Gramsci escreveu nos seus Cadernos do cárcere que “todos os homens são intelectuais, embora se possa dizer: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”. A própria carreira de Gramsci exemplifica o papel que ele atribuiu ao intelectual; ele foi ao mesmo tempo um organizador do movimento da classe operária italiana e, em sua atividade jornalística, um dos analistas sociais mais conscientemente ponderados, cujo objetivo era construir não apenas um movimento social, mas também toda uma formação cultural associada a esse movimento (SAID, 2005).
Para Gramsci apud Said (2005), as pessoas que desempenham uma função intelectual na sociedade podem ser divididas em dois tipos: primeiro, os intelectuais tradicionais, como professores, clérigos e administradores, que, geração após geração, continuam a fazer a
mesma coisa; e, segundo, os intelectuais orgânicos, que Gramsci considerava diretamente ligados a classes ou empresas, que os usavam para organizar interesses, conquistar mais poder, obter mais controle.
No outro extremo, encontra-se a definição de ‘Intelectuais’ de Julien Benda: um grupo minúsculo de reis-filósofos com grande sentido moral, que constituem a consciência da humanidade. Apesar de ser verdade que o tratado de Benda, A traição dos intelectuais (1927), ficou para a posteridade como um duro ataque aos intelectuais que abandonam sua vocação e comprometem seus princípios do que como uma análise sistemática da vida intelectual, Benda cita as características principais dos que considerava serem verdadeiros intelectuais. Sócrates e Jesus são mencionados com freqüência, além de outros exemplos mais recentes, como Espinosa, Voltaire e Ernest Renan. Para Benda, os verdadeiros intelectuais constituem uma clerezia, são criaturas de fato muito raras, uma vez que defendem padrões eternos de verdade e justiça que não são precisamente deste mundo. Daí o termo religioso que Benda lhes atribui – clérigos –, uma distinção na posição social e no desempenho que ele sempre contrapõe aos leigos, aquelas pessoas comuns interessadas em vantagens materiais, em promoção pessoal e, se possível, numa relação próxima com os poderes seculares. Os verdadeiros intelectuais, diz ele, são aqueles cuja atividade não é essencialmente buscar objetivos práticos, ou seja, todos os que procuram sua satisfação no exercício de uma arte ou ciência ou da especulação metafísica. No entanto, os exemplos de Benda deixam claro que ele não endossa a noção de pensadores totalmente descomprometidos, alheios a este mundo, voltados para si próprios. Os verdadeiros intelectuais nunca são tão eles mesmos como quando, movidos pela paixão metafísica e princípios desinteressados de justiça e verdade, denunciam a corrupção, defendem os fracos, desafiam a autoridade imperfeita ou opressora (SAID, 2005).
Para Said (2005), a análise social que Gramsci faz do intelectual como uma pessoa que preenche um conjunto particular de funções na sociedade está muito mais próxima da realidade do que tudo o que Benda escreveu, sobretudo no fim do século XX, quando tantas profissões novas têm sustentado a visão do filósofo italiano. Hoje, todos os que trabalham em qualquer área relacionada com a produção ou divulgação de conhecimento são intelectuais no sentido gramsciano.
Nas sociedades industrializadas do Ocidente, a relação entre a indústria do conhecimento e as que estão ligadas à produção mecânica e artesanal tem crescido vertiginosamente a favor das indústrias do conhecimento. Segundo Said (2005), o sociólogo americano Alvin Gouldner disse há vários anos que os intelectuais eram uma nova classe, e que os administradores intelectuais tinham agora substituído, em grande escala, as velhas
classes endinheiradas e abastadas. Entretanto, Gouldner também afirmou que, em virtude de sua posição ascendente, os intelectuais não eram mais pessoas que se dirigiam a um público vasto; em vez disso, tornaram-se membros do que ele chamou uma cultura do discurso crítico. Para Said (2005), todos os intelectuais, o editor de um livro e o autor, o estrategista militar e o advogado internacional, falam e lidam com uma linguagem que se tornou especializada e utilizável por outros membros da mesma área: especialistas que se dirigem a outros experts numa língua franca em grande parte incompreensível por pessoas não especializadas.
De modo semelhante, Foucault (2002) disse que o chamado intelectual universal viu seu lugar tomado pelo intelectual ‘específico’, alguém que domina um assunto, mas que é capaz de usar seu conhecimento em qualquer área. Segundo o autor, o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles, transformando todos em pequenos grupos, não existindo mais uma representação, ou seja, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede.
Nesse sentido, Foucault (2002, p. 43) argumenta que os intelectuais descobriram que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem melhor do que eles; e elas o expressam muito bem. Mas existe um sistema de poder que proíbe e invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra sutil e profundamente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, com a idéia de que eles são agentes da consciência e do discurso. Dessa maneira, o papel do intelectual não é mais dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem “do saber, da verdade, da consciência, do discurso”.
A politização de um intelectual tradicionalmente se fazia a partir de duas coisas: primeiro, sua posição de intelectual na sociedade burguesa, no sistema de produção capitalista, na ideologia que ela produz ou impõe (ser explorado, reduzido à miséria, rejeitado, “maldito”, acusado de subversão, de imoralidade, etc.); segundo, seu próprio discurso enquanto revelava uma determinada verdade, descobria relações políticas onde normalmente elas não eram percebidas. Estas duas formas de politização não eram estranhas uma em relação à outra, embora não coincidissem necessariamente. Havia o tipo do intelectual “maldito” e o tipo do intelectual socialista. Estas duas formas de politização facilmente se confundiram em determinados momentos de reação violenta do poder, depois de 1848, depois da Comuna de Paris, depois de 1940: o intelectual era rejeitado, perseguido, no momento mesmo em que as “coisas” apareciam em sua “verdade” [...]. O intelectual dizia a verdade àqueles que ainda não a viam e em nome daqueles que não podiam dizê−la: consciência e eloqüência (FOUCAULT, 2002, p. 41-42).
Numa outra perspectiva, Bauman (2001, p. 112) diz que “[...] Tudo é temporário. Nossos quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades autoevidentes”. Um bom exemplo do que afirma Bauman pode ser verificado com as relações humanas: vive-se o momento presente, não se pensa num projeto de vida para o futuro, e sim, nos planos para o agora e o depois. Diante dessa temporalidade, Lipovétsky (2004) decreta: de quem é a culpa? Há culpados? São os intelectuais!
Por fim, para Said (2005), o que interessa é o intelectual enquanto figura representativa, alguém que representa um certo ponto de vista, e articula essas representações a um público, apesar de todo tipo de barreiras. O argumento do autor é que os intelectuais são indivíduos com vocação para a arte de representar, seja escrevendo, falando, ensinando ou aparecendo na televisão. E essa vocação é importante na medida em que é reconhecível publicamente e envolve, ao mesmo tempo, compromisso e risco, ousadia e vulnerabilidade.
Quando leio Jean-Paul Sartre ou Bertrand Russell, são suas vozes e presenças específicas e individuais que me causam uma impressão para além e acima dos seus argumentos, porque eles expõem com clareza suas convicções. Não podem ser confundidos com um funcionário anônimo ou um burocrata solícito (SAID 2005, p. 27).