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De acordo com Scholze e Chamas (1998), no ambiente atual de inovação, as ICTs desempenham um papel importante, incorporando o desenvolvimento econômico como parte de sua função acadêmica, além do ensino e pesquisa. Em razão disso, as universidades assumem novas funções com projetos tecnológicos em cooperação com empresas; comercialização de resultados de pesquisa; patenteamento de produtos e processos; e licenciamento de tecnologias. Neste contexto, a cooperação deixa de ser uma atividade informal e ocasional, como ocorria no passado, e adquire caráter formal, frequente e planejado, com relações regidas por contratos, que incluem a regulação dos possíveis direitos de propriedade intelectual gerados no âmbito dos projetos cooperativos de pesquisa.

O modelo dialógico de comunicação pública da ciência se apresenta como alternativa aos modelos de “déficit de conhecimento” e de “alfabetização científica” para focar o processo de midiatização da ciência na internet, que ocorre simultaneamente à “internetização da mídia”17. Sinal dessa tendência é a emergência de uma blogosfera científica, que questiona a

mediação jornalística, já que os atores sociais são possibilitados a abrir canais próprios para se comunicar diretamente com o público em geral ou com audiências específicas. Contrário a esse cenário, as universidades brasileiras mantêm-se analógicas e assíncronas, dedicando mais tempo e recursos à sua comunicação institucional do que à comunicação pública do conhecimento que produzem (AGUIAR, 2012).

17 Termo cunhado por Fortunati (2005).

Em artigo sobre o uso das redes sociais na divulgação científica no Observatório da imprensa18, o jornalista Cleyton Carlos Torres postulou que não basta fazer ciência, é preciso

dizer a todos – ou pelo menos ao maior número possível de interessados – que você está fazendo ciência. Aliás, deve ir além: não basta divulgar que está fazendo ciência apenas entre seus pares, pois é preciso criar interesses na sociedade como um todo, conversando com os interessados.

Para o jornalista, a superexposição da ciência no ambiente digital, quando não programada e bem desenvolvida, tem mais a desconstruir do que construir, pois uma informação mal utilizada pode desencadear um processo negativo na percepção do público. Por isso a alfabetização científica deve ser levada mais a sério quando “olhos de todas as partes estão atentos”.

Mas há uma mudança significativa na maneira como a divulgação é feita e consumida atualmente. Diferente de séculos anteriores quando a comunicação acontecia entre um emissor e receptor, hoje podemos dizer que a comunicação foi “horizontalizada” e acontece de maneira linear, destinada a um receptor muito mais questionador que antes. Isso não afeita apenas a maneira como a comunicação é fabricada, mas atinge também a linguagem utilizada. Os comunicadores precisam ter uma visão estratégica atenta às novas maneiras de comunicar. Essas transformações edificam uma comunicação diferente: novos meios e novas práticas que exigem rediscussões, pesquisas e a proposição de novas questões na área de comunicação. Exige também uma compreensão mais ampla para entender não apenas as empresas que recebem a comunicação, mas as práticas de instituições publicar.

Para Targino (2000), não há exercício da cidadania sem informação, pois o cumprimento dos deveres e a reivindicação de direitos civis, políticos e sociais pressupõem o seu conhecimento. Especialmente no campo social e político, a informação é a mais poderosa força de transformação do homem, aliando-se aos modernos meios de comunicação para conduzir o desenvolvimento científico e tecnológico das nações, por meio da transferência de informações ou difusão de novas ideias e tecnologias. “Insere-se no processo desenvolvimentista, configurando e fortalecendo a relação informação versus avanço social” (TARGINO, 2000, p. 5).

Apesar da sua importância, no entanto, Di Giulio (2006) lembra que a divulgação científica (ou jornalismo científico – termo utilizado por profissionais da mídia) ainda incorre em erros e, muitas vezes, não cumpre suas funções básicas – ser informativa, educativa e

18 Artigo está disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/diretorio-academico/o-uso-das-redes- sociais-na-divulgacao-cientifica/ e foi acessado no dia 2 de maio de 2016.

levantar uma reflexão crítica na sociedade. Nas notícias relacionadas às questões ambientais e à saúde pública, o problema parece ser ainda maior, pois a mídia, na intenção de levar informação e chamar a atenção do público – até por saber que esse tipo de notícia desperta a curiosidade das pessoas – publica informações erradas, distorcidas, que podem levantar falsos alarmes. Assim, o que os textos da mídia oferecem não é exatamente a realidade, mas uma construção que permite ao usuário produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta.

