4 SOCIALIZAÇÃO DENTRO DA ORGANIZAÇÃO EM BUSCA DA IDENTIDADE PROFISSIONAL
Ao pensarmos nos recursos utilizados por esses indivíduos na construção da identidade, busquei por referenciais que dessem sustentação a essa pesquisa e encontrei, na teoria de Ciampa respostas que fundamentassem a construção identitária do bombeiro, assim como: Berger e Luckmann, Erving Goffman, Anselm Strauss, entre outros autores de igual importância para a compreensão desta temática e consequentemente, no desenvolvimento desta pesquisa.
De acordo com Ciampa, ao pensarmos em um determinado personagem, buscamos os predicados que a ele estão associados, como por exemplo: o bombeiro, profissional bom, solidário, protetor e salvador; ao lhe atribuirmos esses adjetivos, contribuímos para que ele reproduza socialmente a identidade do profissional bombeiro, levando-o a agir de acordo com essas predicações (CIAMPA, 2005).
Para esse autor, o meio social no qual o indivíduo está inserido é responsável pela criação do personagem que ele representa, No caso especial do sujeito dessa pesquisa, ao ser identificado com os adjetivos específicos atribuídos a ele, o bombeiro interioriza, identificando-se como tal (CIAMPA, 2005).
Ainda neste contexto, podemos pensar na instituição Corpo de Bombeiros como um dos fatores responsáveis pela construção da identidade coletiva dos profissionais inseridos socialmente nas atividades de resgate e salvamento. Por se tratar de um ambiente militar, podemos concordar com Goffman (2011), quando ele se refere à interação e ao alinhamento entre os indivíduos pertencentes a grandes intituições sociais.
Ciampa (2012) refere-se ao indivíduo como um ser total, que, em cada atividade exercida, se desdobra representando um dos personagem da sua identidade refletindo dessa forma a estrutura social. Em relação a essa representação, Durkheim (2007, p. 10) nos remete a sua compreensão quando diz que
a vida coletiva, como a vida mental do indivíduo, é feita de representações; é portanto presumível que representações individuais e representações sociais são, de alguma maneira, comparáveis.
Na concepção de Lima (2010), a identidade do indivíduo só pode ser identificada através dos diferentes personagens que ele representa, sendo necessária a representação desses personagens para que ela possa ser reconhecida.
Entretanto, a constituição dos diferentes personagens do indivíduo socializado depende do entendimento linguístico com outros e com entendimento intra-subjectivo e biográfico com ele mesmo, em um processo simultâneo, segundo Habermas (2004).
Esse autor conclui, ainda, que a identidade do indivíduo forma-se a partir do processo de socialização, dentro do sistema social, e através da apropriação de “generalizações simbólicas” (idioma, visões do mundo, regras de comportamento, etc.), e também, das imagens do mundo que estão na base da sociedade (MENTE, [200-], p. 37). Para os profissionais inseridos no Corpo de Bombeiros, alguns símbolos institucionais militares como, por exemplo, o hino do bombeiro, é incorporado na identidade desses indivíduos.
Para Bock, Furtado e Teixeira (2001), a identidade é construída a partir da relação estabelecida entre o indivíduo e as pessoas significativas do seu meio, levando-o a apropriar-se de determinadas características desses modelos, com isso, ele se destaca e se diferencia.
Na concepção de Cardoso (2004, p.19), a participação do indivíduo no meio social confere-lhe o direito de ser, ou estar no mundo, situando-o em um lugar comum; acrescentando ainda, que, ao permitir essa socialização, “o indivíduo interioriza o que os outros lhe atribuem, transformando os atributos em algo de sua propriedade pessoal”.
Segundo Natividade e Brasil (2009), o meio social institucional em que esses profissionais estão inseridos contribui para a construção das suas identidades, levando-os a se reconhecerem no papel de bombeiro, precisando que os outros também o reconheçam nesse mesmo papel. Esses autores concluem que, ao representar esse papel, ele ultrapassa os limites organizacionais permitindo dessa forma a invasão da própria vida.
Para Berger e Luckmann (2009), a estrutura social é responsável pela formação e conservação da identidade; logo, o ser bombeiro depende obrigatoriamente, da permanência e convivência do indivíduo nesta instituição. Ainda de acordo com esses autores, os tipos de identidade são decorrentes dos produtos sociais; dessa forma, para conhecermos a identidade do indivíduo precisamos adentrar no universo social ao qual ele pertence.
Em relação ao personagem bombeiro, ao entrar no universo institucional identificamos características próprias da identidade desses profissionais, mostrando-nos que a socialização na instituição é necessária, pois, de outra forma, não teriam como reproduzir determinados comportamentos ao longo dos anos. Nesse contexto, Mead (1992 apud LIMA, 2010, p. 170), discorre sobre o fato de que ”o indivíduo é uma personalidade porque pertence a uma comunidade, e incorpora as instituições dessa comunidade em sua conduta”.
Ainda sob essa perspectiva, aprendemos com Ciampa (2005) que ao identificarmos o personagem bombeiro atribuímos-lhes alguns predicados, levando- os de uma forma subjetiva a interiorizá-los.
A socialização que promove a formação permite que eles adotem as mesmas condutas dos colegas, ao mesmo tempo em que garantem a individualidade. Essa reprodução é confirmada por Berger e Luckmann (2009, p. 77), ao afirmar que
toda atividade humana está sujeita ao hábito. Qualquer ação frequentemente repetida torna-se moldada em um padrão, que pode em seguida ser reproduzido com economia de esforço e que, ipso facto, é apreendido pelo executante como tal padrão.
Em relação à socialização dos indivíduos pertencentes à organização militar, Natividade (2009) acredita que a reprodução do comportamento pode estar relacionada também à necessidade do cumprimento das regras instituídas no ambiente militar, tendo como resposta a obediência absoluta; e que esses indivíduos podem ainda ampliar esse comportamento para o ambiente extra-corporação. Para esses autores, a identidade dos indivíduos é construída e reconstruída ao longo da vida, acompanhando as alterações ocorridas tanto nas relações interpessoais quanto no próprio meio social. Essas mudanças são denominadas por Ciampa de metamorfose.
Ao construir a imagem do bombeiro, os profissionais da corporação utilizam todos os elementos usados pela própria sociedade em relação a eles, porém, com liberdade para elaborar, segundo Goffman (2012).
Em relação ao cotidiano dos indivíduos pertencentes ao Corpo de Bombeiros, a socialização é contínua pela própria estrutura organizacional da instituição. Essa atividade é realizada em escala de serviço de 24 horas entercaladas com 48 horas de descanso, dessa forma, a socialização vai além dos componentes relacionados ao trabalho, a relação de amizade estabelecida entre o grupo permite uma invasão da vida pessoal levando-os a criar fortes vínculos de amizade.
Para Durkheim (2008, p. 20), o indivíduo procura relacionar-se com pessoas com as quais ele mantém afinidade, e completa “é por isso que procuramos em nossos amigos as qualidades que nos faltam, porque unindo-nos a eles participamos de uma certa forma da sua natureza e nos sentimos, então, menos incompletos”. Essa teoria pode ser aplicada na relação social estabelecida entre os bombeiros.
Construimos nossa identidde social como indivíduos na medida em que dispomos de um nexo universal, o poder de troca de tudo com tudo, de todos com todos, troca universal, equivalência universais, identidade/individualidade universal (CODO, 2002, p.298).