3 Methods
3.8 Enzyme characterization
O estado de queda/alienação é um estado de contradição da estrutura essencial da criação e, por conseguinte, de autocontradição e autodestruição. Mas a destruição não tem uma posição independente no real, apoiando-se, tal qual um “câncer”, na própria estrutura que é negada. Assim, o mal deve ser descrito a partir de sua “presença” ou “atuação” ao longo das estruturas ontológicas.
Em primeiro lugar, a alienação atinge a estrutura ontológica básica do ser finito, que é a polaridade eu-mundo, ao tornar possível que o ser humano perca a si mesmo e a seu mundo. A perda do eu é a desintegração da unidade pessoal, que acontece quando o eu finito tenta ser o centro de tudo e acaba por deixar de ser o centro de qualquer coisa (TS:355). Em segundo lugar, a alienação atinge as três polaridades ontológicas. Assim ela rompe o equilíbrio entre liberdade e destino, transformando a liberdade em arbitrariedade e o destino em escravidão e anulação final da liberdade (TS:356,357), separa dinâmica e forma, de modo que a dinâmica cai sob a “tentação do novo” tornando-se uma busca informe e destrutiva de autotranscendência, e a forma, sem dinâmica, torna-se heteronômica. Finalmente, separa individualização e participação, subjetividade e objetividade, fechando-se para o que é diferente de si, e tornando-se, também, um mero objeto.
Em terceiro lugar, a alienação atinge a finitude e suas estruturas. A finitude, em Tillich, é “o ser limitado pelo não ser”. A finitude é a condição de criatura, incompreensível sem o conceito do não-ser dialético, que Tillich desenvolve no volume I de sua Sistemática. No cristianismo não há, em princípio, a matéria meôntica do platonismo, em razão de sua doutrina de criação ex-nihilo. Mas Tillich indica que é impossível deixar uma noção de não-ser, e se não há um princípio negativo fora de Deus, tal negatividade dialética deve se originar nele mesmo. Mas ela é encontrada, positivamente, na existência, na qual “[...] tudo o que participa do poder de ser está ‘mesclado’ com o não-ser” (TS:198).
Qual é a relação entre finitude e alienação? Segundo Tillich, a mortalidade é simplesmente a situação natural do homem, em sua finitude. Em si mesma, a finitude é essencial; mas no estado de alienação ela se torna mal existencial. A angústia da morte, ligada à finitude essencial se torna, na alienação existencial, uma estrutura de destruição, que faz o homem desesperar-se. Tillich enfatiza a importância de distinguir- se finitude e alienação, a partir da diferença essência/existência (TS:361): “A estrutura da finitude é boa em si mesma, mas sob as condições da alienação se converte numa estrutura de destruição” (TS:364). A finitude torna possível a ruptura das estruturas essenciais da vida:
A finitude é a possibilidade de perder a própria estrutura ontológica e, com ela, o próprio eu. Mas isso é uma possibilidade, não uma necessidade. Ser finito é estar ameaçado. Mas uma ameaça é uma possibilidade, não uma realidade. A angústia da finitude não é o desespero da autodestruição. O cristianismo vê na imagem de Jesus como o Cristo uma vida humana em que estão presentes todas as formas de angústia, mas de que estão ausentes todas as formas de desespero. À luz desta imagem, é possível distinguir a finitude ‘essencial’ da ruptura ‘existencial’, a angústia ontológica da angústia de culpa, que é desespero (TS:210).
As categorias da finitude – tempo, espaço, causalidade e substância – são a estrutura da totalidade da criação, como ser essencial. Elas expressam a unidade do ser e
do não-ser nos seres finitos, mas tem sua função alterada sob as condições da existência. A angústia causada por essas categorias pode ser dominada pela coragem, mas no estado de alienação elas assumem o controle produzindo resistência e desespero (TS:362). Assim a resistência à temporalidade torna o tempo uma estrutura demoníaca de destruição, para o homem. O mesmo ocorre com a angústia de perder-se o espaço, de ter poder de causar e de manter a própria substância. A relação com cada categoria é distorcida.
Tillich discute dois exemplos das conseqüências da transformação das categorias da finitude na alienação existencial: o sofrimento e a solidão. O sofrimento seria, a princípio, um elemento da finitude, mas sob as condições da existência se torna destrutivo para a pessoa. A salvação significa aqui a aceitação do sofrimento como parte da finitude, através da coragem (TS:363). O mesmo ocorre com a solidão: há uma solitude essencial e uma solidão existencial, que é a distorção da solitude essencial.
A dúvida também tem sua realidade essencial, expressa na ciência e na incerteza natural do homem sobre si mesmo e sobre o mundo. Pois a verdade é o “todo”, e nenhum homem tem o “todo”. Essa dúvida essencial faz parte da bondade do ser criado (TS:366), mas se torna uma estrutura de destruição existencial quando a realidade última é excluída do horizonte da pessoa, sob o estado de alienação, e a dúvida se torna absoluta, aprisionando o ser humano no desespero.
Segundo Tillich não há uma diferença total entre pecado e mal. Há um elemento de responsabilidade e um elemento de universalidade trágica. Assim, “A diferença entre ambos os termos é mais de enfoque do que de conteúdo” (TIS:367). As estruturas do mal – estruturas de destruição – seriam, na opinião de Tillich, parte da estrutura da existência; “[...] a alienação é uma qualidade da estrutura da existência” (TS:367). Essas estruturas não seriam meramente realidades historicamente condicionadas, mas
verdadeiras estruturas. É falacioso, portanto, aceitar análises da condição humana que relacionam o mal à estrutura temporal da sociedade industrial, por exemplo, e todas essas formas de compreensão utópica do homem, que acreditam na possibilidade de alterar a condição existencial do homem por meio de transformações sociais (TS:367).
O efeito da transformação das estruturas da finitude em estruturas do mal é o desespero, que é mais do que um problema ético ou psicológico, marcando o fim de todas as possibilidades humanas. O desejo de repouso sem conflito seria um impulso suicida que está diluído no todo da vida, pela consciência da intevitabilidade do fim. A consumação do suicídio encerra o desespero, no nível temporal, mas fracassa na dimensão do eterno, segundo Tillich (TS:369). Os símbolos da ira de Deus e da condenação expressam exatamente a experiência do desespero. Mas revelam, simultaneamente, a unidade indissolúvel do homem com seu fundamento divino desde que a destruição do ente que se separa de Deus é a destruição dessa separação, enfim. “O amor divino se opõe a tudo aquilo que contradiz o amor, abandonando-o à sua própria autodestruição, para salvar aqueles que são destruídos [...] esta é a única forma em que o amor pode operar naquele que rejeita o amor” (TS:370). Seguindo Lutero, Tillich ressalta que o rosto divino assume traços demoníacos para os que se mantêm alienados dele, mas o seu rosto ainda é o mesmo para aqueles que respondem ao seu amor de forma pessoal.