O hábito de estudar apareceu com muita intensidade nas falas dos integrantes do GTAAB.
Josué Bastos afirmou que “sempre foi muito estudioso, sempre teve esse prazer em ler, na leitura” e que, mesmo na época em que não tinha dinheiro para comprar livros, a sua educação se deu muito “na rua mesmo, na biblioteca pública”.
Educando-se no combate ao racismo e formando-se enquanto intelectuais...
Apesar desse prazer pela leitura, Josué Bastos relatou que critica a academia porque falta “substância teórica e, talvez, a grande substância teórica que falte seja o conceito de Brasil... de Brasileiro”.
No entendimento de Josué Bastos, é necessário saber “por onde a gente vai teorizar?”. Nesse caso, ele constatou que:
eu ainda não li um trabalho de alguém que falasse: “o Brasileiro é isso, isso, isso e isso, e negro”. E o fato de ser negro é um dado... é um dado, não é um folclore [...] não é exotismo, ou qualquer coisa assim. É um dado... é um dado teórico para a gente discutir. (JOSUÉ BASTOS).
Dulce disse que morou um tempo na Europa e lá ela teve a oportunidade de conviver bastante com pessoas africanas e árabes. A partir dessa convivência, ela começou a ler muito sobre a educação das populações negras na Europa, especialmente presentes na França e na Suécia.
No ano de 1988, teve muita publicação sobre a história do negro no Brasil por causa do centenário da abolição da escravatura. Nessa época, as editoras mandavam suas publicações para o GTAAB. Segundo Dulce, praticamente tudo que foi publicado no Estado de São Paulo o Grupo recebeu. Ela acrescentou ainda que os integrantes do Grupo liam e discutiam muito os textos que chegavam a eles/as, tanto as publicações das editoras como relatos de pesquisas da Fundação Carlos Chagas, de grupos de pesquisa de universidades e de outras fundações.
Josué Bastos disse que Azeviche tinha, naquela ocasião, dois volumes do livro “História Geral da África” publicado pela Editora Ática. De acordo com ele, os membros do Grupo liam e discutiam muito textos como este e, às vezes, “até combinavam seminários pra trocar leituras e informações”.
Esse formato de seminários e grupos de estudos internos ao GTAAB foi inspirado em eventos organizados por meio do CPDCN. Sobre isso, Anike disse que esses eventos:
Eram interessantes. As pessoas, elas, geralmente, levavam ou os seus trabalhos, os seus próprios trabalhos que elas estão envolvidas, ou mesmo a questão de bibliografia que, de uma maneira ou de outra, havia se destacado por algum momento, ou por alguém ter lançado, ou era uma discussão que estava na pauta da imprensa, naquele momento. Aconteceu muito isso de está na pauta imprensa, e na área biológica era uma discussão mesma bem voltada,
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geralmente, isso acontecia com profissionais que eram de hospitais; elas vinham por uma questão de doenças, hipertensão e o negro, ou questões bem técnicas mesmo, mas eram pautadas dessa forma
(ANIKE).
Segundo Anike, os círculos de leituras organizados internamente ao GTAAB possibilitaram que cada um aprendesse a partir da área de formação e de atuação dos outros.
Isto eu acho que foi uma das coisas mais interessantes que a gente pode ter era..., foi a possibilidade de internamente; [...]com uma certa regularidade, nós tínhamos nossas conversas, nosso círculo de conversa para que cada um pudesse crescer, em termos de sua área e na área do outro, com bibliografia. Então, quando eu digo brincando, mas não é brincando, que eu li Foucault, eu digo com o maior orgulho porque para um profissional da biologia, Foucault não está na nossa bibliografia e é raríssimo alguém que leia, mas o Carlos era da filosofia e ele falava em Foucault todos os dias, e eu percebi a importância e falei: “Acho que é melhor que ele dê uma palestra”. Então, cada um começou dar algumas palestras para nós mesmo. Imagina como isso é enriquecedor? (ANIKE).
Esses círculos de leituras proporcionaram aprendizagens com e no GTAAB. E:
Nos interessava enquanto grupo, enquanto sociedade, enquanto profissão, enquanto profissionais e ainda tendo a oportunidade de trocar e acrescentar e aprender com outros, com os outros membros que tinha uma formação brilhante, técnica, intelectual e tudo mais. Todo mundo ali já tinha terminado a universidade, mas continuavam na universidade por seus trabalhos, para complementar sua formação. Então, dava para ficar meia tarde ou a noite conversando. Teve um dia que eu pedir: “vamos falar sobre Darwin sim! Vamos observar quando Darwin esteve no Brasil e o que ele falou a respeito do negro quando ele esteve no Brasil?” Então, vamos discutir isso porque estava ficando um pouco só história (ANIKE).
Havia também a preocupação de se informar e informar os demais membros do GTAAB por meio de matérias e notícias que veiculavam pela mídia impressa. Nesse caso, Anike diz: “quando você falou: “vocês liam notícias de jornal” quase que eu ia falar para você: “ah, sim! As notícias vinham por e-mail”, mas não tinha. Olha, e mesmo assim nós éramos muito bem informados”.
Essas estratégias, métodos e atividades de aprendizagens foram se consolidando e se sofisticando no interior do GTAAB. Nesse caso,
Educando-se no combate ao racismo e formando-se enquanto intelectuais...
Nós, realmente, discutíamos a questão da bibliografia existente em relação à questão do negro, principalmente, aquela voltada para os aspectos..., para a questão da educação; nós começamos a trazer alguns filmes para nós, alguns filmes que pudessem...; foi até nesse momento que a gente começou fazer uma pequena agenda que nós decidíamos, eu continuei e a Azeviche continuou por algum tempo também, que todos os filmes, os filmes em cartaz na cidade ou que a temática, ela..., mesmo que fosse só pontuar, mas ela tratasse algo da questão étnico-racial, ou que tivesse algum ator negro; nós estávamos lá para assistir e para tentar estabelecer algo que fosse interessante para o aluno, para Rede; começamos a fazer uma pesquisa dessa forma. Então, você imagina como isso é enriquecedor; a bibliografia, principalmente, história, a questão da literatura também que decidimos ler algumas coisas e, aliás, fiz com o Josué Bastos [...]uma lista de alguns livros paradidáticos que fossem interessantes para Rede, eu e o Josué Bastos começamos a visitar todas editoras para pegar os livros, para que a gente tivesse os livros e a gente pudesse depois ver se lia aqueles livros. Então, era uma montanha de livro; eu li muito livro; [...] Então, a gente tinha que ler muitos livros para ver o que a gente podia indicar para Rede (ANIKE).