Pensando nisso, Lima (2011) relaciona algumas dificuldades que ainda são encontradas no processo de divulgação científica, apesar dos cuidados tomados pelos jornalistas especializados que atuam nas editorias de ciência na grande imprensa, tais como o imediatismo da publicação no jornalismo diário, que dificulta e fragiliza a informação científica, quando da apuração e veiculação da ciência.

Neste contexto, portanto, podem ocorrer distorções no processo de produção da notícia científica e, consequentemente, na falta de compreensão do público leigo. A crescente profissionalização das assessorias de comunicação especializadas em C&T se dá nesse contexto para auxiliar os jornalistas que cobrem ciência e para aproximá-los dos pesquisadores da instituição (LIMA, 2011).

Alguns dos entraves mais correntes são o reduzido espaço dedicado a temas de C&T pela mídia, a descontinuidade no tratamento das matérias científicas, a formação do jornalista pouco voltada para a área científica, e a prática do sensacionalismo, que prejudicam a imagem dos jornalistas com os cientistas, dificultando o acesso a essas fontes, como relata Lima (2011) e outros trabalhos da área de comunicação científica. Por isso os pesquisadores acabam preferindo manter relação com os profissionais de comunicação com os quais estabelecem certa confiança, conquistada a partir do interesse do profissional de comunicação em entender melhor o assunto e da maior disponibilidade de tempo para diálogo.

A autora ainda cita Caldas (1997), que afirma que o trabalho de divulgar a ciência exige do profissional de comunicação, que atua na mídia em geral e nas assessorias de comunicação de instituições de pesquisa e agências de fomento, especificamente, não apenas um conhecimento geral, mas principalmente, uma capacidade de percepção crítica e analítica da política científica e tecnológica, da importância da pesquisa a ser divulgada, e do seu impacto social. Em suas obras, a autora costuma relatar a grandeza dessa responsabilidade social do jornalista especializado em coberturas de assuntos da ciência, afirmando que ela deve ser partilhada com os cientistas. Em sua visão, contribuir para a democratização do conhecimento

científico para a opinião pública, através da mídia, é parte do trabalho do jornalista científico, que precisa se colocar a serviço da sociedade e não apenas do cientista.

Por isso, a autora acredita que o desafio do jornalismo científico é capacitar-se cada vez mais para transformar o conhecimento científico em um processo de emancipação social, política, econômica e cultural, além de articular o diálogo entre os campos da Comunicação e da Educação, pois o jornalista também assume um papel educativo ao assegurar o direito ao conhecimento científico do cidadão.

Embora a divulgação e o marketing tecnológico sejam indispensáveis para as ICTs, Puhlmann (2009) enfatiza que é necessária uma análise prévia de “em que momento”, “o que”, “como” e “por quem” deverão ou poderão ser divulgados os dados e informações técnicas institucionais (por meio de livros, publicações técnicas, teses, artigos etc.), pois poderá ocorrer comprometimento da proteção da propriedade intelectual, de negociação e transferência.

Dagnino e Thomas (2011) já demonstravam preocupação sobre uma das críticas mais frequentes que se faz à universidade e outras partes integrantes do sistema de P&D dos países da AL: referente ao fato de não se conectarem com o sistema produtivo (o que acontece nos países desenvolvidos). Nesse sentido, um dos problemas a ser resolvido para que a invenção se torne uma inovação é o da comunicação entre o campo científico e econômico, segundo Bourdieu (2003, p. 54), haja vista que “os desafios e finalidades não são os mesmos, além dos agentes terem filosofias inteiramente diferentes, e até opostas, e, portanto, geradoras de mal- entendidos”. O momento da inovação, entendida no sentido que a tradição econômica dá a essa palavra, é de transformação de invenções científicas em inovações geradoras de novos produtos e de novos lucros no mundo econômico.

3. A POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA RECENTE E A