Longe de apontar o movimento estudantil como motor único de uma prática cultural, mais preciso é pensa-lo como um meio de organização, de institucionalização e promoção de algumas práticas artísticas que tinham a política como mote. Dialogava diretamente com a produção cultural de dentro da universidade. A música fazia parte de uma movimentação em torno da cultura, de inciativas em prol da arte local que incluía outras linguagens artísticas. Quando falamos dos subgrupos alinhados por ideais políticos, das redes de amizade e identidades que compunham o grande amalgama da cena estudantil, estão incluídos também nesse mosaico os grupos formados por áreas de afinidade artística. Agrupavam-se os estudantes envolvidos com as artes cênicas, os da literatura, das artes visuais, do cinema, da música. Subdivididos, mas unidos pela geografia, pelas práticas, valores e ideais afins.
Quando chegava no Quina Azul, tinha lideranças do movimento estudantil, gente de vários cursos da universidade, cantores, atores, gente de várias áreas mesmo. Então, não tinha muito essa separação. Ou por outra, não é que não houvesse alguma separação, é que estávamos todos reunidos no mesmo lugar, transitando nos mesmos lugares. Isso era uma coisa muito forte que acontecia ali. (Marte Aurélia, entrevistada em 2017)
A música, como foco deste estudo, estava em constante diálogo com outras linguagens e agentes de produção cultural dentro e fora da universidade. Eugênio Leandro teve sua entrada nas artes pela literatura, em 1978, ao conhecer Rogaciano Leite Filho, que assinava um caderno literário no jornal O Povo e passou a publicar seus contos e poemas. Os dois compuseram música em parceria e participaram do Festival Universitário da Canção, da UFC, naquele mesmo ano, ficando em quarto lugar. Ambos participaram naquele fim de década do
Grupo Siriará, que reunia escritores (alguns deles, remanescentes da revista O Saco, publicada
entre 1976 e 1977) e promovia saraus, seminários, editava livros.
Na universidade, surgiram revistas como O Pássaro e O Comboio, no início dos anos 1980.
Atuavam na época também grupos como o Nação Cariri, formado no Crato e que atuou também em Fortaleza, iniciando como revista cultural e seguindo com ações ligadas à música,
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teatro, artes visuais e cinema. O músico Pingo de Fortaleza chegou a publicar poemas na revista do grupo antes mesmo dos primeiros concertos na universidade. Oswald Barroso e Rosemberg Cariri, ambos do Nação Cariri, tinham bastante contato com os músicos e com a produção cultural da UFC, influenciando no modo de conceber arte e cultura com as ideias difundidas na revista. Oswald, por exemplo, é parceiro de Eugênio Leandro, tendo feito letras para várias de suas músicas. O diálogo com a literatura se dava também em eventos de uma e outra linguagem em que os artistas somavam forças. Pingo de Fortaleza relata que chegou a musicar poemas para lançamento de livros. Os poetas também marcavam presença nos atos do movimento estudantil ao lado dos cantores e compositores. Estudantes das diversas artes, como artistas plásticos, atores, tinham na política e no meio universitário e boémio sua zona de resistência.
O jornalismo também teve papel relevante com a implantação da Rádio Universitária FM, em 1981. Rodger Rogério (um dos músicos da geração do Pessoal do Ceará e docente do curso de Física) participou ativamente da fundação da Rádio. Desde que entrou no ar, a música fez parte da grade de programação, seja tocando discos de artistas locais e nacionais de MPB, seja realizando entrevistas e abrindo espaço para a música ao vivo.
