A análise que segue foi empreendida com base nas evidências dispostas no livro Morada paulista. Pretende-se, portanto, averiguar de que forma foi utilizado, neste livro, o material empírico conseguido mediante o intenso trabalho de pesquisa realizado na regional
paulista do IPHAN. Sobre a metódica prática de pesquisa desse órgão, está para ser publicado um artigo que trata mais especificamente do tema, com o conhecimento de causa de quem testemunhou e colaborou diretamente com esse labor investigativo.227
Morada paulista trata de temas, muitas vezes tomados como hipóteses de trabalho, que mereceriam maior desenvolvimento posteriormente. Assim, não se pode ajuizar de sua leitura uma falta de rigor metodológico no trato relativo às fontes, quando o que se almejou foi a produção de um tipo de texto historiográfico específico, cujo objetivo é fornecer elementos orientadores de uma ação institucional dirigida à preservação de bens materiais dotados de valores nacionais. O que tentarei mostrar a seguir é que não faltam aos textos aqui analisados os aspectos que fazem deles “historiográficos”. O que não é lícito, a meu ver, é tomar como parâmetro critérios adotados para a análise de textos predominantemente acadêmicos, produzidos em contextos específicos, e assim desconsiderar práticas, também historiográficas, voltadas para fins diversos.
É importante lembrar, portanto, que as afirmações que seguem não podem ser estendidas para toda sua obra. No posterior São Luís de Paraitinga, por exemplo, escrito em parceria com o historiador Jaelson Bitran Trindade,228 o arquiteto toma um extremo cuidado
com a explicitação das fontes utilizadas. A própria contratação de Trindade para o IPHAN demonstra a preocupação de Saia com a pesquisa histórica, uma vez que este historiador ficaria a cargo da realização de amplos levantamentos documentais, o que talvez configure atitude pioneira nos órgãos preservacionistas nacionais. Assim, tem-se um exemplo de um trabalho que se pretende um desenvolvimento rigoroso das diretrizes traçadas, já em formato historiográfico, nos artigos reunidos em Morada paulista.
Tratando especificamente, portanto, desse livro, dois aspectos relacionados às fontes saltam aos olhos quando de sua leitura: a diversidade do material utilizado e a pouca atenção dada ao seu tratamento. Este último aspecto se deve principalmente à escassez de referências e citações e diz respeito às fontes não arquitetônicas, essas sim, muito bem trabalhadas.
Com relação ao primeiro aspecto elencado, ou seja, a diversidade das fontes, fica claro que ele se deve ao objeto enfocado. Quando Saia defende, já em sua “Nota prévia”, a existência no Estado de São Paulo de “um excelente e vasto documentário sobre suas residências tradicionais”,229 ele o faz com o apoio na tese de que sua “validade documentária”
227 TRINDADE, Op. cit.
228 SAIA, Luís; TRINDADE, Jaelson Bitran. São Luís do Paraitinga: Levantamento métrico arquitetônico e
fotográfico, e estudos da formação de uma cidade tradicional paulista. São Paulo: CONDEPHAAT, 1977.
e o “nível artístico” por elas atingido se deve às “especialíssimas condições de formação regional”. Relacionando assim a arquitetura à formação regional, Saia se viu obrigado a comprovar a existência e a mutação de processos que denomina ora “ciclos” ora “períodos”, fundamentais para a compreensão de aspectos arquitetônicos não explicáveis por uma perspectiva meramente plástica ou construtiva. Assim, além da análise minuciosa dos “restos” arquitetônicos, Saia lançará mão de uma vasta gama de fontes alternativas relacionadas à economia, à cultura, à demografia e, como foi visto, à geologia e ciências afins. E o mais interessante: cada período analisado (bem como a substituição de um por outro) demandará um tipo de fonte específico.
Uma objeção que já foi feita a Luís Saia se prende ao fato de que, em sua análise sobre a arquitetura bandeirista, o autor teria baseado sua interpretação em apenas doze exemplares arquitetônicos.230 Embora o teor da crítica não seja falso, devemos notar que Saia demonstra
grande preocupação em explicitar e justificar essa limitação.
