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Iniciando este tópico temos a entrevista realizada com o jovem Isaias, que chegou a pouco tempo da Áustria e nos falou que a sua experiência em outro país foi maravilhosa e aquele ano em passou fora foi o melhor ano de sua vida. Quando perguntamos sobre o sentimento que ele tinha de ir ao exterior, sendo um morador do Coque, uma dos bairros mais violentos do Recife, ele respondeu que, nunca havia imaginado que isso poderia acontecer com ele, que nuca imaginou que chegaria ao nível em que chegou à orquestra nesses cinco anos de estudo, pois, os professores que ele teve na Áustria diziam que “nenhuma pessoa poderia estar tocando do jeito que a orquestra fez com que os meninos tocassem”.

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Fonte: Da autora

Figura 19. Momento da entrevista com o jovem Isaias

Algo que o deixou muito triste enquanto estava na Áustria foi não poder estar presente nas festividades de formatura de seus amigos, pois conforme dito pelo mesmo “(...) era o meu sonho me forma com os meninos, porém, eu mandei muita energia positiva, falei para os meninos que continuassem a tocar bem, pois estavam realizando um sonho do Maestro”. Ele também destacou que ele precisa estudar muito para alcançar o seu objetivo e que o brasileiro na Europa é muito discriminado. Ele mesmo sofreu com o racismo e a discriminação por ser negro e pobre, quando ele chegou lá, mas que ele conseguiu mostrar seu valor e seu talento.

Quando questionado se ele havia honrado o Brasil e a sua comunidade, ele respondeu que sim, que vivia ligando para seu professor para vencer as dificuldades encontradas, que muitas vezes ele recebia aulas de graça e outras a família que lhe adotou pagava pelas aulas, pois, ele acrescenta: “eu não fui para brincar, fui crescer profissionalmente e é isso que eu quero: morrer junto a essa viola”.

Percebemos também que houve uma grande mudança na vida desse jovem talentoso, que já se considera uma pessoa realizada, mas que tem muito para realizar. Ele confidencia que onde ele morava, ele foi o único que não deu para o caminho errado, que ao visitar a sua avó, no coque, encontrou-se com seus antigos amigos, os quais hoje estão na vida errada, e que não foi reconhecido por eles, que falaram: “Quem és tu?” e ele respondeu: “rapaz sou eu, nós crescemos juntos!”. Atualmente, esse jovem cidadão busca ajudar esses amigos, aconselhando-os a sair dessa vida, e com o exemplo e junto com os outros que fazem a orquestra já estão ajudando a mudar o bairro do Coque. Conforme pode ser visto no seguinte depoimento desembargador Nildo Nery dos Santos em reportagem intitulada “Orquestra Criança Cidadã é exemplo de inclusão social”:

O projeto não pode forçar as crianças a saírem da rua, mas faz o possível para mudar essa realidade. Graças a ações como a Orquestra, é notável uma diminuição da criminalidade no Coque – houve uma redução maior que 12%

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nos últimos anos. “Para ser feliz e se encontrar com Deus é preciso ser solidário, se encontrar com o próximo. É preciso que todos tenham responsabilidade social”, justifica o desembargador (MELO, 2010).

E quanto aos planos futuros de Isaias, é terminar o ensino médio e voltar para Áustria, pois os professores de lá querem que ele volte e comece a fazer faculdade, e em seguida mestrado e doutorado em viola.

Outro aluno entrevistado foi o João Pedro, que ao ser questionado como se sentia fazendo parte da Orquestra e assim respondeu: “Tudo começou quando o Maestro Cuccy de Almeida visitou minha escola e fez o convite para fazer a seleção e participar do projeto. Eu fiz o teste e passei. Estou aqui a quatro anos, estou muito feliz, gosto do que faço e tenho orgulho de fazer parte da Orquestra”. Nessa entrevista, ficamos sabendo que o menino João Pedro, também recebeu um convite para ir estudar na França. Então perguntamos: “Como surgiu o convite para ir estudar na França?”, e ele nos respondeu que estava tocando em Olinda e o maestro francês viu e fez o convite ao coordenado geral o juiz João Targino, ele fala: “Eu aceitei, pois tenho 15 anos e preciso da autorização de minha mãe. Já estou estudando francês e aminha ida está marcada para o ano de 2013,mas ficarei vindo de três em três meses para visitar minha família, que é minha mãe e minha avó”.

