• No results found

Innledning - Om gap mellom ulike personidentiteter

8. Er dette livet?

Inserida na região metropolitana de São Paulo, a bacia do córrego Água Preta esta em zona de transição entre o clima tropical úmido de altitude e o subtropical permanentemente úmido. Conforme explicam Tarifa e Armani (2001a), as principais características dessa zona de transição climática são a “alternância das estações (quente- úmida e outra fria e relativamente mais seca) ao lado de variações bruscas do ritmo e da sucessão dos tipos de tempo” (p. 35).

As cabeceiras do Água Preta estão nos contrafortes do Caaguaçu, o espigão central, em altura média de 800 metros. O córrego desemboca no rio Tietê, à cota 721 m, após percorrer 4,82 km. Em seu último quilômetro e meio percorre solos formados por depósito de argila, areia e materiais orgânicos dos meandros do rio Tietê.

Figura 10 Alto curso do córrego Água Preta: nas imediações da Praça Homero Silva, as nascentes de seus muitos afluentes. Fonte: adaptado do levantamento Sara Brasil, 1930.

O córrego possui várias nascentes. A mais conhecida delas é a da Praça Homero Silva, na esquina da avenida Pompéia com a rua André Casado. Como pode se observar

acima, no “Mappa Topographico do Município de São Paulo” executado pela empresa Sara Brasil, de 1930, seu traçado é semelhante ao da av. Pompéia.

Figura 11 Nascente da praça Homero Silva. Em 2013, ela foi alterada por frequentadores da praça a fim de formar um lago. Fotos do autor, julho de 2013.

Próximo dali, um braço do córrego se forma nos morros da rua Paris, entre as ruas Havaí e Dr. Paulo Vieira. Este curso d’água se encontra com outro, vindo do topo da avenida Pompéia. Canalizados juntos, deram origem a uma viela esguia e sempre úmida, no quarteirão compreendido pela avenida Pompéia e ruas André Casado, Havaí e Saramenha.

Figura 12 Viela sem nome no quarteirão formado pela avenida Pompéia e as ruas André Casado, Havaí e Saramenha. Fotos do autor, julho de 2013.

Unificados, esses dois corpos d’água se encontram com aquele que é considerado o canal principal do córrego Água Preta, nascido nas encostas da rua Aimberê e serpenteando entre as ruas Francisco Bayardo e Capital Federal. Desta região, conhecida como “baixada da Pompéia”, já um tanto encorpado e em trajeto que coincide com o da

rua Mutuparana, o córrego Água Preta avança 250 metros e recebe as águas que descem das encostas do Jardim Vera Cruz.

Figura 13 À esquerda, "Baixada da Pompéia" e entrada para a rua Gonzaga Duque. No centro, inundação na r. Gonzada Duque. À direita, travessa João Mathias após episódio de inundação em 2013. Fonte: fotos do autor, exceto imagem do centro (retirada de vídeo no youtube).

Este tributário do Água Preta possui dois braços. Em torno do mais modesto surgiu um dos núcleos da Vila Anglo Brasileira: a quadra delimitada pelas ruas Estevão Barbosa, Bica de Pedra, Bicudo Cortez e Mundo Novo. É de se imaginar porque, com outras áreas disponíveis nas imediações, tantas moradias instalaram-se às margens deste pequeno curso d’água. A canalização do braço mais volumoso, vindo das imediações da av. Heitor Penteado, deu origem à travessa João Mathias.

Figura 14 Vila contígua à travessa João Mathias. À direita, a vila durante enchente. Fonte: Neusa e

Marcelo Graciano.

Após este encontro, que tem como marco geográfico atual a “pracinha” do ponto de ônibus recém-desativado da rua Pedro Lopes, o Água Preta segue mais caudaloso em direção à praça Rio dos Campos, que no levantamento Sara Brasil comparece como reservatório de água.

Figura 15 Ponto de ônibus da rua Pedro Lopes. No centro, praça Rio dos Campos. À direita, sujeira depositada na praça por inundação de 2012. Fotos do autor.

Dali o córrego segue beirando o viário da pequenina rua Mário Cardoso por 50 metros para então seguir intraquadra no vasto quarteirão delimitado pelas ruas Daniel Cardoso, Cajaíba e Miranda de Azevedo. Sua trajetória é o da travessa Roque Adóglio.

