Chapter 2: Background
2.12 Error Correction
Em sigilo e a “toque de caixa”, o governo Linhares preparou um projeto que previa a venda, no prazo de 20 dias, através de concorrência pública, do acervo de A Noite, simultaneamente com a entrega da Rádio Nacional para o Ministério da Educação. Para a
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direção e os funcionários da Nacional, o projeto tinha claras motivações políticas e financeiras. Os adversários da emissora, na impossibilidade de fechá-la sumariamente, queriam enfraquecê-la, pelo o que ela representava de prejuízo para a concorrência, mas, sobretudo, por sua firme posição em defesa dos interesses do país e da população brasileira.114
Tão logo tomaram conhecimento de o que se pretendia fazer, uma comissão de representantes da Rádio Nacional procurou o presidente Linhares. Não conseguiram ser recebidos. Decididos a impedir que a emissora fosse parar nas mãos do Ministério da Educação, procuram os dois ministros que poderiam lhes esclarecer o que estava acontecendo: o da Fazenda e o próprio ministro da Educação. No Ministério da Fazenda, esbarram com a intransigência dos assessores de Pires do Rio que, sequer, aceitavam dilatar o prazo da concorrência para que pudessem se habilitar a adquirir a emissora. A reunião no MEC foi mais produtiva. Lá, o próprio ministro, Leitão da Cunha, foi direto ao assunto:
Fiquem certos os senhores de que eu não pleiteei a transferência da emissora de A Noite para o meu ministério. Como a Nacional possui três poderosos transmissores, apenas solicitei do ministro Pires do Rio um deles para substituir o da Rádio Ministério da Educação, que é de potência inferior. O titular da Fazenda, entretanto, declarou-me que eu ficaria com toda a Rádio Nacional e não apenas um transmissor. Ia lavrar o decreto. Recusei terminantemente lembrando-lhe que a Rádio Nacional era uma grande organização, em bases comerciais e com numeroso quadro de funcionários e artistas. Sua transferência para o Ministério da Educação suscitaria problemas muito graves. (Carvalho Neto, 1977: 356)
A deixa para que os funcionários entendessem o que estava acontecendo havia sido dada. A ideia partira do ministro Pires do Rio, que conseguira o aval do presidente interino, tido como “homem fraco”, mais preocupado com a nomeação de parentes e apaniguados. Não por acaso, ele já havia se tornado motivo de chacotas como a que dizia “os Linhares são milhares” (Koifman, 2002: 364-376),115 em referência a essas nomeações. Antes de assumir o cargo de ministro da Fazenda, Pires do Rio que, além de geólogo e economista, se intitulava jornalista, era o principal executivo do Jornal do Brasil. Sua decisão, pelo visto, atendia não só aos interesses do seu patrão, o Conde Pereira Carneiro, como tinha o aval dos principais “barões” da mídia.
114 Outra medida tomada pelo presidente interino José Linhares foi a revogação do decreto nº 7.666, de 22 de
junho de 1945, que ficou conhecido como Lei Antitruste ou Lei Malaia. A lei visava a expropriação dos grandes cartéis nacionais e estrangeiros, cuja ação pusesse em risco os interesses do país. A medida, que é considerada uma das razões que levaram à queda de Vargas, causou grande repercussão e foi duramente criticada pelos “barões” da imprensa.
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A vitória de Dutra para a presidência da República, apoiado pela coligação PSD-PTB, sobre o candidato oposicionista Eduardo Gomes, da UDN, funcionou como uma espécie de freio para os adversários de Vargas. Dutra tinha sido ministro da Guerra do ex-presidente e, por mais que os tempos tivessem mudado, não eram exatamente os inimigos de Vargas que chegavam ao poder. Ao contrário. Eles haviam sido derrotados nas urnas. Antes mesmo da posse de Dutra, três membros da Comissão dos funcionários foram procurá-lo para expor o que se tramava contra A Noite e a Rádio Nacional, solicitando-lhe a suspensão da estranha concorrência.
Depois de pedir um dia para pensar, sua resposta foi positiva:
A Noite não será mais vendida. Conversei com o presidente Linhares, ele concordou comigo e, na minha presença, telefonou para o ministro Pires do Rio, mandando cancelar a concorrência... Vocês deverão ir agora ao ministro da Fazenda ouvir dele próprio a decisão do presidente Linhares. Podem dizer-lhe que vão da minha parte. (Carvalho Neto, 1977: 366)
De Pires do Rio, os funcionários ouviram apenas um lacônico: “os senhores venceram. A empresa não será mais vendida” (Carvalho Neto, 1977: 366).
A posse de Dutra foi marcada por enorme expectativa da direção e dos funcionários da Rádio Nacional. O nomeado para a superintendência das Empresas Incorporadas à União coronel Leony Machado os surpreendeu positivamente. Além de não alterar o quadro de pessoal, anunciou e cumpriu a promessa de que não contrataria novos funcionários em sua gestão, numa referência nada sutil a Linhares. O coronel Leony também se mostrou simpático à ideia de entregar a empresa à administração dos próprios funcionários.
