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O conceito de Património foi tomando cada vez mais conta do nosso universo prático,

fruto da abrangência que este conceito foi adquirindo, em resultado da cada vez maior necessidade do homem do séc. XXI em preservar uma identidade, fundamental para a sua existência.

A consciencialização crescente para com as questões relacionadas com o Património e com a sua conservação, levaram as pessoas a ter uma diferente atitude para com o património local, a desenvolver um certo sentimento de protecção em relação a ele. Nas últimas décadas o património local, tem assim, sofrido uma valorização crescente, fruto dessa nova atitude global, de preservação do património. Assim como o património nacional, o património local é imprescindível nesse encontrar de identidade, cada vez mais necessária num mundo tão global.

A crescente valorização dada ao património local obriga, contudo, a uma profunda reflexão sobre a sua preservação. De facto, o reconhecimento da sua importância, a decisão ou não da sua preservação (para além da simples memória), a sua reabilitação e sua necessária rentabilização, são questões cada vez mais presentes no seio das comunidades locais, obrigadas a reflectir sobre a sua história, sobre o seu património e também, indiscutivelmente, sobre o seu futuro, uma vez que, em muitos casos, para não dizer quase sempre, as populações se vêem obrigadas a optar entre preservar a memória física do seu património, e a “modernização”/ rentabilização das suas terras, ligada muitas vezes à criação de novos empregos e ao desenvolvimento económico dessas regiões. O património e a cultura não são ainda, muitas vezes, vistos como mais-valias, também do ponto de vista económico.

O “salvamento” do património, reconhecido como importante pela população e pelas autarquias passa pois, pela sua adequada preservação e reutilização. De facto, nas últimas décadas, o processo de revitalização e de reutilização do património cultural tem vindo a beneficiar de um movimento de reapropriação do passado, que engloba a redescoberta de uma região a partir da sua patrimonialização432

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SILVA, Ana Paulo Alves dos Santos, O Património Cultural do Concelho de Odivelas, Uma Herança Urbana a Preservar, (Tese de Mestrado), FL, 2005, p.38

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tempo e no espaço do património arquitectónico (edificado) é condicional, sendo que enquanto uns desaparecem ou são destruídos, outros sobrevivem, extintos de funcionalidades e significados ou transformados e adaptados a novos usos433

O tema da reutilização, que passa, como é óbvio, pela sua integração na vida contemporânea, é algo complexo. Segundo Françoise Choay, “consistindo em reintroduzir um monumento desafectado no circuito das utilizações vivas, em arrancá-lo a um destino museológico, a reutilização é, sem dúvida, a forma mais paradoxal, audaciosa e difícil de valorização patrimonial. Como mostraram e repetiram sucessivamente Riegl e Giovannoni, o monumento é subtraído aos riscos da desafectação para ser exposto à usura e às usurpações da utilização. Atribuir-lhe novo destino é operação difícil e complexa, que não se deve fundar apenas sobre uma semelhança com o destino original. Esse destino deve, antes de tudo, ter em conta o estado material do edifício que, hoje em dia, exige ser apreciado em função do fluxo dos seus utilizadores potenciais.”

. A reutilização deve, contudo, deixar uma porta aberta para o passado através de uma musealização possível, com vista à manutenção da ligação com a memória, com o passado. Só assim os espaços acabam por ter justificação, pois de certa forma, explicam ao visitante a razão da sua existência na actualidade.

São muitos os espaços públicos, maiores ou menores, que nos dias de hoje percebem essa necessidade e, se não de uma forma muito institucional e elaborada, optam por deixar uma janela aberta para esse passado. Encaram o património e a história, como uma mais-valia, de que tiram proveito do ponto de vista económico e de prestígio.

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Idem, p.40

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CHOAY, Françoise, A Alegoria do Património, Lisboa, Edições 70, 2006, p.191

Para Choay, nos “edifícios pré-industriais”, “as verdadeiras dificuldades surgem logo que se trata de encontrar um destino para os antigos edifícios religiosos, cultuais ou conventuais, os antigos palácios, residências privadas, hospitais, casernas, cavalariças…que foram as obras-primas da arquitectura pré-industrial. As funções ditas culturais (museus, bibliotecas, instituições escolares e universitárias, fundações) entram em concorrência com as funções utilitárias, de prestígio (ministérios, sedes sociais, hotéis) ou correntes (escritórios, alojamentos, comércio) e os utilizadores públicos são substituídos pelo mercado privado. Contudo, em todos os casos, os trabalhos de organização das infra-estruturas exigem um domínio técnico particular e são, por vezes, de um custo dissuasivo. É por isso que a rentabilidade dos destinos é difícil de assegurar e a sua procura prevalece muitas vezes

