Nos últimos anos, com o aumento da consciência da importância dos dados espaciais e avanço tecnológico das IDE em paralelo com as mudanças e desafios sociais e ambientais, os conceitos e práticas das IDE encontram-se em constante evolução (Hennig e Belgiu, 2011). Os princípios de desenvolvimento e funcionamento das IDE assentam nas infraestruturas físicas e na evolução para as infraestruturas digitais de informação e integração de sistemas de informação. A partir das décadas de 1980 e 1990 as IDE evoluíram nos conceitos, no suporte tecnológico e organizacional, nas áreas de aplicação, no nível de formalização e de operacionalidade, da dimensão e complexidade mas acima de tudo, da dimensão das comunidades públicas e privadas de utilizadores e no impacte sobre a sociedade e comunidades. Os processos de avaliação formal e as práticas de desenvolvimento contribuíram para a melhoria e os avanços verificados ao longo destes últimos trinta anos nas áreas das IDE. Neste período torna-se possível reconhecer três gerações de IDE com percursos não lineares e a (co)existência destas infraestruturas digitais em simultâneo de diferentes estádios de desenvolvimento (Shakeri et al., 2013) (Fig. 2.16).
Fig. 2.16 – Evolução cronológica das diversas gerações de IDE (IDE 1.0; IDE 2.0 e IDE 3.0) (Federal Geographic Data
Comission - FGDC) (http://www.fgdc.gov/nIDE/nIDE.html).
A primeira geração é centrada na produção de dados (IDE 1.0) que podemos designar de fase de “fundamentação e princípios” que surgiu na década de 1990 e concentrou-se principalmente em questões tecnológicas, como a harmonização de dados, a produção de modelos de metadados, os serviços web normalizados para descoberta de dados, a visualização e download (Hennig e Belgiu, 2011). As entidades centrais e promotoras tentaram criar bases de dados comuns (clearinghouse) (Grus et al., 2007) associadas a um geoportal base que inclui a documentação, a atualização periódica dos dados ou a automatização de alguns processos. Nesta fase aconteceram ganhos de consciência, reconhecimento e de preparação oficial para o desenvolvimento das IDE como um mecanismo formal de partilha de informação na administração.
Influência do governo nacional/federal
Foco dos dados
Governo nacional, subnacional e influência do setor privado –
Foco no Processo
Governo subnacional e influência do setor privado – estratégia nacional
Foco no utilizador
IDE 1.0
Países desenvolvidos Economia emergente
Países em desenvolvimento
Países desenvolvidos, emergentes e em desenvolvimento
Fornecimento de um ambiente virtual
Produto-base para o modelo de desenvolvimento SDI
Processo base para o modelo de desenvolvimento SDI
1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 Futuro
Esta intenção e vontade foram normalmente estabelecidas sob a forma de um diploma oficial de criação da IDE nacional. Nesta geração, o destaque direcionou-se para a partilha de dados e metadados, com um foco inicial nas informações de grande escala nacional e nas necessidades da administração. Alguns grupos ou instituições da administração são obrigados a participar, enquanto outros podiam integrar-se como observadores. A estrutura essencial da governação incluía comissões executivas e técnicas, ou mesmo grupos de trabalho, para tratar de questões particulares.
A segunda geração centrada nos processos (IDE 2.0) designada por “institucionalização ou melhoria da performance das IDE” refere-se essencialmente à mudança de ênfase das preocupações centradas nos produtores de dados para o desenvolvimento de processos de reposta (Masser, 2011). Nesta geração, otimizou-se o conceito de SIG corporativo nas principais organizações e partes interessadas que participam nas IDE, com impactes no respetivo funcionamento e nos dados e serviços de dados disponibilizados dentro das comunidades (Crompvoets et al., 2008d). A gestão das bases de dados (data clearinghouse) e os acordos de níveis de serviços (Service Level Agreements - SLA’s) passam a incluir a gestão de licenciamento, a divulgação, a partilha e as restrições de utilização sobre todos os temas de dados, em paralelo à implementação de medidas de segurança adequadas. A amplitude da comunidade de interessados alarga-se consideravelmente para incluir diversos utilizadores que fornecem diretamente dados, muitas vezes, são promotores de serviços, em paralelo a um maior compromisso oficial, coordenação e comunicação contínua ou regular entre as partes interessadas da administração e atores privados. Os conjuntos de dados de informação geográfica fundamentais passam a ser mantidos por meio de transações e melhoram consideravelmente a qualidade das bases de dados para apoiar as necessidades da comunidade. O desenvolvimento de plataformas ou aplicações de gestão por grupos de interesse específicos mandatados ou de natureza colaborativa passam a estar disponíveis para comunidades de utilizadores crescentes. Os grupos de trabalho internos à IDE continuam a ser formulados como resposta a necessidades e aos assuntos específicos que possam surgir, como grupos de interesse especial e iniciadas como (sub)comunidades para a coordenação de uma prática contínua e permanente em temas específicos.
