pelas mulheres para sair do espaço destinado a elas. Apoderando-se dos espaços deixados ou confiados, as mulheres ampliaram sua influência promovendo uma sociabilidade com parâmetros nunca pensados e promovidos anteriormente (ibid., p.504). A interpretação de Perrot confere à atividade caritativa um papel crucial na ampliação da presença feminina na vida pública, a partir da promoção de associações de ajuda às famílias carentes, aos doentes, às prostitutas, entre outras. Desta forma, a caridade é percebida como o início de uma projeção social importante ao proporcionar às mulheres mais abastadas um ingresso legítimo na vida pública. De acordo com Perrot, o desenvolvimento da caridade ao trabalho social foi motivado pelas mulheres ao se utilizarem dos espaços para ampliarem sua influência.
Todavia, a autora demonstra como as atividades caritativas proporcionaram às mulheres um controle e um esclarecimento interpretados como perigosos para a sociedade. A atividade que inicialmente era incentivada e supervisionada pelos confessores e maridos começava a ganhar ares de promoção da independência. Segundo Perrot, as mulheres passaram a controlar e administrar um grande volume de donativos, a ter posicionamento político e articular suas próprias reflexões, a buscar ou adquirir com a prática a profissionalização. Além disso, o contato com a pobreza, a violência, as doenças – descortinaram um novo mundo para as mulheres da elite. Assim sendo, o sair teria duas dimensões, sendo elas, sair fisicamente - ir para onde quisesse; e sair moralmente – desafiando os papéis sociais atribuídos a elas.
Mais do que o caráter emancipatório, Perrot assinala a preocupação dos homens em perder o poder e a percepção por parte do Estado de que as posições ocupadas pelas mulheres eram pontos estratégicos e precisavam ser retomados. “À medida que o pauperismo se transforma em questão social, a intervenção masculina torna-se mais premente” (ibid. p.510), ou seja, a gestão dos problemas sociais equacionadas pelas mulheres através de suas obras caritativas passaram a ser taxadas como insuficientes para solucionar a mais complexa questão social. Nesse processo, a gestão da questão social começou a ser atribuída aos políticos e aos profissionais como médicos, juristas, psicólogos, prontos a fazer das mulheres auxiliares confinadas em empregos subalternos como enfermeiras, assistentes sociais, professoras.
Com relação à importância da presença feminina no enfrentamento das questões sociais, podemos estabelecer um paralelo entre o trabalho de Perrot (op.cit) e o de Donzelot (op.cit), pois ambos ressaltam a centralidade da mulher na família e na conformação do social. Apesar das especificidades de cada trabalho, ambos destacam os séculos XVIII e XIX como um período de intensas transformações, sendo muitas delas promovidas pela ação das mulheres na sociedade. Propomos ainda, apesar das incomensuráveis diferenças entre as sociedades inglesa, francesa e brasileira, utilizar o argumento de Perrot como referência de análise do discurso católico expresso nos jornais A Cruz e O Apóstolo.
Junto aos aspectos considerados positivos, tais como, estimular o cuidado com o próximo, desenvolver o amor e a generosidade e ocupar o tempo ocioso, o exercício da caridade também trazia preocupações manifestadas nos jornais católicos, pois tais atividades eram realizadas quase sempre fora do espaço doméstico. Por isso, conforme foi apresentado pelo discurso católico, tornava-se essencial uma atenção especial às mulheres dedicadas a cuidar da situação moral e material dos pobres. Nesse sentido, a supervisão dos padres era apontada como fundamental. No artigo Missão christã das mulheres (Anônimo, O Apóstolo, 09 jun.1867), o modelo de mulher caridosa é apresentado e nele foi ressaltada a dedicação feminina fundamentada na abnegação, no sacrifício e na capacidade de doação integral à tarefa divina, sendo assim, “o apostolado na família e na sociedade (através da caridade) dever ser vivido com reserva, prudência, descrição, socego e modéstia.” (grifo nosso). A resignação e a sobriedade são enfatizadas para que “sem affectar a independência que não vos pertence, sem aspirar a um domínio duvidoso, podereis, todavia exercer uma justa e apreciável influência (...)” (ibid.).
Analisando as ressalvas dos jornais percebe-se a necessidade de restringir o envolvimento das mulheres caridosas. Dessa forma, poderia ser aberta a possibilidade de um maior contato e integração entre as mulheres, seguida de trocas de experiências com uma intensidade nunca antes vista. A feminização das religiões, no século XIX, pode ser interpretada, de forma geral, como um recrutamento e como uma tomada de consciência das mulheres. No entanto, não era essa a intenção da Igreja Católica, pois como enfatiza Perrot (op.cit) a instituição religiosa ao utilizar a força feminina tinha como propósito reforçar o
modelo familiar conservador.
