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As condições histórico-geográficas que envolveram a fundação da capital da Capitania da Parahyba ditariam por um bom tempo o ritmo do seu crescimento econômico. As dificuldades oferecidas pelos índios Potiguaras à fixação dos portugueses atrasaram por cinqüenta anos a ocupação do território.

Com a criação da Capitania Real da Parahyba por ordem Del Rey, fruto do desmembramento da Capitania de I tamaracá entre Paraíba e Pernambuco, forças militares portuguesas baseadas em Olinda iniciavam em 1578 o que seria denominada a Conquista da Paraíba. Somente em 5 de agosto de 1585, após uma aliança com os Tabajaras, conseguiu-se expulsar os franceses e fixou-se os Potiguaras na margem norte do Rio Paraíba. Além da ocupação para exploração, garantiu-se o fim dos ataques indígenas às vilas e aos engenhos pernambucanos.

Na foz do rio, em sua margem leste, construíu-se a Fortaleza de Santa Catarina e do lado oposto o Forte de Santo Antônio. Por fim, entre as duas fortificações, ergueu-se o Fortim de São Bento na I lha da Restinga numa clara tentativa de barrar qualquer avanço inimigo. A cidade de Filipéia de Nossa Senhora das Neves, que havia sido fundada em 4 de novembro de 1585, situava-se a vinte quilômetros da foz do rio. Seu acesso pelo oeste era impedido pelo Rio Sanhauá; a leste uma densa floresta tropical a separava do Oceano Atlântico; ao sul a aldeia Tabajara de Piragibe e ao norte as fortalezas da entrada do rio. Tão inexpugnável era a Parahyba que somente depois de três tentativas tombou aos holandeses.

“Em 1634, quando os holandeses conquistaram a cidade de Filipéia, nela não existia mais que mil habitantes, enquanto Olinda já possuía cinco mil”. (RODRI GUES, Janete Lins e DROULERS, Martine, 1988, p.15)

A reprodução do mapa na página seguinte – figura 06 – ilustra a conquista que se deu no dia 25 de dezembro de 1634. É possível observar que o sítio do início da fundação permanecia pouco alterado. Localizadas na Cidade Alta, as Ruas Nova e Direita – atuais General Osório e Duque de Caxias – determinavam a implantação das principais edificações públicas e religiosas – conventos franciscano, carmelita, beneditino e jesuíta. No Varadouro da Cidade Baixa estavam os armazéns de estivas, as poucas lojas comerciais, além das edificações portuárias. O porto da cidade recebia navios de até cem toneladas, pois o trajeto até a foz do Parahyba

estava repleto de “coroas de areia” impedindo a navegação de navios de maior calado.

Figura 07- Desenho Parayba de Claes Vissher sobre a I nvasão Holandesa em 1634. FONTE: REI S FI LHO, 2000.

A política holandesa para a Parahyba era bastante distinta da de Pernambuco. Aqui houve uma simples administração das conquistas sem empreender grandes construções além do muro de proteção ao seu quartel general, o Convento Franciscano de Santo Antônio, como bem ilustra o desenho de Vissher. Filipéia agora era Frederickstadt e permaneceria assim por vinte anos.

Os anos que se seguiram à Guerra Brasílica, com a conseqüente expulsão dos batavos, revelariam um novo panorama para o Brasil Colonial do século seguinte, o XVI I I . Além da concorrência holandesa – sediada nas Antilhas – no mercado internacional de açúcar, a eterna ampliação das ligações entre as cidades da colônia com dimensões continentais. Outro fator importante que contribuiu para o desaquecimento da produção agrícola foi a descoberta dos primeiros veios auríferos no interior do país.

Com todas as fragilidades a Parahyba procurava voltar-se para si própria e seguia lentamente no passo de consolidação e ocupação do seu território.

Sua economia baseava-se na lavoura da cana de açúcar, legumes, cereais, frutas e outros gêneros alimentícios; no comércio e na navegação de cabotagem; na pesca; na fabricação de cal e de louças de barro. A falta de um porto competitivo e diretamente ligado à malha urbana tratou de colocar a capital fora do roteiro comercial tradicional (ROHAN, 1857, p. 309).