Figura 16 Perua escolar virada pela enchente de 2011. O córrego Água Preta reconquista seu percurso na rua Mário Cardoso. À direita, travessa Roque Adóglio. Fontes: da esquerda para a direita:

Sérgio de Oliveira Cabral, Poliana Mara Mendes e autor.

Transposto este trecho, o Água Preta recebe o tributário que drena as encostas do bairro Siciliano. Sua canalização deu origem à viela Estevão Garcia.

Hoje toda essa região de encontro de corpos d’água, que vai da avenida Pompéia até a viela Estevão Garcia, sofre com enchentes de verão. Os veículos de informação, no entanto, noticiam apenas os eventos à jusante, nas imediações do Sesc Fábrica Pompéia.

Figura 17 Invisível à mídia, a travessa Roque Adóglio e a viela Estevão Garcia sofrem com as enchentes de verão. Fotos do autor, fevereiro de 2013.

Após tantos encontros fluviais, o córrego Água Preta serpenteia à sombra dos terrenos elevados da Vila Romana e Vila Pompéia, em traçado que coincide com o das ruas Dr. Francisco Figueiredo Barreto e José Tavares de Miranda e de uma viela entre as ruas Venâncio Aires, Raul Pompéia e Barão do Bananal.

Figura 18 Depois de receber seus afluentes, o Água Preta segue pelo vale entre os terrenos elevados e desocupados da Vila Romana e a Vila Pompéia. Fonte: Levantamento Sara Brasil, 1930.

Figura 19 Água Preta flui sob a r. Dr. Francisco Figueiredo Barreto, avança intraquadra na r. Desembargador do Vale e passa nas imediações da praça Daniel B. Villasol. Fotos do autor, 2013.

Figura 20 O córrego também definiu o traçado da rua José Tavares de Miranda e foi novamente confinado intraquadra após a praça Ilza Hutzler. Ao seu modo, uma placa no Centro Universitário São Camilo lembra que estamos em área de várzea. Fotos do autor, 2013.

Figura 21 Viela no quarteirão da r. Barão do Bananal com r. Venâncio Aires. Água Preta faz entrada humilde no Sesc Pompéia e desparece sob enorme deque de madeira. Fotos do autor, 2013.

Há coisa de um século, o Água Preta fluia por mais duas centenas de metros para se encontrar com o córrego da Água Branca (ou Sumaré)20, vindo em traçado que

coincidia com o da rua Turiassu, conforme pode se verificar na "Planta da Cidade de S. Paulo”, de 1913. Trata-se da região das midiáticas enchentes do Sesc Pompéia (mais recentemente rebatizadas de “enchentes do Bourbon” Shopping São Paulo).

Figura 22 Na "Planta da Cidade de S. Paulo – Levantada e organizada pelo Eng. Civil Alexandre M. Cucuci e L. Frutuoso F. Costa", de 1913, é possível ver que os córregos da Água Preta e da Água Branca se encontravam.

20 Não confundir este córrego, que fica à direita do córrego Água Preta, com o homônimo e bem menor

Figura 23 À direita, este ponto inundado cem anos depois.

Fonte: <http://www.vereadorjoseamerico.com/wp-content/uploads/enchente-e-bourbon-shopping.jpg>.

No levantamento Sara Brasil de 1930, o córrego Água Preta já havia sido canalizado e enterrado em trecho que ia desde a rua Turiassu até a malha ferroviária. E a ligação entre Água Branca e Água Preta interrompida com a criação de canal subterrâneo que conduzia o Sumaré sob a rua Antartica.

Figura 24 Após a malha ferroviária, o córrego Água Preta se encaminhava para o Tietê por várzea desocupada. Fonte: Levantamento Sara Brasil, 1930.

O Água Preta ressurgia após os trilhos, passava por um emissário de esgotos e por meandros abandonados do rio Tietê.

Hoje, este fluxo se dá por tubulações embaixo do viaduto Pompéia e da avenida. Nicolas Boer, finalizando sua jornada em foz de concreto, bem ao lado da ponte Júlio de Mesquita Neto.

Por breves segundos o encontro do córrego do Água Preta com o rio Tietê faz parte da paisagem urbana dos motoristas que trafegam pela Marginal do Tietê, no sentido rodovia dos Bandeirantes.