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Chapter 5:   Originalism and Rationality

5.2 Equivocal Concepts and Rationality

Para discutir a relação com as línguas estrangeiras antes e no Curso de Letras enunciada pelos participantes, selecionei as seguintes sequências discursivas, em resposta às questões 06, 07, 09, 11 e 14 do questionário AREDA. Passemos às sequências:

(SD14) Ana: “Meu primeiro contato com uma língua estrangeira foi na quinta série, quando eu

comecei a ter aulas de Inglês. Esse contato foi bem um choque, porque era uma coisa que quando eu escutava falar de Inglês, eu achava que era só um monte de palavras...de letras juntas e tinha qualquer sentido e eu traduzo de qualquer jeito e podia ter um monte de consoante junto que não tinha problema porque era Inglês.”

(SD15) Ana: “Na universidade, meu processo de aprendizagem das quatro habilitações...foram...eu

achei bem tranquilos, assim, o Inglês no primeiro e no segundo semestre foi bem tranquilo, porque eu já tinha um certo conhecimento, então, pra mim, não teve muita novidade a não ser o assuntos tratados nas aulas, mas em relação a parte da gramática foi bem tranquilo. O Espanhol...eu não tive dificuldades, porém eu tive que me esforçar mais pra estudar o Espanhol do que pra estudar o Inglês.”

(SD16) Carla: “Sim eu estudei Inglês antes de entrar na faculdade, mas não tive muito êxito não. (SD17) Elisa: “A minha relação com o Francês é traumática. Eu não conhecia muito de Francês, e

quando eu fui estudar Francês mesmo foi na universidade e eu descobri que eu não me identifico nada com a língua, que eu tenho muita dificuldade para aprendê-la. E eu gerei uma espécie de trauma com isso.”

(SD18) Carla: “Sim, eu estudei Inglês antes de entrar na faculdade, mas não tive muito êxito não. Eu

sempre estudei, tenho dificuldade com o Inglês, sempre achei muito importante aprender essa língua estrangeira, só que os cursos aos quais eu participei sempre foram muito fracos, se posso dizer assim (...) então, fora da universidade, pra mim, essas experiências com a língua inglesa foi bastante frustrante.

(SD19) Carla: “Foi uma relação muito boa...muito boa. Eu sempre gostei de língua estrangeira, mas

nunca tinha tido contato mesmo com o Espanhol e o Francês, mas sempre tive muita dificuldade no Inglês, mas percebi que eu tinha facilidade com o Francês, com o Espanhol, então acabou que o Inglês foi assim, onde eu continuei com um pouco mais de dificuldade, mas eu acabei superando elas e foi uma relação muito boa mesmo, com as três línguas.”

(SD20) Giovana: “Eu me assustei bastante com o Inglês, mas foi assim, tinha horas que eu não

entendia nada, a professora tava falando e eu busquei orientação dela e ela foi muito prestativa, me ajudou bastante (...) e eu consegui entender que essa metodologia, esse método que ela usou de só falar o idioma na sala de aula é...me fez...é buscar, me questionar, e correr atrás de...de...de me fazer entender porque de uma certa forma eu me senti excluída, porque uma boa parte da turma conhecia, a conseguia....conseguia entender, conseguia acompanhar o Inglês, mas eu ficava um pouco perdida. Eu acho é....estudar os três idiomas precisa de muita dedicação, eu acho que pra mim que trabalho é complicado estudar os três idiomas, porque você não tem muito tempo pra estudar os três idiomas.”

(SD21) Giovana: “Porque hoje tudo que a gente encontra é no idioma Inglês, então a gente fica, eu

me sinto assim, meio isolada por não saber, por não dominar o Inglês.”

(SD22) Guilherme: “Eu acho que a formação inicial do Francês e do Espanhol é...elas são, atendem

bem o...que o pessoal precisa, que é uma formação bem desde o começo mesmo, pra gente que nunca viu né. O Inglês também eu acho que...que as formas poderiam ser alternadas, os fundamentos

linguísticos antes da aprendizagem é...reflexiva, porque muita gente entra também no Curso de Letras sem saber, sem saber Inglês. E eles tratam como se fosse uma obrigação entrar sabendo Inglês, no primeiro período já ter aulas em Inglês, eu acho que não é bem assim, tem gente que tá interessado em fazer Espanhol e não quer aprender Inglês, não tem a necessidade de saber falar fluentemente, então eu acho que, no Inglês ele peca, o Curso de Letras peca em relação a isso, porque muita gente tem dificuldade no Inglês.”

A partir das sequências discursivas selecionadas, estabeleci, para falar da relação dos enunciadores com as línguas estrangeiras ofertadas no Curso de Letras, o terceiro axioma discursivo:

AXIOMA 3: O conhecimento prévio das línguas estrangeiras ofertadas no Curso de Letras promove maior aprendizagem aos professores em formação.

