Antes de explicar os movimentos dos átomos, Lucrécio ainda irá discorrer sobre os prazeres do corpo-carne220 e do espírito. Essa introdução será detalhada ao longo do DRN, mas, do ponto de vista de uma exposição introdutória da sua ética, é importante que esse tema seja tratado conforme a ordem da exposição do filósofo. Para tanto, vejamos inicialmente a passagem sobre os prazeres do corpo:
Pouco é necessário, naturalmente, pelo que diz respeito ao corpo: tudo o que suprime a dor pode dar-lhe ao mesmo tempo numerosas delícias. E, entretanto, a própria natureza não exige nada mais agradável: se não temos na casa estátuas douradas de jovens segurando na mão direita lâmpadas ardentes que dêem luz aos banquetes noturnos, se a casa não refulge com a prata nem rebrilha com o ouro, senão ressoam as cítaras pelas salas lacadas e douradas, não exigem os corpos grandes bens desde que estejam deitados sobre a branda relva, perto de um rio de água corrente, à sombra de uma alta árvore, sobretudo quando o tempo sorri e a estação do ano adorna de flores as ervas verdejantes. E as febres ardentes não se afastam mais depressa do corpo por se estar agitado sobre tapetes bordados e sobre a rubra púrpura do que por nos termos de deitar num pano plebeu (DRN, II, 20-36)221.
217 Diogenes, fr. 35. 218 Do grego άτράνωτοι. 219 Do grego τάµετέωρα. 220
Conforme já apreendemos, o todo é formado por um agregado (athroísma) de átomos e vazio. Para o epicurista, “corpo” (sóma) é uma noção que se aplica tanto aos elementos (os átomos), como aos corpos sensíveis, animados ou inanimados. A diferença básica entre os elementos dos “corpos sensíveis” (como os corpos dos seres vivos) e os “corpos apreendidos pelo pensamento” (como o corpo-alma) está na fina textura dos átomos que os compõe. Neste tópico, a ênfase é no corpo-carne, mais precisamente no corpo humano (sarkós). Por necessidade de simplificação, será utilizado o termo “corpo”, exceto quando indicado o contrário. A terminologia “corpo-carne” sera exaustivamente utilizada no próximo capítulo, mas não é nossa. Para uma exposição detalhada da compreensão epicúrea desse conceito, ver Silva (2003, p. 47-48).
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Essa abordagem introdutória do principal legado ético do epicurismo considera um cálculo dos prazeres222, em que podemos observar a divisão canônica entre duas categorias básicas: os prazeres catastemáticos e os cinéticos. Os primeiros se referem a um prazer pleno, imóvel e estático. Trata-se de um estado de satisfação que se configura em um prazer no seu ápice, não existindo nada maior ou melhor. Os outros, sujeitos ao movimento incessante de dor e estados agradáveis, são efêmeros. Mesmo que se possa estimulá-los através da riqueza e do poder, não é possível aumentar a sua intensidade nem torná-los mais agradáveis. Pelo contrário, ao tentar aumentar tais prazeres, o sábio corre o risco de se tornar dependente deles, o que seria admitir desnecessariamente o destino.
Assim, deve-se preferir o prazer à dor, mas isso não significa uma atitude alheia ao fato de que o sofrimento – em termos concretos – existe. O objetivo do epicurista, em primeiro lugar, deve ser o de minimizar a dor, atuando em conformidade com uma economia dos prazeres. No caso do corpo, isto pode ser conseguido através de um estilo de vida simples e frugal, de modo a satisfazer apenas os desejos naturais e necessários. Nesse contexto, a amizade e a companhia de amigos que compartilham interesses semelhantes é o ambiente mais propício para desfrutar de tal prazer.
Mas, uma vez que o corpo-carne sofre – isso pode ser atestado pelos sentidos; trata- se de um sofrimento efetivamente real e concreto – e a dor, quando inevitável, pode ser superada pelo prazer mental, do espírito. Quando este último excede a dor do primeiro, há uma variação do gozo passado que se atualiza no presente, anunciando um gozo futuro. Para a alma, é possível suprimir a dor através da investigação filosófica da phýsis, ou melhor, pelo estudo da natureza. Tal atitude permite o prazer catastemático, condição prévia para a ataraxia. Portanto, nessa economia, o prazer mais valorizado é o estático, por permitir – através de um estado de ausência de perturbação da alma – eliminar duas das principais origens da angústia humana: os temores dos deuses e o medo da morte223. Como já foi dito, nem a riqueza nem o poder são capazes de suprimir a dor e cessar o sofrimento, e sequer permitem o prazer sensual. Nesse sentido, o prazer é o único bem e o único objetivo do sábio; a ele, todos os outros valores estão subordinados. A dor é algo negativo e o único mal, não existindo um estado intermediário entre prazer e dor.
222 DRN, II, 20: Ergo corpoream ad naturam pauca videmus. O início é bastante significativo, uma vez que o
termo pauca refere-se a um tipo de apelo à vida simples. Os prazeres podem ser corporais (do corpo-carne) ou anímicos, sendo que, neste caso, Lucrécio está se referindo explicitamente aos primeiros.
223 O prazer catastemático pode ser sentido quando se atinge um estado particular de bem-estar, de ausência de
dor (aponia), ou de ausência de inquietação da alma (ataraxia). O prazer cinético, pelo contrário, é sentido durante a execução de alguma atividade, como por exemplo, a discussão filosófica.
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O compromisso dessa ética no âmbito do corpo – isto é, do corpo dos seres humanos, o corpo-carne por excelência – vincula-se ao prazer em seu sentido mais amplo. A voluptas da qual fala Lucrécio, ainda que incipiente nessa passagem, parte de algo físico, já que, enquanto sensação e faculdade anímica, é o resultado do movimento dos átomos sutis da alma no vazio. Dessa forma, não seria estranho concluir que, ao evitar a dor, o epicurista está se referindo, em última análise, ao seu afastamento e, portanto, a um tipo particular de declinação.
3.3. Os prazeres e os medos do espírito: a recusa dos bens exteriores (gloria regni) e a