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A trama de Sempreviva se compõe de alguns elementos do romance policial: uma série de crimes, a busca pelos criminosos, a punição deles, uma investigação, um personagem que oficia de detetive. Mas seria falso pensar neste caso em um romance policial. Um certo suspense sustenta a trama, mas a maioria dos elementos do policial clássico estão desqualificados.

É verdade que a vingança, a sua organização e a sua execução vão ser cuidadosamente planejados pelo protagonista do romance, constituindo-se no único fio condutor que o leitor consegue acompanhar com clareza.

Quando ele entra em Corumbá sob a orientação da Anistia Internacional de Londres com o objetivo de recolher provas contra os policiais que, mesmo escondidos da morosa justiça brasileira, continuavam a exercer ações bárbaras e cruéis o que Quinho quer é encontrar esses policiais para vingar-se do assassinato da sua amada, Lucinda. Tarefa individual, mas como já vimos, que tem o caráter simbólico de vingar todos os perseguidos e assassinados pela ditadura.

Assim, Quinho consegue cumprir a sua missão, desmascarando Claudemiro, que acaba morto por seus cães fila depois de ser encharcado com sangue de onça; Quinho também descobre que Knut não é quem ele pensava, mas sim, em uma reviravolta da trama, o doce Juvenal Palhano, que também acaba morto, como o próprio protagonista, assassinado no final do romance por Dianuel, um capanga de Claudemiro.

Ao visitar pela primeira vez a Fazenda La Pantanera, Quinho conhece de perto Claudemiro-Antero e organiza a ação:

... e aqui ele parou, à luz de um lampião, como se, mesmo para uma anotação mental de prioridades, fosse melhor vê-las nítidas, à medida que as formulava: desmascarar, em Melquisedeque, Ari-Knut; levar em seguida Knut- Melquisedeque para a indispensável acareação com Claudemiro- Antero; obrigar os dois a desenterrarem, lentos e compungidos, munidos de pás, diante de jornalistas e fotógrafos, as argentinas Violeta e Corine, na senzala, diante de

Jupira, do velho Iriarte, do prefeito, do secretário de Segurança Trancoso e demais pessoas gradas, autoridades locais e estaduais. E antes, ou logo que o dia despontasse, visitar Juvenal Palhano, naturalista, conselheiro sentimental da cidade e grande amigo de Jupira, que a Jupira já poderia ter falado bem dele se ele, relapso, tivesse feio a Juvenal entrega da carta que lhe trazia de Morges Suíça.... (CALLADO, A. 1981. p. 58).

No dia em que o Onceiro e seus capangas partem para uma caçada, o protagonista organiza-se mentalmente para ir até uma das antigas senzalas da fazenda, a Pantenera. Aí espera encontrar e fotografar os cadáveres de algumas das vítimas, pessoas e animais, de Claudemiro Marques e de seus subordinados, que sabe estar lá por informes mandados por Liana sua secretária e amante da Anistia Internacional. Neste dia, além de o protagonista embebedar-se para conquistar a necessária coragem de que era destituído, deixa de ler a última carta de Liana, a qual continha a importantíssima informação de que Ari-Knut não se escondia sob a máscara de Melquisedeque, como todos, inclusive Jupira, acreditavam, mas sob a de Juvenal Palhano.

Quando finalmente Quinho interna-se na fazenda, chegam, saciados e alcoolizados, os caçadores-policiais. Entre o medo e a coragem, a presença dos homens que fediam à morte incita o herói vingativo a assassinar Claudemiro Marques, utilizando-se do surpreendente estratagema: espera que todos durmam e, sabendo por Jupira do sono encerrado a que Varjão se entrega, banha com sangue de onça o corpo do delegado, o qual é devorado pelos seus próprios cães.

Assim consegue provar as atividades desenvolvidas na Pantanera e expor ao mundo o torturador, que promovia, além das caçadas terríveis, o tráfico de cocaína, torturas, estupros e assassinatos de pessoas.

A vingança estava consumada. Mas o povo não ficou sabendo nem entendendo nada, porque a grande farsa não foi revelada para ele. O povo achou que era uma vingança das onças pelo maltrato que Claudemiro infringia nelas quando tirava a pele delas ainda vivas.

Mas apesar da presença destes elementos clássicos, em Sempreviva temos uma paródia do romance policial. Há uma desqualificação das técnicas narrativas.

Quinho o herói detetive é um militante político, não um defensor da razão positivista. A razão que o move é a de desvendar os crimes e encontrar uma justiça que o não pode exigir

ao Estado, como instância do coletivo, porque este está nas mãos de um grupo perverso, não no sentido de pessoas ruins na sua individualidade, mas de pessoas que buscam perpetuar uma lógica perversa, que está instalada no Brasil desde a sua constituição.

É interessante notar como a questão dos assassinatos é trabalhada no romance. Há barbárie no proceder dos torturadores. Mas há barbárie também na forma em que Quinho resolve assassinar Claudemiro, e de certa forma, no proceder de Herinha ao pensar o assassinato de Ari Knut. Callado coloca aqui em discussão a questão da pertinência do uso da violência. Não seria está uma ideia contrária à de justiça e à de humanismo. O Estado moderno burguês monopolizou o uso da violência em nome de todos os cidadãos. Para Norbert Elias (1993. vol. II. p. 263) quando este contrato é quebrado e o estado passa a ser propriedade de um único grupo que aplica perversamente a violência contra o resto da população, é legítimo que o resto se revele e aplique também a violência para se defender. A questão do uso legítimo da violência esteve no centro dos debates da esquerda latino- americana nas décadas de 60 e 70. Marcuse (1998. p. 24) em um ensaio sobre a questão, defende este uso da violência por parte dos oprimidos como uma contra violência, porque, afirma, a burguesia nunca vai abandonar pacificamente sua posição de privilégio e assim, em algum momento o uso da violência será justificado. Esta ética que o romance nos traz defende o uso da violência como um momento necessário na praxe revolucionária.