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Poética, estética e estilo são elementos que compõem as obras de arte caracterizando-as como únicas e conferindo a elas uma identidade. A poética consiste no conjunto de conceitos, técnicas e visões de mundo que levam o criador a se transfigurar na obra e a integrar sua imaginação à realidade. (BARROSO, 2008). As primeiras referências sobre os conceitos que nortearam a poética originaram-se na Grécia Antiga. A poética grega comportava normas que objetivavam situar o artista no papel de criador inspirado por forças místicas, divinas, envoltas em uma aura mágica. Caberia ao artista criador conjugar princípios reais da natureza a representações da concepção do “ideal”. (CUNHA, 2003). Os gregos da antiguidade eram comprometidos com a busca da “verdade” e a arte era concebida como uma via direcionada para a imitação da natureza que necessitava de uma intervenção divina (os poetas se remetiam às Musas para encontrar a inspiração) – assim intuíam que a arte poderia proporcionar a união de elementos e experiências naturais e sobrenaturais. O ideal de perfeição seria o resultado dessa fusão. Sendo a poética o percurso de criação que evidencia a individualidade e a autenticidade do artista expressos como marca característica das obras que produz, esse conceito foi sendo revisto ao longo dos tempos no percurso da história. Hoje a poética é concebida como o ato criativo em si.

“Aquela que nasce do gênio pessoal, da capacidade imaginativa, do poder subjetivo de um autor e que, por tais evidências, transcendem a realidade objetiva, a facticidade do imediato.” (CUNHA, 2003, p. 508).

“O núcleo de minha poética é a arte enquanto processo alquímico de criação de imagens abertas à interação com uma realidade multidimensional e sem donos. Nele se encontra meu luxo – o silêncio absurdo de onde venho – e minha necessidade – a vontade absurda de continuar existindo, não-silenciada.” (BARROSO, 2008, p.4).

A poética que orienta a criação não se restringe aos momentos iluminados de inspiração. O fazer artístico comporta processos técnicos de construção que se entremeiam às subjetividades do artista, tal como Edgard Allan Poe demonstra no poema “O Corvo”:

“‘O Corvo’ seguiu uma trajetória lógica, de medidas justas, apesar do efeito emotivo contrário que dele emerge. Primeiro, escolheu a dimensão do poema, nem longo, nem curto. Em seguida, guiou-se pela

ideia do Belo como finalidade da poesia e manifestação da tristeza. Optou pelo uso de um refrão curto e sonoro (‘nevermore’), síntese da perda da mulher amada e da melancolia. Imaginou depois que um personagem distinto do poeta repetisse o ritornelo da tristeza: de início, um papagaio, mas por fim, a figura sombria do corvo.” (CUNHA, 2003, p. 509).

A estética está ligada ao conceito de beleza ocupando-se da apreensão da obra de arte e, na cultura ocidental implica em julgamento de valor. Não existe regra para definir o que é belo e o que não é, mas sim características de julgamento que buscam argumentos para afirmar ou negar sua existência. A beleza é um conceito relativo e de caráter mutável, logo esse tipo de avaliação é um procedimento que não se apóia em parâmetros mensuráveis ou racionais.

“A impossibilidade de se justificar leva a substituir a razão pelo fanatismo, mas com o reparo de que esse sentimento de não poder justificar uma certa evidência só atinge aqui, excepcionalmente, um ponto crítico, porque se exige uma justificação objetiva de uma certeza que, por sua vez, não pertence ao domínio da verdade, mas ao do amor.” (GILSON, 2010, p.47).

O “estilo” é uma característica que se evidencia nos traços que particularizam as obras de um mesmo artista conferindo-lhes uma identidade e um sentido de linearidade. Estilo é o que faz com que as obras consigam deflagrar a identidade dos seus criadores. A arquitetura de Oscar Niemeyer é um exemplo típico, assim como a dramaturgia de Nelson Rodrigues, a literatura de Machado de Assis ou a arte plástica de Romero Britto. O estilo também pode caracterizar um período (por exemplo: barroco, renascentista, romântico) ou uma tendência (por exemplo: gótico, minimalista, “pop”).

“Dizemos também que um grande artista tem um ‘estilo’. E é verdade, pois o estilo (o de um tempo, de uma sociedade, de um certo tipo de arte ou de um artista) é uma característica constante de formas particulares, e a sua presença nos permite conceber essas formas como um único grupo.” (Idem, p.58).

A arte e a beleza pertencem ao domínio do humano e com ele estabelecem um relacionamento dialético onde somente através dessa interação surgirão infinitas possibilidades de percepção, análise e concepção de significados. É importante reforçar que a concepção de arte nesse trabalho não reside no produto artístico, mas na atitude do criador e no movimento relacional do diálogo que estabelece consigo mesmo e com os fruidores. Já fora mencionado que a arte bruta emerge de uma urgência de expressão e

que não necessariamente um artista necessita de apreciadores em potencial para produzir obras artísticas. Neste caso o criador assume também o papel de fruidor.

“... porque no fundo a arte não está na obra (exposta na parede ou na página), mas no hiato relacional que se estabelece entre duas subjetividades falantes: a do artista e a do fruidor. A arte, se pode ser vivida na interioridade de uma pessoa, pode também desertar esta interioridade e surgir irisada em palavras, circundada por olhares e comentários.” (BARROSO, 2008, p.3).

“Longe de proporcionar fantasias escapistas, a arte enriquece a experiência do mundo real por dentro e por fora. Mas só o faz quando estamos dispostos e aptos a permitir que o faça. Caso contrário, para nós não é arte. O artista cria apenas um produto artístico; a obra de arte é o que esse produto faz na experiência da pessoa, e esta depende tanto da pessoa quanto do produto. (...) Um novo poema é criado por cada um que o lê poeticamente.” (DEWEY, 2010, p. 42).