5.4 Dom for erstatning
5.4.4 Erstatningsansvar etter norsk rett
A obra se inicia com a ida de Marina a Portugal em busca da realização de seus sonhos: “Ligeira a embarcação cruza o imenso Atlântico com destino certo, o porto de Lisboa” (AC, p. 23). A partir deste dado, analisamos como as memórias da protagonista, de tio Joãozinho em suas histórias e de Pedro constroem a casa caboverdiana e enformam as questões identitárias (individuais e de gênero) de Marina e da nação caboverdiana, muitas vezes em trânsito, na diáspora.
A caminho de Portugal, “encostada à murada do Amélia de Melo” (AC, p. 23), os pensamentos da protagonista reportam-se à imagem do suicídio do tio. “E sem que pudesse subtrair-se à força das lembranças” (AC, p. 24), seu suicídio entrelaça-se aos episódios acumulados na paisagem caboverdiana, abrindo-se para a memória coletiva desse povo. O que continha a carta: “falaria mesmo dela? Ou da Pide? Ou de ambos? (AC, p. 24).
Ao buscar, pela memória, respostas para a morte do tio, Marina vai tecendo sua trajetória individual e acaba por encontrar a memória coletiva do arquipélago:
Ninguém soube ao certo o que a mensagem continha pois o polícia que encontrara o corpo chamara logo os seus superiores e, quase analfabeto, mal pudera soletrar algumas das palavras escritas na folha de papel quando esta lhe foi arrancada violentamente das mãos pelo subchefe Costa que foi
partilhar os seus segredos e a sua destruição com os colegas da pide (AC, p. 25).
Diante dessa morte, é recomposta a atmosfera de repressão e autoritarismo na colônia, sentida por “pessoas que se rebelavam e eram caladas” (AC, p.43). Entre elas, o tio, que já fora detido pela PIDE para interrogatório mas “sem qualquer provas tinha-o soltado” (AC, p. 44).
Já em Lisboa, como aluna universitária do curso de Assistente Social, Marina ainda procura compreender os acontecimentos que alteraram sua vida no arquipélago e que a impulsionaram para a diáspora, vista, nesta obra, como outro espaço relevante para a formação identitária da personagem, uma vez que focamos a infância/adolescência e o casamento de Marina em Cabo Verde e o período universitário/envolvimento com a guerra colonial, na diáspora, em Lisboa – Estocolmo –Amsterdã e Conacry.
No entanto, para entendermos o processo diaspórico da protagonista, faz-se necessário lermos o nome de “Marina” como metáfora de mar, espaço fundamental para a construção da identidade caboverdiana, entre partir (diáspora) e ficar (caminho de volta) no arquipélago.
Na composição dessa trajetória, tanto o passado de Marina quanto espaços caboverdianos são (re) construídos em monólogos interiores, uma vez que
o espaço é uma realidade que dura: nossas impressões se sucedem umas às outras, nada permanece em nosso espírito e não compreenderíamos que seja possível retomar o passado se ele não estivesse conservado no ambiente material que nos circunda (HALBWACHS, p. 170).
Visto dessa forma, o espaço carregado de histórias é desnudado pela memória, buscando episódios marcantes do passado das ilhas que contribuam para a construção de sua identidade individual e da nação, como por exemplo, o período que caracteriza “o último quartel do século dezanove e o primeiro quartel do século vinte, marcados pelo triunfo do liberalismo e pelo advento da primeira república em Portugal” (AC, p. 33). Em contrapartida, durante esse período, vários programas de movimentos de libertação nacional cresciam em diversos lugares da África.
Nesse jogo de apreensão, pela memória, da infância/adolescência da protagonista, acompanhamos algumas de suas leituras, orientadas pelo tio: “tinha lido e tinha-se extasiado com a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade49
do formidável escritor brasileiro Jorge Amado, que mais parecia escrever sobre Cabo Verde e suas gentes” (AC, p. 31).
As discussões sobre resistência política, aprofundadas tanto com a convivência com o tio quanto com Pedro, atraíam-na:
Desde o primeiro momento de tomada de consciência relâmpago, Marina evolui, através das leituras e conversas com o tio e com Pedro para formas mais conscientes e críticas de ver a vida. O sonho de mudança, a busca de uma identidade, a procura de uma afirmação, sempre presentes nas conversas de Pedro ganharam outro significado (AC, p. 38).
Também com a ajuda de Pedro, a protagonista entra em contato com livros que abordavam temas como racismo, lutas e revoluções, e assim “soube de um mundo que havia além do Monte Cara, da luta dos trabalhadores, da África colonizada, dos países onde triunfara uma revolução socialista” (AC, p. 39).
O contato de Marina com a literatura desde cedo despertou-lhe a sensibilidade para a situação de seu povo. A leitura de Os Maias50, do
português Eça de Queirós, indicada pelo tio/professor, desdobra-se em casos como o de Bety, uma moça da ilha “que se apaixonara pelo rapaz bonito emigrante na Holanda que viera passar as férias em S. Vicente trazendo um carro decapotável vermelho e lhe andara fazendo a corte” (AC, p. 32) e, próximo ao casamento, descobriu ser seu irmão. É bem verdade que, somente mais tarde, Marina compreende a verdadeira intenção da sugestão de leitura feita pelo tio, devido à alusão do incesto entre Maria Eduarda/Carlos e sua possível relação com os sentimentos que nutria pela sobrinha, declarando-se a ela mais tarde, antes do suicídio.
49
Os subterrâneos da liberdade (1954) é uma obra composta de três volumes: Os ásperos tempos, Agonia da noite e Luz no túnel, resultando numa narrativa em que o escritor aborda a resistência da ideologia comunista à opressão capitalista durante o regime Vargas, no Brasil. 50 Os Maias, publicado em 1888, discorre sobre o amor incestuoso de Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda, filhos de Pedro da Maia e Maria Monforte. Com a separação dos pais, a menina fica com a mãe e o menino com o pai, que se suicida. Já adulto, Carlos da Maia se apaixona pela madame Castro Gomes e posteriormente descobre que a amada é sua irmã Maria Eduarda.
Vê-se, portanto, estampado na narrativa um repertório de leituras da autora, o que deixa transparecer também uma certa formação do caboverdiano, não só como uma nação independente, mas também como uma nação que compartilha culturalmente ideias várias, sejam elas brasileiras ou/e portuguesas. Essa construção intelectual através das leituras mostra o caráter dialógico das literaturas de língua portuguesa e o quanto as trocas entre autores e textos são fertilizadores para as obras contemporâneas como esta de Vera Duarte.
3.2. O espaço interno