Tanto a verdade (realidade) quanto o dever (moralidade) têm sua origem em si mesmos e não dependem em nada do estado estético. O que a beleza pode fazer nada mais é do que apresentar a faculdade da liberdade a esses dois impulsos fundamentais. Se sem o estético eles lutam entre si, de posse da faculdade da liberdade, eles se harmonizam e o entendimento consegue apresentar sua verdade pelo caminho do sensível. A beleza, ela mesma, é certo que
61
“não fornece resultado nem para o entendimento nem para a vontade, que ela não se intromete em nenhum empreendimento do pensar nem do decidir, que ela apenas concede a ambos a faculdade, mas nada determina acerca do uso efetivo dessa faculdade” (SCHILLER, 2011b, p.109). Desse modo, é a beleza o caminho para a verdade, no sentido de que o homem sensível é carente de liberdade e espontaneidade, pois ele é determinado e, portanto, no estado estético, uma vez recebida a ideia de liberdade, o homem sensível inaugura uma condição outra e é capaz de produzir, por ele mesmo, a verdade, sem depender de determinação exterior.
Existem dois passos importantes do homem na direção da moralidade: o primeiro concerne ao processo de passagem do homem físico ao homem estético. Essa passagem é mais complexa e Schiller envida grande parte de seu trabalho na carta XXIII nessa tarefa, uma vez que ela é necessária, afinal, apenas pelo estético o homem pode chegar ao moral. Podemos ter nesse processo a noção de progresso sem quaisquer confusões de termo. Ora, segundo Schiller o homem físico tem seu primeiro impulso, o sensível, já determinado pela própria natureza, o que significa que a sensibilidade é, nesse sentido de progressão, o primeiro impulso que permite ao homem perceber o mundo, ainda que de maneira finita e determinada. Ele não pode passar deste estado diretamente ao moral porque sua natureza física o domina no reino da matéria. Ele não pode nem mesmo passar ao estético sem antes suprimir toda sua determinação através do seu segundo impulso que é o formal. Mesmo o impulso formal, sua razão, ainda é determinada pelos valores e dignidades advindos de sua própria cultura. Desse modo, nem o homem físico que desconsidera seu entendimento, nem o homem racional que desconsidera sua materialidade podem conhecer, por eles mesmos, o terceiro impulso que é o estético. Tanto a potência material quanto a potência formal já estão na mente humana, muito embora elas falem isoladamente na medida em que suprimem seu oposto. O estado estético exige o equilíbrio, e o faz por uma supressão, ou superação do estado material pelo formal. Neste ato, o formal supera o material, mas sem extingui-lo, ou seja, a atividade do formal gera uma força negativa no material e é justamente esse negativo que afirma a natureza material e inseparável da condição do homem. Assim, o estético dá ao formal sua atividade, mas também dá atividade ao material, simultaneamente. Em verdade, formal e material são, ao mesmo tempo, ativos e passivos. Essa permanente oposição é exigida pelo estético que não aceita, de nenhuma maneira, qualquer determinação. Esse é o caráter preponderante do estético, pois, enquanto o material é determinado, finito e depende da realidade exterior para obter toda sua impressão do mundo, do
62
mesmo modo o racional também é determinado pelo limite do entendimento. O estético não opera na determinação, mas na determinabilidade, ou seja, no não limite, na possibilidade infinita.
Já o segundo passo, que leva o homem desse estado estético para o moral, significa uma liberdade prática, trazida do ideal para a realidade. Esta passagem do estético ao moral é menos complexa que a passagem anterior porque, agora, no estado estético, o homem é inteiramente livre, e agir moralmente não depende mais do que de sua vontade. Se ele o quiser, ele o fará. Nesse estado ele não é mais impelido por uma força exterior como o impulso natural faz com sua sensibilidade, mas, diferentemente, ele é absoluto e pode determinar sua própria vontade. “É das tarefas mais importantes da cultura, pois, submeter o homem à forma ainda em sua vida meramente física e torná-la estético até onde possa alcançar o reino da beleza, pois o estado moral pode nascer apenas do estético, e nunca do físico”. (SCHILLER, 2011b, p.110).
Mas qual é a condição tão vantajosa do estético para a humanidade? A resposta é a própria humanidade. Ou seja, a tarefa do estético realizada pela fruição de uma obra de arte é trazer à luz o ideal de beleza, a possibilidade de uma passagem ao estado moral e ao estado de conhecimento. Por isso podemos chamar a estética de Schiller também de uma antropologia, na medida em que não há uma predominância do estado moral ou do estado racional puro, mas, pelo estético, pela experiência sensível do belo, o conhecimento do homem pode por ele mesmo ser despertado. O estético aqui, portanto, é meio para a possibilidade de se ascender ao conhecimento e ao exercício da razão. A beleza, como já dissemos, a pura beleza, não se realiza como tal no mundo material e, enquanto ideal, não tem nenhuma responsabilidade de favorecer uma ou outra escolha moral do homem enquanto indivíduo. O que ela faz é apresentar a ele a liberdade. E o homem, nesta condição, deve superar sua condição de pessoa individual e alcançar a noção de humanidade. Sua liberdade não encontra valor na escolha que ele faz para si enquanto indivíduo, mas no valor que ela, a liberdade, encontra por meio de sua ação na espécie, ou seja, na ideia de humanidade. O estético, portanto, trata também de uma questão de elevação de um juízo meramente material e individual a um juízo formal e universal.
Assim, o problema moral concerne, para Schiller, também à experiência estética. E será justamente na experiência do sublime, na qual somos chamados à moralidade, haja vista o fracasso de nossa força física, que Schiller edificará sua estética e sua intrínseca relação com a ética e a moralidade.
63
Passemos, portanto, a um exame do sublime para compreendermos como se manifesta neste sentimento a força moral. Mais adiante, após nosso estudo sobre o sublime, buscaremos uma mesma relação da ideia de moralidade, desta vez sendo manifesta por meio da arte trágica.
64 CAPÍTULO SEGUNDO – DO SUBLIME AO TRÁGICO
O prazer é uma sensação na qual eu desejo permanecer; desprazer uma tal que eu desejo afastar.
Friedrich Schiller