Durante o século XVI I I a Parahyba estava com a Serra da Borborema em fase de ocupação. A Vila Nova da Rainha, futura Campina Grande, cedo demonstrava sua vocação de entreposto comercial sendo responsável por uma significativa exportação de carne bovina. Em plena Zona da Mata, Mamanguape, banhada por um rio com boa navegabilidade e estrategicamente próxima do Brejo, se credenciava como forte porto de exportação da nascente produção algodoeira (ROHAN, op. cit., p. 328).

Fica claro que a fragilidade da localização do porto da capital foi determinante no seu ritmo de crescimento, pois além da concorrência “caseira” de Mamanguape, perdia parte da exportação da Borborema para o porto do Recife. Mesmo a abertura dos portos, em 1808, patrocinada com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, não promoveu grandes mudanças na Cidade da Parahyba2.

Pelo contrário, tratou de ampliar a distância existente entre as estruturas portuárias de Pernambuco e Paraíba.

Por volta de 1855 foi levantada a primeira planta oficial da cidade – figura 07 na página seguinte – por ordem do governador provincial o Tenente- Coronel Henrique Beaurepaire Rohan. A leitura desta planta dá uma clara visão da malha urbana ocupada até então. Trata-se do atual perímetro do Centro Histórico constituído, com área aproximada de 117 hectares. A população urbana era estimada em cerca de sete mil habitantes. Rohan, um militar com formação amplamente técnica e científica, entregaria ao final de cinco anos um relatório minucioso sobre toda a província, a Corografia da Província da Parahyba do Norte.

Através da Corografia podemos constatar que a cidade procurava estruturar-se a partir das principais edificações – religiosas e públicas. Como o território era eminentemente plano e elevado – o planalto onde havia sido fundada a cidade estava cerca de 40 metros acima do nível do mar e era cortado po r vales de

2- Após a expulsão dos holandeses em 1654 a capital não retomou sua denominação anterior, Filipéia, mas ganhou o nome de Cidade da Parahyba, a mais duradoura, somente alterada com os acontecimentos da Revolução de 1930.

pequenos rios – existiam poucas barreiras físicas que impedissem o seu crescimento. Apesar da pequena área urbana, existiam várias freguesias que mais tarde constituiriam os atuais municípios vizinhos, como Santa Rita, Cabedelo, Lucena, Conde e Gramame. Da atual João Pessoa, Rohan anotou as ocupações das freguesias do Cabo Branco – com a capela e povoação da Praia da Penha – e de Tambaú que viviam, sobretudo da pesca e da cultura do côco. Rohan registrou também ruínas de um palacete em Tambaú destinado ao recreio dos governadores.

Figura 08- Cópia da Planta da Cidade da Parahyba feita em 1905 a partir do original de B. Rohan em 1855. FOTO: Mapa do acervo do I nstituto Histórico e Geográfico da Paraíba

“As fontes publicas são as de Tambiá, Gravatá e Milagres, todas ellas mui pobres d’água.

A excepção da Rua Direita na cidade alta e de uma parte da do Varadouro, não são as mais calçadas o que difficulta o transito na ocasião das chuvas.”(ROHAN, H. Beaurepaire. 1850, p.309. In Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, 1911)

Apesar do pequeno tamanho, a Cidade da Parahyba mantinha, em menor escala, todos os problemas de uma cidade com estrutura colonial. Além do abastecimento d’água e da pavimentação, citados por Rohan, o lixo se acumulava no leito das ruas espalhando mau cheiro e causando proliferação de doenças; os dejetos orgânicos eram despejados em cloacas próximas ao Rio Sanhauá; isso sem falar nas trevas que dominavam a cidade após o crepúsculo, devido à falta de iluminação.

Apenas uns poucos edifícios públicos e privados mantinham lampiões queimando óleo de mamona. A cidade manteve esta aparência até as últimas décadas do século XI X, parecendo estar esperando pelas mudanças que alterariam por completo as suas principais áreas que somente aconteceriam a partir de 1910.