A terceira geração centrada no utilizador (IDE 3.0) é designada pela “transformação centrada no utilizador”. Nesta fase ainda em desenvolvimento acontece uma mudança de destaque do papel passivo e paralelo do utilizador que caracteriza a primeira e, menos, a segunda geração de IDE (Budhathoki et al., 2008) para um papel ativo (Sadeghi-Niaraki et al., 2010). O impacto das inovações tecnológicas está a mudar profundamente as componentes da IDE orientadas para o funcionamento e respostas mais eficazes e eficientes para os utilizadores, o que maximiza o valor da informação geográfica em contextos de geração de novas economias (Donker, 2009). Os dados passam a ser ativos com valor de transação de mercado e promovem economias em atividades existentes ou novas atividades, produtos ou serviços. Nesta geração, considera-se a maturidade dos SIG que a constituem e o bom desempenho, a responsabilidade e a colaboração de todas as principais organizações e partes interessadas. Os dados fundamentais devem ser atualizados de uma forma articulada e/ou normalizada. A quantidade e a qualidade dos dados devem permitir a implementação de sistemas de suporte à decisão (Fig. 2.17).
Em simultâneo importa estabilizar o modelo de governo, de governança e de financiamento de todas as componentes e atividades bem como, uma avaliação contínua dos processos e uma revisão regular do plano de desenvolvimento e funcionamento das IDE. Nesta fase devem reforçar-se as ações de capacitação transversais à sociedade ou a todos os utilizadores no que se refere à cognição, representação e análise espacial ao nível do ensino, bem como da capacitação tecnológica para instalar ou operar os instrumentos que otimizam a utilidade dos produtos e os serviços disponibilizados. As interfaces com os utilizadores finais e a (re)engenharia de processos devem ter em linha de conta a usabilidade, os interesses e tentar atender e elevar a capacitação e satisfação dos utilizadores finais (Quadro 2.4).
Ao longo desta evolução as IDE foram influenciadas pela necessidade da sociedade e disponibilidade de inovações tecnológicas com destaque para as mudanças fundamentais que aconteceram na World Wide
Web (WWW) (Masser, 2009).
Quadro 2.4 – Características de três gerações das IDE (IDE 1.0; 2.0 e 3.0) (adap. de Budhathoki et al., 2008; McDougall, 2006; Rajabifard et al., 2006; Sadeghi-Niaraki et al., 2010).
