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4.2 Panorama

4.2.2 Erfaringsbasert

Em seguimento da asseveração de ideais universais e de se autonomear de nação livre e aberta à adoção de indivíduos que já não encontram essa liberdade na sua pátria, poder-se-ia considerar que a sociedade norte-americana fosse recetiva ao mundo. Porém, a realidade prova o contrário: a maioria dos americanos vive muito fechada sobre si mesma. Alexis de Tocqueville, n’A Democracia na América: Leis e

Costumes (1835), tentou perceber esta atitude social, concluindo que tal deve-se ao

êxito das suas instituições, comprovando que ‘veem que no país deles, as instituições democráticas têm até agora prosperado, enquanto que no resto do mundo fracassam; têm-se pois em altíssima consideração e não estão muito longe de crerem que formam uma espécie à parte do género humano’ (Tocqueville, 2005: 250). A atitude mencionada face à sua autoavaliação enquanto sociedade magnânima, fora igualmente prevista por Max Weber, na sua Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1964):

Apontar as consequências sobre a mentalidade dos indivíduos da penetração do quotidiano pelas normas do Antigo Testamento (...) tem importância para o conjunto de hábitos interiores do puritanismo, o facto de pensar que faz parte do povo eleito de Deus (...). A gratidão pela própria perfeição obtida por graça de Deus penetrava o espírito da vida da burguesia puritana, condicionando o seu carácter austero de correcção formal próprio dessa época heróica do

sua amizade pessoal com figuras de grande importância na Europa ocidental e nos EUA (Cf. Idem: 217) foram pertinentes, que, agregadas, fizeram dele uma espécie de expressão incorporada do liberalismo mainstream.

capitalismo (Weber, 1983: 127).

A génese comportamental americana de cariz introvertido prevê-se, deste modo, proveniente dos ensinamentos religiosos, adicionando que, o êxito material dos últimos cinquenta anos também contribuiu provavelmente para isso. Atualmente, terem-se em elevada fasquia e não considerarem as demais civilizações é um fator vigente e de importante relevância na sociedade norte-americana. Compreenda-se que, os americanos proferem 'patriotismo' ao invés do ordinário 'nacionalismo' e caracterizam 'individualismo' àquilo que se entende por egoísmo. Tal surgiu em seguimento do ano de 1776, decisivo na história dos Estados Unidos. Veja-se o excerto de George Mason, na Virginia Declaration of Rights (Cf. Broadwater, 2006), adotada como preâmbulo da atual Constituição, a 12 de Junho do mencionado ano.

All men are by nature equally free and independent and have certain inherent rights, of which, when they enter into a state of society, they cannot, by any compact, deprive or divest their posperity; namely, the enjoyment of life and liberty, with the means of acquiring and possessing property, and pursuing and obtaining happiness and safety.

Thomas Jefferson utilizou e adaptou estes ideais para a sua Declaração da

Independência, que fora assumida três semanas depois.

Os Estados Unidos, proferiu Tocqueville, trata-se de um país onde os preceitos de Descartes foram parcamente estudados, mas em larga escala aplicados (Cf. Tocqueville, 2005). Dessa forma, na comum assunção americana, procura-se ‘to evade the bondage of system and habit, of family maxims, class opinions, and, in some degree, of national prejudices; to accept tradition only as means of information, and (…) to seek the reason of things for oneself, and in oneself alone’ (Tocqueville, 1961: II, 1-2). Em súmula, ‘each American appeals to the individual exercise of his own understanding alone’ (Idem). Atualmente, Norbert Elias (1978) aponta que ‘the primary function of the term 'individual' is to express the idea that every human being in the world should be an autonomous entity, and at the same time that each human

being is in certain respects different from all others’ (Elias, 1978: 156). Depreende-se que, a caracterização americana de cariz introvertido e individualista deu-se, não pela sua inegável singularidade, mas por se elevarem à hegemonia mundial. Porém, as vicissitudes passadas, decorrentes do período colonial, parecem corroborar esta atitude.

Ultimately the roots of the dichotomy lie in a particular way of experience oneself, a way which has been characteristic of wider and wider circles of European society since the Renaissance, and which was perhaps occasionally characteristic of a few intellectual elites in earlier times. It leads people to believe that their actual 'selves' somehow exist 'inside' them; and that an invisible barrier separates their 'inside' for everything 'outside' - the so-called 'outside world'. People who experience themselves in this way - as a kind of closed box, as homo clausus - find this immediately obvious. They cannot imagine that there are people who do not perceive themselves and the world in which they live in this way (Idem: 119).