Era da filosofia da rádio promover a cultura local. Isso dentro do lema da universidade, “Do regional pro universal, do Universal pelo regional”, uma coisa assim. Através do regional, atingia o universal. Então, a gente tinha uma coisa de focar em Fortaleza, no Ceará, no Nordeste, Brasil, América Latina e o resto do mundo. E nesse sentido a gente, quem tinha música gravada, foi muito bom, porque a rádio botou no ar e veiculou essas músicas. Quem não tinha, a gente, na medida do possível, porque a situação era precária, vamos dizer assim, a gente gravava no estúdio da rádio. Conforme a gravação saísse razoável a gente botava isso no ar. (Rodger Rogério, entrevistado em 2016)
Entre os primeiros programas voltados para a música, estão o Reouvindo o Nordeste (no ar até os dias atuais), voltado para música de tradição regional (violeiros, cantadores, cordelistas) e o Ceará In Canto, programa que foi rebatizado como Pessoal do Ceará, que entrevistava músicos e transmitia os discos de artistas cearenses. A precariedade dos equipamentos e o
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baixo orçamento, segundo Rodger, limitavam a ação da rádio. O acervo musical da rádio, recorda, foi improvisado, com a gravação de acervos particulares em fita, doações de disco e colaborações - o jornalista Nelson Augusto, na época estudante e locutor da rádio, chegou a doar seu acervo para a emissora. Outro entrave era dificuldade de os artistas locais gravarem discos. “A gente fez uns programas ao vivo, à noite, a pessoa ia levava um violãozinho. Esse programa durou pouco, porque era muito trabalhoso também” (Rodger Rogério, entrevistado em 2016).
Lá tinha um auditório do lado, alguns programas eram feitos ao vivo. Mas a grande massa mesmo era a questão do vinil. Alguns levavam uma fita, a gente passava pra gravador de rolo e tocava em fita também. Mas todos os primeiros discos dessa geração, dos anos 1980, foram praticamente lançados lá na Rádio. (Nelson Augusto, entrevistado em 2016)
O viés não comercial permitiu ainda que artistas de vertentes menos divulgadas da MPB tivessem espaço na programação local em Fortaleza. Nelson Augusto reforça que a rádio era a única que veiculava nomes como Vital Farias, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elomar, Xangai, que eram referências de uma MPB com identidade do Nordeste e que circulavam por um circuito alternativo. Além de abrir espaço para os jovens artistas e de difundir conteúdo musical de MPB, a Rádio Universitária se firmou como espaço por onde transitavam pessoas do movimento estudantil, promovia debates, entrevistas, divulgava atividades, reverberando essas informações dentro e fora da universidade. A emissora também passou a realizar e apoiar eventos culturais na universidade.
Outra vertente de produção artística que teve influência direta na música do período foi o teatro. O Grita (Grupo Independente de Teatro Amador), ligado ao Curso de Arte Dramática da UFC – e do qual participaram Oswald Barroso e alguns músicos-estudantes - seguia uma linha de teatro político, ligado ao pensamento cepecista dos anos 1960 e engajado com a resistência à ditadura. Eram inspirados pela obra de nomes como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri e tinham forte afinidade com a MPB.
Calé Alencar participou como músico na estreia do espetáculo Fala, favela, de Adriano Espinola, encenado pelo Grita em 1980 no Teatro Universitário.
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O teatro é uma arte interessante porque sempre inclui a música. E os músicos sempre são chamados pra fazer as músicas dos espetáculos e estão presentes nos espetáculos. O Pingo, o Eugênio, sempre estiveram presentes nos espetáculos da gente, tocando. O Calé, o Fernando Neri. O Fernando Neri, inclusive, era ator e músico ao mesmo tempo. (Oswald Barroso, entrevistado em 2016)
Marta Aurélia foi integrante do Grupo Raça, tendo atuado em montagens como Aqui Julgam
Que Es Néscio Mas se Cochilar o Cachimbo Atrasa o Relógio Entorta a Cabeça Afrouxa o Parafuso Cai o Periquito Assobia e Tu Ó, com direção de Artur Guedes. Ela lembra que era
comum estudantes que participavam de mais de uma atividade.
Na época do grupo de teatro, Marta frequentava o Coral da UFC, sob direção de Izaíra Silvino - do qual participaram Amaro Penna, Álcio, Parahyba, Dilson Pinheiro, além de cantoras do período como Lúcia Menezes, Gigi Castro e Aparecida Silvino. Marta chegou também a fazer parte da Banda das Moças Donzelas, que era formada por cantoras, parte delas também atrizes e tinha direção do ator e diretor Pedro Domingues.
Pingo de Fortaleza destaca em seu livro Pérolas do Centauro (2013) o concerto “Nem só sons”, concebido para o lançamento da revista O Comboio e que unia teatro e música, com poemas musicados e textos dos integrantes da revista e do grupo Nação Cariri. As diversas inciativas que compunham o fazer artístico na universidade acabavam por integrarem-se como prática afins.