Em primeiro lugar, o estudo da arquitetura popular, mais interessante para o estudo das “preferências coletivas”, apresentava algumas limitações. Saia afirma que “é no estudo da atual arquitetura popular que se deve procurar, ao que parece, o manancial mais rico de informações para a análise da sua evolução, especialmente quando for possível a manipulação simultânea do documento bibliográfico correspondente”.231 Demonstrando sua formação
folclorista, o arquiteto valoriza primordialmente a produção cultural popular, na esteira de Mário de Andrade, no intuito de compreender as feições de um povo. Nesse sentido, como admite, foi pensado o estudo sobre a Aldeia de Carapicuíba, trabalho ao qual já me referi na seção que abre este capítulo. No entanto, juntamente com as habitações do primeiro século da colonização em geral, são escassos os vestígios das habitações populares, e para estudá-las deve-se então recorrer a fontes alternativas (dentre as quais aponta, como possibilidade, a própria arquitetura popular contemporânea, ou “atual”). Não poderíamos esperar de Saia, por exemplo, que lançasse mão de prospecções arqueológicas para a clarificação de aspectos específicos e gerais das habitações populares, visto que só muito recentemente o campo da arqueologia histórica se tem preocupado com esta área de estudos.232 Desta forma, o arquiteto 230
Refiro-me às críticas apresentadas em LEMOS. Casa paulista. Op. cit. Tratarei melhor desta polêmica no capítulo reservado a esse autor.
231
SAIA, Morada paulista, op. cit., 19.
232
A este respeito, cf. ZARANKIN, Andrés. Arqueología de la arquitectura: another brick in the wall. Revista
do Museu Paulista de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, Suplemento 3, 1999, p. 124. Conheço também um
estudo histórico sobre habitação popular baseada em inventários (FARIA, Sheila Siqueira de Castro. Fontes textuais e vida material: observações preliminares sobre casas de moradia nos Campos dos Goitacases, sécs. XVIII e XIX. In Anais do Museu Paulista, Nova Série, Nº 1, p.107-129, 1993) e outro, com um conjunto
destaca que “para o estudo da habitação popular, guardadas as devidas reservas, impostas pela ausência de ‘restos’, se encontra um documentário razoável na bibliografia, na iconografia e, especialmente, no estudo da arquitetura popular da atualidade”.233 No entanto, faltaria
sistematização à grande quantidade de material bibliográfico disperso, e a iconografia, além de parca, seria pouco confiável, como demonstra em uma análise que faz dos desenhos de Thomas Ender, realizados em 1817, que, confrontados, por exemplo, com os trabalhos de restauração na Igreja de São Miguel Paulista, demonstrariam sua irrealidade.
Luís Saia não se arriscou, no entanto, a estudos nos quais não pudesse lançar mão da análise de fatos arquitetônicos concretos. Isso denota ao menos uma preocupação do autor: a importância que confere à relação com a experiência no presente para a validação de suas hipóteses, ainda que se afirme por alguns autores que esta concretude material tenha sido muitas vezes manipulada pelo próprio arquiteto.234 Este aspecto pode ser ainda notado em seu
Morada paulista pelo grande número de fotos, ilustrações e mapas que nele comparecem. A visualidade que demanda a narrativa tecida pelo arquiteto, pelo fato de se apoiar num tipo de fonte que deve ser sobretudo visto, conta necessariamente com uma série de figuras a validar seus argumentos.