Fizemos ainda entrevistas com outras crianças da Orquestra, onde perguntamos como elas se sentiam em participar da orquestra e quais mudanças elas perceberam em seu comportamento após entrarem na orquestra, cujas respostas poderão ser encontradas no quadro 5, que segue.

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Quadro 5. Quadro comparativo dos dizeres das crianças

Entrevistado Como se sente participando da

orquestra Mudanças relatadas em seu comportamento

Aluna 1 Muito feliz, que o projeto vai ajuda-la a

ter um futuro Ser um bom cidadão Aluna 2 É uma honra, pois existem muitas

pessoas querendo entrar no projeto Mais facilidade para fazer as tarefas da escola e aprendeu a dividir. Aluna 3 Sente-se lisonjeada por participar da

orquestra

Sempre foi boa na aula e em casa Aluno 4 Sente-se grato e honrado, pois muitos

querem ter essa oportunidade e não tem. Ele sente-se um privilegiado.

Mudou em muitos aspectos, como paciência, obediência, disciplina, na escola, etc.

Aluno 5 Sente-se uma pessoa determinada, com objetivos e sonhos a serem realizados, que a orquestra a ensinou a ser assim.

Percebeu que a prática em conjunto é importante e que o ser humano depende do outro.

Aluna 6 Feliz, porque passou a ter muitas oportunidades

Paciência e responsabilidade.

Aluno 7 Sente um grande orgulho A vida mudou, ele concluiu os estudos e passou no vestibular de música da UFPE.

Aluna 8 Sente-se bem e vê um futuro pela frente Enxerga a vida de outra maneira e a orquestra não apenas mudou a sua vida mais a de seu irmão (que entrou na orquestra) e de sua mãe, que parou de beber, fez curso de enfermagem e também pensa em fazer faculdade*.

Fonte: Da autora

Nesta entrevista realizada com a Aluna 8, percebemos que ela e o irmão ao entrarem na orquestra, também se tornaram agentes de mudança em sua própria casa. Nele vemos também que tudo isso começou com a música trazida ao ambiente familiar pela aluna, e nesse ponto é oportuna destacar que o ambiente musical torna-se um fator importante na moldagem do comportamento musical, bem como se configura em um fator externo para o seu desenvolvimento (WELCH, 2001; ILARI, 2006).

Nos depoimentos expressos no quadro acima fica clara a mudança ocorrida na vida dessas crianças e jovens. Hoje, eles têm mais autoconfiança e esperança de uma vida melhor. Eles aprenderam a estudar, a respeitar o outro, a ter paciência e responsabilidade, a serem perseverantes, e sentem-se orgulhosos do que fazem e do que se transforam, e assim ajudam a transformar a realidade que os cerca.

Neste aspecto, nos voltamos ao “Mito da Caverna”, destacado por Platão (2001), em que o mesmo trazia a ideia do homem que consegue libertar-se dos grilhões da ignorância que os mantinham na escuridão de uma caverna, e sair, para nunca mais voltar, em busca do conhecimento. Naquela época, este pensamento configurava-se numa verdadeira paradigmática e ao vermos os depoimentos acima, percebemos nessas crianças o mesmo

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sentimento desse homem que ao se libertar da escuridão da caverna, tem sua vida totalmente transformada.

Diante disso, percebemos que o projeto da Orquestra Cidadã Meninos do Coque, veio quebrar os grilhões que acorrentavam essas crianças e jovens a uma vida sem perspectivas e sem futuro, e através de uma prática pedagógica inovadora, ensina-lhes a dar saltos e a seguirem frente, na busca dos sonhos que hoje lhes são possíveis.