Sete meses após assumir o governo, Dutra baixava o decreto-lei nº 9610, de 19 de agosto de 1946, autorizando o Ministério da Fazenda a dar em locação à sociedade anônima que viesse a ser organizada pelos empregados de A Noite e da Rádio Nacional, os bens móveis e imóveis descritos no referido decreto. Os demais artigos estabeleciam o prazo de 15 anos para o arrendamento, com opção de compra pelos arrendatários durante os próximos 10 anos. O ato de Dutra foi motivo de comemoração pelos funcionários da Rádio Nacional que, além de responsáveis por uma programação de sucesso e com grande retorno financeiro, estavam prestes a se tornarem seus proprietários, através de um projeto de inegáveis cores socializantes. As manifestações de apoio da população à proposta contribuíram para que a mídia comercial não apresentasse restrições à medida.
Pelo decreto, a nova sociedade seria composta por todos os funcionários da Rádio Nacional, que se tornariam seus acionistas, tendo por base o tempo de serviço e o valor do salário. As ações seriam amortizadas em longo prazo, com os empregados continuando a
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gozar dos direitos que lhes eram facultados pelas leis trabalhistas e previdenciárias. A medida constituía-se em um avanço e tanto. O capital para início e manutenção das atividades da nova sociedade estava garantido “por contratos de publicidade que a rádio já tinha acertado com empresas idôneas, cujos nomes seriam divulgados no momento oportuno” (Saroldi & Moreira, 2005: 155).
Os tempos foram se passando, o governo Dutra se aproximava do final sem que o decreto fosse regulamentado. A estranha demora preocupava, mas a iminência da volta ao poder de Getúlio, pelo voto popular, de alguma forma tranquilizava os funcionários. Getúlio retornava com propostas ainda mais nacionalistas do que antes, como a defesa do monopólio estatal do petróleo e a criação da Petrobras.
Num primeiro momento, Getúlio parecia disposto a enfrentar o cerco que a mídia preparava contra ele. Estimulou a criação do jornal Última Hora, de Samuel Wainer, e destinou canais de TV educativos para várias entidades na capital federal, Rio de Janeiro. Um deles coube à Rádio Roquette-Pinto que não conseguiu colocá-lo no ar, devido às articulações de Chateaubriand descritas no capítulo anterior. A expectativa de que o Canal 4 fosse destinado à Rádio Nacional era enorme, mas o escândalo que os Associados criaram em torno da Última Hora levou Getúlio a recuar, temendo por mais lenha na fogueira.
O aguçamento da disputa político-partidária, que culminaria com o suicídio do político gaúcho três anos e meio depois, inviabilizou a permanência de Victor Costa no cargo. Acusado pela oposição de colocar os microfones da emissora a serviço do getulismo, ele não seria perdoado pelo jornalista Carlos Lacerda e pelos militares que compunham a chamada “República do Galeão”116 por ter divulgado a carta-testamento de Vargas minutos após o suicídio do presidente.117 Do lado das emissoras comerciais, a cobertura daqueles dias de crise também era intensa. Na Rádio Globo, Roberto Marinho havia franqueado os microfones para que Carlos Lacerda fizesse campanha aberta contra Getúlio. Os ataques de Lacerda eram
116 Inquérito militar dirigido por integrantes da FAB com o objetivo de apurar a participação de pessoas ligadas
a Getúlio Vargas no atentado que feriu o jornalista Carlos Lacerda, um dos principais adversários de Getúlio, e matou o jovem oficial da aeronáutica, Rubem Vaz, que fazia sua segurança. Lacerda acusou os “homens do Palácio do Catete” como mandantes do crime.
117 Preocupado com a rápida deterioração do quadro político, Costa cria um esquema de plantão de notícias na
Rádio Nacional. O responsável pelo plantão foi Herón Domingues, que se muda para a emissora, passando a ter até mesmo uma cama para dormir mais próximo possível ao microfone. Ele era auxiliado por mais dois profissionais da emissora. Tão logo Costa foi informado da morte de Getúlio, avisou a Domingues que deu a notícia em primeira mão, lendo, em seguida, a carta testamento de Vargas. Os demais jornais e rádios da época, que violentamente vinham criticando Vargas, souberam de sua morte pela Rádio Nacional. Alguns desses veículos sofreram invasão e por pouco não foram depredados diante da revolta popular que, rapidamente, no entanto, se transformou apenas em dor.
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duríssimos e em função disso ele quase foi linchado pela população, quando a Nacional passou a divulgar a carta-testamento de Getúlio.
De acordo com o jornalista José Augusto Ribeiro (apud Baumworcel, 2004: 54) em meados dos anos 1950, o rádio acabou estabelecendo um padrão e tudo começou a girar em torno dele e das repercussões que divulgava:
Muitos acontecimentos se estendiam pela madrugada e os jornais ficavam defasados em relação ao rádio que só saía do ar à meia noite. As emissoras gravavam ou transmitiam as reuniões da CPI que investigava o caso do financiamento do Banco do Brasil para a Última Hora e quando houve o atentado contra o Lacerda, ele já falava, na Rádio Globo, toda noite, sem limite de tempo, atacando Getúlio, enquanto que a Rádio Nacional não tomou uma posição de combate. Quem mais defendeu o governo foi o Eloi Dutra, que eu acho que nem era jornalista...
A Rádio Nacional, ao contrário do que assinala a história tradicional, não se transformou numa tribuna em defesa do governo Vargas. A emissora vivia vários paradoxos. Um desses era ter a multinacional Standard Oil financiando seu noticiário, o “Repórter Esso”. A mesma multinacional que teve seu prédio, no Rio de Janeiro, atacado pelos “órfãos” de Getúlio, indignados contra os “decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais...”, como dizia a carta-testamento.