Quanto ao fato de trabalhar fundamentalmente com residências pertencentes às classes dirigentes, Saia se justifica da seguinte forma:
Não importa que o ponto de partida para uma análise abarque a totalidade do fenômeno regional, se restrinja ao estudo de uma capela, prefira o exame de um estabelecimento rural, especule o significado de uma residência ou se detenha a dissecar a expressão de um elemento decorativo; o essencial é que exprima um pensamento crítico filosoficamente lastreado em segura linha de pesquisa e solidamente fundamentado em fenômenos legítimos da formação social, econômica e política; que seja profissionalmente correto e operante, tecnicamente disciplinado
pela experiência e pelo longo trato do material manipulado; que seja historicamente extraído da documentação mais qualificada; que seja
pedagogicamente veraz na sua fundamentação e nos seus exemplos, artisticamente sincero na estimativa da justa medida em que devem ser entendidos os valores do patrimônio tradicional e, especialmente, que seja dignificado pela preocupação de encontrar as soluções para os problemas equacionados pela comunidade.235
mais diversificado de fontes (MARINS, Paulo César Garcez. Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras. In: NOVAIS, Fernando A. Novais [org. geral da coleção]; SEVCENKO, N. [org. do volume]. História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998). No entanto, ainda assim se tratam de metodologias só recentemente empregadas na área.
233
SAIA. Morada paulista, op. cit., p. 17.
234 É o que se pode depreender das conclusões dos trabalhos críticos já mencionados no início desta seção
(LEMOS, op. cit.; LEMOS; MORI; ALAMBERT, op. cit.; ANDRADE, O nariz torcido... op. cit., e GONÇALVES, Restauração arquitetônica, op. cit.).
Nessa passagem, percebe-se que Saia se preocupa em selecionar suas fontes em função dos valores que norteiam sua ação junto ao SPHAN e com base em pressupostos teóricos que considera seguros, ou seja, num “pensamento crítico filosoficamente lastreado”. Isso lhe permite, então, advogar em favor dos relativamente escassos vestígios materiais que se lhe encontram disponíveis para a tarefa de conferir, narrativamente, sentido à ação do órgão preservacionista em São Paulo.
Luís Saia não descarta, como bom engenheiro-arquiteto, uma análise minuciosa dos “restos arquitetônicos”. Para cada solução técnica procura ressaltar sua relação com o que se costumava fazer nas construções situadas anteriormente na linha evolutiva da qual fazem parte, demonstrando um grande conhecimento de causa. Saia garante a validade de suas hipóteses amparado na autoridade de quem há anos trabalhava cotidianamente com a preservação e restauração de edifícios antigos. Certamente por isso o capítulo “Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século” se inicia com os seguintes dizeres:
Desde o início das atividades no Estado de São Paulo tem o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional encontrado, entre as peças recenseadas no planalto, um tipo de residência rural que várias razões induzem a considerar como solução arquitetônica típica para os fazendeiros mais abastados do século XVII, naquela região. De fato, a experiência de vários anos de pesquisas, além de acusar para os
exemplares desse tipo de construção uma identidade de época, técnica e funcionamento, não ofereceu base para qualquer argumento razoável, contrário a esta hipótese.236
Saia demonstra também uma grande erudição historiográfica. No entanto, não tem a mesma preocupação em tratar e explicitar suas fontes neste campo, embora cite vez ou outra historiadores, viajantes, biógrafos etc. O conhecimento histórico entra como uma espécie de dado “objetivo”, cuja função seria fornecer as informações necessárias para a compreensão dos processos determinantes da arquitetura. Não há assim, ao que tudo indica, um critério de seleção do que seria válido ou não como conhecimento histórico, dando a impressão de que Saia ia pinçando aleatoriamente o que conhecia e o que subjetivamente considerava aceitável para a sustentação de suas hipóteses. Ora a autoridade dos autores fortalece seus argumentos, ora estes dados são apropriados sem menção alguma à fonte.
Deste modo, de fato, Morada paulista se aproxima mais do gênero “ensaio histórico” que de uma “historiografia acadêmica”, muito embora possa, a meu ver, ser ainda considerado uma “obra historiográfica”. A forma como trabalha com as fontes permite, razoavelmente,
uma “referência à experiência”, mobilizando, assim, fontes “objetivas” a fim de conferir sentido a uma experiência do tempo relacionada à arquitetura tradicional paulista.