177 sobre a da funcionalidade. Só subsistirá então uma concha esvaziada do seu conteúdo por «raspagem»: procedimento discutível se se trata de preservar a morfologia do tecido urbano. Procedimento inadmissível quando se resume ao sacrifício de estruturas e da decoração interior do edifício.”435

Um edifício com interesse local não tem, obrigatoriamente, de se transformar num museu. Deve contudo, sempre que possível, utilizar as suas mais-valias, histórico e/ou artísticas, na nova relação que estabelece com o novo público que o utiliza. A diversidade de tipologias de museus, a sua diversidade, facilita muitas vezes a adequação de espaços a essa função. De facto, definir Museu, nos dias de hoje não é tarefa fácil. Actualmente, museu é mais do que um lugar onde se armazenam, conservam e mostram diferentes obras e objectos do património.436 Não pode contentar- se com a mera exposição da obra, mas tem, igualmente, de ter em conta outros aspectos relacionados com o espaço, contexto expositivo, impacto social e político, fins científicos e culturais.437

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Idem, pp.192-193

436

FERNÁNDEZ, Luis Alonso, Introducción a la nueva museologia, Madrid, Arte e Música, Alianza Editorial, 1999, p.11.

437

HERNÁNDEZ, Francisca Hernández, Manual de Museología, Madrid, Ed. Sintesis (BIblioteconomia y Documentacion), 1998 p.275

Devendo ter como missão intervir socialmente, desempenhando um papel formativo, educativo, e social tão relevante quanto a sua dimensão e, sobretudo, quanto a sua inserção na sociedade a que pertence, o Museu é um repositório de memórias, que pode e deve ser utilizado, como porta privilegiada para arte, e para um conjunto de memórias colectivas, de objectos que ajudam a construir a História Local e que pode desempenhar um papel decisivo na consciencialização de um povo para a sua história e para o seu património. Simultaneamente, os novos museus procuram dar resposta às novas solicitações do público e os espaços são criados ou reformulados a pensar nelas. De facto, questões como as facilidades de acesso, a existência de espaços abertos multifunções, áreas de lazer, cafés e lojas, tentam dar resposta às necessidades actuais de bem-estar que a sociedade nos dias de hoje exige dos espaços públicos. Estas condições são actualmente essenciais, para os museus se tornarem mais apetecíveis e com isto, para mais facilmente se tornarem num centro importante, num ponto de encontro urbano, e até para se tornarem num ponto de desenvolvimento económico. Mesmo ao nível de museus de dimensões reduzidas, questões como estas são colocadas, uma vez que são essenciais para a sua (pelo menos parcial) auto-subsistência.

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A valorização de certo património, vem despertar muitas vezes as pessoas para a cultura e vem simultaneamente alertá-las para o papel activo que o cidadão comum pode ter na sua preservação. Sobretudo a nível local, essas situações são por demais reconhecidas.

A crescente consciencialização para o Património, um conceito que foi cada vez mais tomando conta do nosso universo prático, leva a uma crescente valorização do património local e com ela, ao reconhecimento da sua importância acompanhada da sua reabilitação e necessária rentabilização.

A recuperação de um imóvel, dotado de uma memória, imprimindo-lhe uma nova funcionalidade, deve pois, impreterivelmente, passar por uma gestão cuidada entre as funções de origem do edifício e os novos usos, adequados à envolvente, à população residente, assim como, às próprias potencialidades do edifício e às práticas e consumos que impõe.438 De facto, as potencialidades no imóvel (a envolvente paisagística, o valor patrimonial e os recursos para a população e turísticos), as potencialidades na envolvente (a fronteira territorial, a integração em rotas turísticas e recursos disponíveis), as debilidades do imóvel (necessidades de consolidação, reabilitação ou conservação nos espaços interiores ou exteriores, a inserção de todos os meios de sinalização) e as debilidades na envolvente (necessidade de evitar o impacto negativo de novas construções, reabilitar o tecido antigo do aglomerado e construções adjacentes), devem ser tomadas em conta na implementação de um projecto integrado de revitalização e reutilização patrimonial439. A sustentabilidade deve ter um peso importante em todo o processo. Deve haver um equilíbrio que permita, com a apropriação do espaço e da memória, uma boa integração entre as necessidades de conservação do imóvel e a criação de novas identidades, assim como com os interesses da população residente e das entidades locais440