Caraterística 1ª Geração de IDE baseada no
produto
2ª Geração de IDE baseada no processo
3ª Geração de IDE centrada no utilizador
IDE 1.0 IDE 2.0 IDE 3.0
Período Década 1993-2002 Década 2003-2012 2013 em diante
Nível de foco Explicitamente nacional Nacional, incluindo o contexto
hierárquico
Multiescalar
Forças motrizes Integração de dados existentes,
gestão de dados
Estabelecimento da ligação entre pessoas e dados; aplicações de dados espaciais
Orientado ao utilizador
Agências governamentais Organizações do setor privado e indivíduos
Resultados esperados Ligação a conjuntos de dados
simples e contínua
Infraestruturas de conhecimento, dados e recursos interoperáveis
Plataforma para uma sociedade espacialmente habilitada Participantes no desenvolvimento (Principalmente) produtores de dados Fornecedores inter-setoriais, integradores, utilizadores
Utilizadores, produtores, consumidores
Financiamento/Recursos Principalmente não
especificado ou separado do orçamento
Maioritariamente incluído em programas de
cartografia/mapeamento nacionais, ou com orçamento separado
Incorporação de governos, iniciativas privadas incluindo o crowd-sourcing
Atores envolvidos Principalmente organizações de
cartografia/mapeamento nacionais
Comités internacionais mais independentes, grupos de parcerias
Consórcios, representando os grupos de utilizadores alvo
Número de iniciativas IDE Baixo Número crescente Numerosas iniciativas
Domínio dos utilizadores Governo Vários stakeholders Todos
Tarefas Principalmente administrativas Aplicações diferentes Aplicações diferentes
Experiência com IG Especialistas em IG Especialistas em IG Toos os níveis, especialistas em IG a
advogados Relação entre as
iniciativas IDE
Baixo Cooperação crescente IDEs integradas
Medição do valor da IDE Produtividade, poupanças Valor sociocultural holístico,
despesa em não ter uma IDE
Critérios de usabilidade
Objetivo principal Redução da duplicação dos
dados
Capacitar espacialmente o governo e fornecer serviços de aplicações
Fornecer serviços baseados em localização expandida e expandir para incluir sistemas de apoio à decisão interdisciplinares, e ampliar a fonte de informação para apoiar a Sociedade
Tipo de infraestrutura Infraestrutura centralizada Infraestrutura descentralizada Infraestrutura baseada em cloud-computing
Acesso aos dados Clearinghouse ajuda os
utilizadores a encontrar informações
Geoportal permite o acesso a dados e serviços governamentais e comerciais
Aplicações acessam aos dados de forma transparente. Informações diversas alimentam-se de múltiplos canais e redes de sentido, assim como de informações voluntárias por parte do público.
Natureza das aplicações Aplicações de área de trabalho
especializadas
Área de trabalho, Mash-up, e aplicações web
Grande número de aplicações web e móveis reforçadas com a realidade aumentada
Conteúdo dos dados Conteúdo gerado pelo governo Conteúdo gerado pelo governo e
indústria
Conteúdo gerado pelo utilizador por crowd sourcing (por exemplo, Street Map) Inputs de sensores em tempo real, através de sistemas web de sensores automáticos
Apoio à imagem Orto-imagens de resolução
média
Imagens orto e oblíquas de alta resolução
Imagens 3D de alta resolução e acesso online a conjuntos de dados 3D
Caraterística 1ª Geração de IDE baseada no produto
2ª Geração de IDE baseada no processo
3ª Geração de IDE centrada no utilizador Abordagem de
atualização de dados
Novas imagens e cartografia de base
Cartografia de base atualizada com dados móveis seletivos. Atualização de dados baseados em transação em base operacional.
Atualização dos dados através de múltiplos canais, como transações, redes de sentidos, VGI, captura de dados usando UAS, compilação e síntese inteligente de informação não estruturada multimídia
Padrões de dados Modelos de conteúdos de
dados criados por cada IDE
Modelos de conteúdos de dados criados por cada IDE
Modelos de conteúdo de dados a serem normalizados para IDE interoperáveis Acesso normalizado aos dados
pelo OGC Tecnologia web
subjacente
Geoweb 1.0 Geoweb 2.0 Geoweb 3.0 e web-semântica
Estático Dinâmico
Publicação Participação
centrado no produtor Centrado no utilizador
Centralizado Descentralizado
Ligação fechada Ligação solta (mash ups)
Básico Rico
Novas tendências de tecnologia
Internet das coisas Transição do produto
para o processo
Modelo do produto como principal objetivo na criação de metadados e de conjuntos de dados essenciais
Modelo de processo baseado nos serviços SOA e web destinado à partilha de conjuntos de dados
Processo de aprendizagem social destinado a utilização melhorada de dados
Centro no grupo de utilizadores
Centrado nos produtores de dados