O individualismo americano foi-se metamorfoseando em ceticismo e claramente nacionalismo. Após a Guerra Civil no século XIX, a doutrina do individualismo tornou-se mais evidente. Esta incorporava o pessimismo, díspar da fé iluminista na perfeição do homem natural; representava, em contrapartida, a visão da natureza humana, que é essencialmente imutável. A extenuação que circundava a alma individual na teologia calvinista10, nos primórdios da colonização britânica na América do Norte, poderá ser tida como um passo no desenvolvimento do individualismo. Porém, esses pioneiros, com as suas pequenas comunidades, eram bastante diferentes dos individualistas do fim do século XIX: estes relacionavam-se com o domínio do término do período vitoriano, da economia laisser-faire e do Darwinismo. Dita a história americana que, a experiência de isolamento dos agricultores na fronteira a Oeste das Treze Colónias, contribuiu bastante para o desenvolvimento do conceito individualista.

10

‘A relação do calvinista com o seu Deus processava-se num isolamento interior profundo, não obstante a necessidade, para a salvação espiritual, de pertencer à verdadeira igreja’ (Weber, 1983: 93).

Thus this man devoid of society learns more than ever to centre every idea within that of his own welfare. To him, all that appears good, just, equitable has necessary relation to himself and his family. He has been so long alone that he almost forgot the rest of the mankind, except it is [sic] when he carries his crops of the snow to some distant market (Crèvecoeur, 1981: 260).

St. John de Crèvecoeur relatou essa fronteira e, brevemente, delimitou os contornos do Velho Continente, simultaneamente em declínio e decadência; considerou que se perdera o brio e poderio – seria então um continente corrupto, esvaído e envelhecido. Na vanguarda da argumentação de Crèvecoueur encontra-se a certeza que na Europa já não prosperavam estados sociais sadios; em contrapartida, a América seria passível de contemplação de um novo começo; apresentava-se como o único local onde a história poderia ser escrita de forma diferente. Eles, os americanos, poderia afirmar seguramente que não se perderam como os europeus nas suas instituições e práticas.

What then is American, this new man? He is either an European, or the descendent of an European, hence that strange mixture of blood, which you will find in no other country. I could point out to you a family whose grandfather was an Englishman, whose wife was Dutch, whose son married a French woman, and whose present four sons have now four wives of diferente nations. He is an American, who leaving behind all his ancient prejudices and manners, receives new ones from the new mode of life he has embraced, the new government he obeys, and the new rank he holds. He becomes an American by being received in the broad lap of our great Alma Mater. Here individuals of all nations are melted into a new race of men, whose labours and prosperity will one day cause great changes in the world (Idem).

Sob o lema de apoiar e defender a Constituição e leis dos Estados Unidos, os recentes americanos assentaram a sua fidelidade a uma política nacional enraizada em conceitos de justiça, igualdade e direitos imutáveis individuais e governamentais para e pela sociedade. Com tal caraterística, foi estabelecida uma nação que excluíra um embasamento de elementos que constitui uma nação apartada, como a descendência, uma religião comum, um território historicamente delimitado, uma singularidade

cultural, ou uma distinta língua, legislatura e literatura.

This idea, expressed in the Constitution and the Bill of Rights, embodies what it means to be an American; it is the English tradition of liberty, which would develop in North America unhampered by feudalism or monarchy, encouraged by a favourable geography and abundant natural resources. All a person had to do to become an American was commit himself to universal ideas of liberty, equality and republicanism. ‘The English colonies in North America’, according to Kohn, ‘seemed predestined, by nature and by the philosophy of the age, to a great experiment (Luedtke, 1987: 10).

Certo é que, só na década de 1920, a maioria dos americanos passou a viver na cidade, mesmo que a definição de cidade inclua pequenas comunidades de alguns milhares de habitantes. Aliás, até meados do século XIX, os Estados Unidos mantinham-se essencialmente uma república agrária. Assim sendo, o mito associado à fronteira tornou-se decisivo na formulação do habitat americano, algo largamente tratado por Frederick Jackson Turner em The Significance of the Fronteir in American History (1921).

1.2. O Construtivismo e a conceção do Liberalismo no preâmbulo da