No artigo A Caridade é a primeira das virtudes (Anônimo, O Apóstolo, 12 jan.1866.) a doação de tempo, de afeto e de cuidados concedidos pelas mulheres são enfatizados como uma manifestação de amor pelo qual as mulheres não deveriam esperar qualquer retribuição material. De forma análoga, cuidar dos necessitados é tão obrigatório e tão gratuito quanto cuidar da família. Portanto, a relação de dependência e subordinação é sempre (re)afirmada como algo a ser relembrado diante do intenso contato com o mundo exterior, mundo esse interpretado como corruptor dos indivíduos e, em especial, das mulheres. A missão das mulheres no espaço público era valorizada e concomitantemente colocada como dependente da orientação masculina (dos padres), na tentativa de perpetuar o controle sobre as mulheres e destituindo qualquer possibilidade de autonomia e capacidade de comando.
O cuidado e o amparo provenientes das atividades caritativas estavam impreterivelmente relacionados à propagação dos ideais católicos, logo, o apostolado feminino na sociedade voltava-se para a promoção da moralização dos costumes, expressão contra o casamento civil, forma de defesa da educação religiosa familiar e escolar, entre outros. Os princípios morais eram também reforçados através dos gestos e das vestimentas. A primeira preocupação centrava-se no decoro, destacando com desprezo a elegância e o desejo de ostentar boa aparência, pois “por melhor que fique um vestido decotado deve-se-lhe preferir outro que sendo mais honesto e decente, fornecerá mais a quem usar delle, por que dará uma idéia mais feliz das suas boas inclinações.” (Anônimo, A boa margarida, O Apóstolo, 23 mai.1872). Havia, portanto, um cuidado especial para com a estética da vestimenta para deixar claro que o modelo ideal de mulher estava centrado na sobriedade que, por sua vez, era de grande importância para a preservação de sua virtude e honra. Acreditava-se que o contato com o mundo externo poderia despertar vaidades, reflexões e anseios.
O contato direto com as outras classes sociais, por meio da caridade, apresentava às mulheres da elite o mundo da miséria social e material. Essa proximidade ao mesmo tempo que era estimulada precisava também ser tutelada. Além disso, o contato com as populações pobres poderia contribuir para o desenvolvimento de uma embrionária consciência social. Esse foi um dos motivos que levou a Igreja Católica a pautar na Providência Divina a explicação para as drásticas diferenças sociais. Por conseguinte, os jornais católicos apontavam como necessidades imprescindíveis ao trabalho de caridade a aceitação das diferenças como naturais e oriundas do desejo divino. Portanto, caberiam às senhoras de caridade ajudar sem proferir quaisquer questionamentos. A resignação precisava estar à frente do questionamento das mazelas sociais, para que fosse evitada a possibilidade de que as mulheres se chocassem e, até mesmo, procurassem atuar como agentes de transformação social.
No Brasil, a atividade caritativa desenvolvida por padres, freiras (irmãs de caridade) e senhoras católicas começou a ser criticada pelos médicos a partir de meados do século XIX. As objeções estavam direcionadas ao caráter não científico da assistência caritativa. Segundo Marcílio (op.cit), a primeira intervenção médica foi direcionada ao trabalho realizado nas Santas Casas de Misericórdia e “procurou-se esvaziar o caráter caritativo de sua assistência” (ibid., p.193) em seu lugar propunha-se um novo projeto fundamentado no uso de técnicas científicas através de práticas médicas.
Era preciso, primeiramente, salvar o corpo. Esboça-se a tentativa de racionalização da assistência, fundamentada em pilares científicos. As mulheres que desejavam ingressar nessa nova empreitada deveriam, em primeiro lugar, assumir o papel de mães higiênicas e desenvolver parceria com os médicos dentro do espaço doméstico ou fora dele. A principal preocupação dos médicos direcionava-se para a preparação do indivíduo higiênico, condição necessária para a formação do trabalhador e do cidadão normatizado e disciplinado (Costa, op. cit, p.152).
As críticas mais comuns à caridade faziam referência à falta de organização e método de trabalho. Nessa vertente, a prática médica surge para substituir à obra de caridade, sob uma nova concepção de assistência, não mais como uma esmola, mas sim como forma de reintegração social (ibid., p.195-196)104. Fundamental é perceber a mudança de foco proposta
104 No caso específico sobre os cuidados com a infância, tema principal da obra de Marcílio, os médicos que a princípio reconheciam a importância da Roda dos Expostos, Recolhimentos de meninas e Seminários de
pelos médicos, pois não se tratava mais de salvar as almas dos moribundos, desvalidos, bebês abandonados, entre outros necessitados, como forma de demonstrar amor ao próximo, mas tratava-se de dar à assistência pública bases científicas. No discurso médico, as boas intenções precisavam dar lugar à competência. Os médicos almejavam participar da construção do novo Estado, por isso, a medicina se transformava na ciência do social105.
Em mais esse aspecto, nota-se a valorização da organização de uma política médica, mesmo que embrionária, e a sua associação ao fortalecimento da medicina e do Estado imperial, ao passo que a assistência católica visava à promoção da moral católica e o fortalecimento dos núcleos familiares.