Centrado nos utilizadores profissionais
Centrado nos utilizadores não-geográficos Abordagem de Bases de
Dados
Ênfase na criação de dados espaciais
Ênfase na partilha de dados utilizando bases de dados relacionais
Ênfase em bases de dados para poiar a geo-business intelligence
Apoio à Decisão Anedótica Usado como Sistema de Apoio à
Decisão Espacial
Geo-business intelligence com inputs de sensores em tempo real
Modelo de Governança Simples ditado pelas
tecnologias
Conduzido por políticas Conduzido pelo utilizador · Ênfase na coordenação Ênfase na participação
regulamentada
Ênfase em diversas combinações de participação regulamentada, incentivada e voluntária
Principal utilização Tomada de decisão estratégica
com conjuntos de dados a nível nacional
Tomada de decisão operacional com conjuntos de dados de nível urbano interoperáveis
Tomada de decisão intersetores utilizando cidade inteligente, região inteligente, país inteligente, sistemas interoperáveis
Operação Multi-IDE IDEs sozinhas IDE colaborativas IDEs interoperáveis
Acordo de licença de dados
Acordo de licença bilateral Acoro de licença mestre gerido manualmente
Gestão dos direitos digitais automática Monitorização de
desempenho
Sistemas de medida de desempenho com ênfase nas atividades
Sistemas de medida de desempenho com ênfase nos resultados
Cultura de desempenho com foco na gestão operacional assim como em decisões políticas
Novas tendências de tecnologia
Internet das coisas
Next-Generation Network (NGN) Ubiquitous Sensor Network (USN) WPAN (Wireless Personal Area Network)
Política de dados Conduzido pelos requisites da
clearinghouse dos dados
Conduzido pela necessidade de partilha de dados espaciais e estabelecida através de um processo consensual
Conduzida pelo movimento Open Government Data
Comunidades de utilizadores servidas
Departamentos governamentais a nível nacional em países ricos
Mais: Departamentos governamentais a nível sub- nacional e áreas urbanas assim como empresas e indústrias
Mais: Comunidades rurais em países em desenvolvimento e países menos desenvolvidos
Fig. 2.17 – Representação da evolução dos conceitos e elementos presentes nas diversas gerações de IDE (adap. de Sadeghi-Niaraki et al., 2010).
As IDE evoluíram no sentido de se tornarem num maior nível de efetivação, de capacidade e facilidade, confiabilidade e previsibilidade das respostas aos utilizadores finais, implicando um maior nível de desenvolvimento de processos, de interoperabilidade dos sistemas, de coordenação entre os atores, de envolvimento e capacidade de influência sobre os sistemas de governança territoriais e temáticos, incluindo a maior capacitação da administração pública e a dinamização das economias privadas.
Em síntese, o(s) conceito(s) difuso(s) de IDE definem infraestruturas complexas, multidimensionais, de natureza evolutiva, adaptativa, interativa, hierárquica e colaborativa (Crompvoets e Bregt, 2008), o que corresponde a uma alteração significativa da importância e do papel participante e decisório dos utilizadores, mesmo dos utilizadores individuais (Goodchild e Li, 2012; Rak et al., 2012) num quadro cada vez mais participativo e colaborativo. A implementação das IDE é um exercício coletivo, multidisciplinar e, preferencialmente, de natureza contínua em que se pretende um nível de interconhecimento e de partilha institucional crescente, no sentido da articulação e comunicação em tempo real com vantagens na gestão de (des)continuidade jurisdicional entre grupos e instituições (GPCGroup, 2014).
A perspetiva holística sobre as IDE dificulta a respetiva compreensão e gestão. Os atuais SIG evoluem no sentido de IDEs suportados pela condução de processos experimentais, de acumulação de recursos e experiências individuais, institucionais e territoriais com desafios atuais: i) de aumento da parceria e das comunidades de trabalho, do âmbito temático e territorial do projeto; ii) de equilibrar a inovação relativamente à experimentação e validação de produtos e serviços; iii) da implementação de mecanismos
UTILIZADOR PROCESSO Web 2.0 Web 3.0 Re de de s en sores om nip res en te De sc en tr aliz ad o Ce ntr aliza do Gov erno DADOS Web 1.0 Go verno e em pres as priva da s Indiv idu ais
eficientes de difusão para os utilizadores; iv) da integração com as dinâmicas nacionais, comunitárias e globais; v) do reforço da comunicação com outros projetos europeus e locais de natureza e objetivos similares; vi) da identificação e avaliação quantitativa do impacte do projeto sobre o desenvolvimento e sustentabilidade regional; vii) e da adequação sucessiva do modelo organizacional e de financiamento (Alonso et al., 2012d).