Por acreditar que os encontros com as línguas estrangeiras ocorrem de maneira diferente para cada sujeito, concordo com Revuz (1998, p. 217) quando a autora afirma que “é justamente porque a língua não é em princípio, e nunca, só um “instrumento”, que o encontro com uma outra língua é tão problemático, e que ela suscita reações tão vivas, diversificadas e enigmáticas”. Nesse sentido, ao enunciar sobre a relação com as línguas estrangeiras antes do Curso de Letras, Ana (SD14) afirma que esse encontro foi um choque - “porque era uma coisa que quando eu escutava falar de Inglês, eu achava que era só um monte de palavras...de letras juntas e tinha qualquer sentido” - por não conseguir criar sentidos com essa língua, criando apenas um “monte de palavras...de letras juntas”. No contato inicial, a língua estrangeira significava para Ana um amontoado de palavras em que a enunciadora não era capaz de ressignifica-las. Entretanto, superado o choque inicial com a língua e a dificuldade nas relações da linguagem, ao relatar o contato com as línguas estrangeiras no Curso de Letras, Ana afirma que seu contato com o Inglês foi bem tranquilo “porque eu já tinha um certo conhecimento”, revelando em seus dizeres a facilidade com a língua e apagando possíveis tensões nesse (re)encontro por já ter um conhecimento anterior ao Curso de Letras. Além disso, a estudante descreve que esse contato não teve muitas novidades, a não ser os temas tratados em sala de aula.

Em consonância com Ana, Carla (SD15) também relata o encontro com as línguas estrangeiras anterior ao Curso de Letras – “eu estudei Inglês antes de entrar na faculdade, mas não tive muito êxito não. Eu sempre estudei, tenho dificuldade com o Inglês” - como um encontro tenso, enunciando que suas “experiências com a língua inglesa foi bastante frustrante”. Porém, ao enunciar sobre a aprendizagem de línguas estrangeiras no Curso de

Letras, Carla também se inscreve no discurso da facilidade com a língua, facilidade essa possibilitada pelo contato anterior com as línguas estrangeiras, mesmo que tenha sido uma aprendizagem “frustrante” e sem êxito, a colocou, ideologicamente, em uma posição superior a de seus colegas que entraram no Curso de Letras sem contato anterior com as línguas estrangeiras.

Elisa (SD20), enuncia de uma posição de desidentificação com o Francês dentro do Curso de Letras. Diferente de Ana e Carla que enunciam de um processo de aprendizagem tranquilo, Elisa define sua relação com a língua francesa como traumatizante. A estudante enuncia que não se identifica “nada com a língua, eu tenho muita dificuldade para aprendê- la. E eu gerei uma espécie de trauma com isso”. A resistência de Elisa com a língua francesa gera uma desidentificação que não foi superada ao longo do curso, por ter sido na universidade que se deu o primeiro contato com a língua – “eu não conhecia muito de Francês, e quando eu fui estudar Francês mesmo foi na universidade”. Nesse sentido, o Curso de Letras, lugar onde Elisa teve contato com a língua estrangeira, configurou-se como um espaço de aprendizagem insuficiente para que a estudante se identificasse com a língua estrangeira.

Nesse sentido, em consonância com Elisa, os enunciados de Giovana (SD21 e SD22) e de Guilherme (SD23) apontam que a tensão no contato com a língua estrangeira foi estabelecida no Curso de Letras. Nos dizeres de Giovana, a enunciadora aponta que durante o Ciclo Básico “tinha horas que eu não entendia nada”, pois as aulas eram ministradas todas em língua estrangeira. Guilherme também ocupa esse lugar de tensão e, assim como Giovana, enunciam a partir da exclusão18 sentida por ele por não conseguir compreender os professores que ministraram suas aulas em língua estrangeira – (SD21) “de uma certa forma eu me senti excluída, porque uma boa parte da turma conhecia, (...) conseguia acompanhar o Inglês, mas eu ficava um pouco perdida”; (SD22) “E eles tratam como se fosse uma obrigação entrar sabendo Inglês, no primeiro período já ter aulas em Inglês, eu acho que não é bem assim”.

Esses dizeres revelam que o Curso de Letras, analisado tal como configura-se atualmente, não é o espaço em que os sujeitos irão aprender uma nova língua, mas é o lugar em que ter o conhecimento prévio da língua estrangeira é pré-requisito para o sucesso no Ciclo Básico do curso, assim como aponta os dizeres de Guilherme (SD22) “eles tratam como se fosse uma obrigação entrar sabendo Inglês”. Dessa forma, a relação com as línguas

18

Guilherme (2008, p. 147) entende os aspectos relacionados à exclusão como toda a manifestação em que o sujeito se coloca de lado, à margem, ameaçado, preterido, subtraído, privado, angustiado, amedrontado, constrangido, sufocado, omitido, expulso, afastado, desviado, eliminado, diferente, avaliado, abandonado, recusado, não-admitido, despojado, isento, incompatível, como uma exceção.

estrangeiras antes e no Curso de Letras dos enunciadores transita entre aqueles sujeitos que inscrevem-se no discurso da facilidade na aprendizagem de línguas por atenderem a esse pré- requisito, que aparece nas discursividades de alunos e professores do curso, e aqueles sujeitos que enunciam a partir da incapacidade e da frustração por tentar identificar e inscrever-se em uma língua estrangeira, ficando à margem do processo de ensino e aprendizagem.

Passo, a seguir, a discutir o papel do Ciclo Básico na formação dos professores pré- serviço.