• No results found

Environments for suboptimal production

1. Suboptimal production solutions and volumes of oil

1.3. Environments for suboptimal production

Filme: Num ano de 13 luas

Sujeito transgressor Erwin/Elvira

Relevância dentro do conteúdo diegético Protagonista

Profissão Ex-açougueiro

ELEMENTOS ESTÁTICOS

Característica física Rosto bruto e traços marcantes, como o expressivo

maxilar.

Vestuário

Ao mesmo tempo que veste vestidos de senhora (comportados e maternais), também utiliza ternos e roupas sociais masculinas.

Tipo de ambiente Maior parte da ação se passa em ambientes internos

e fechados.

Cenário Escuro, sombrio e referências ao sobrenatural.

Cor predominante Tons terrosos, como marrom, bege e amarelo.

ELEMENTOS DINÂMICOS

Gestual Feminilizado.

Expressões linguísticas de destaque

O nome “Bergen-Belsen”, a senha para encontrar a sua grande paixão, é o nome de um campo de concentração da Alemanha nazista de Hitler.

Papel da personagem Retrato melancólico, desesperançoso.

O que acontece com a personagem

Abandonada pelo namorado, Elvira repensa sua vida. Pesquisa a sua infância e por fim visita o grande amor da sua vida, Anton, para pedir-lhe perdão. Humilhada novamente, ela busca redenção na morte.

Principais simbologias O edifício em que Anton trabalha representa cenas

de céu e inferno.

Movimentos de câmera de destaque

Uma cena de abate de gado no antigo emprego de Elvira impacta pelo contraste entre a tranquila fluidez e as imagens aflitivas e sanguinárias.

Filme: A lei do desejo

Sujeito transgressor Tina

Relevância no conteúdo diegético Protagonista

Profissão Atriz

ELEMENTOS ESTÁTICOS

Característica física Maquiagem carregada e acessórios exuberantes.

Vestuário Vestidos coloridos que acentuam sua figura feminina

por meio de decotes e diferentes comprimentos.

Tipo de ambiente

Majoritariamente ligado a espaços de entretenimento, como restaurantes, bares e, principalmente, teatro, com sequências na coxia, plateia e palco.

Cenário

Colorido, vários itens em vermelho. Destaque para uma parede repleta de velas e estátuas de santos que exaltam o compromisso religioso.

Cor predominante Vermelho.

ELEMENTOS DINÂMICOS

Gestual Feminilizado, exceto quando questionam seu passado

(como se perdesse controle de si).

Expressões linguísticas de destaque

A música “Ne me quitte pas” embala a cena de desespero que Tina entrega à sua personagem na peça que está participando.

Papel da personagem Irmã carente do personagem protagonista.

O que acontece com a personagem

Contratada pelo irmão para atuar em uma de suas produções. Depois de um grave acidente, ela o ajuda a recuperar sua memória e se envolve inconscientemente em um triângulo amoroso.

Principais simbologias A trama se inicia após o abrir de cortinas e a projeção

de “Fin” de uma sessão de cinema.

Movimentos de câmera de destaque

A câmera estática que evita cortes dá ao filme um tom teatral, aproximando-o das peças e profissões das personagens.

Filme: Tirésia

Sujeito transgressor Tirésia

Relevância dentro do conteúdo diegético Protagonista

Profissão Prostituta

ELEMENTOS ESTÁTICOS

Característica física Se apresenta como mulher durante a primeira parte

do filme, e como homem na segunda parte.

Vestuário

Vestido preto (que a assemelha a uma pintura mencionada no filme) durante a primeira parte, e uma túnica marrom (que o assemelha a um apóstolo/ figura religiosa) durante a segunda.

Tipo de ambiente Interior com pouca iluminação (sensação de

claustrofobia).

Cenário Escuro, sombrio e monotemático (referências a

animais e hábitos noturnos).

Cor predominante Preto e verde.

ELEMENTOS DINÂMICOS

Gestual Feminilizado.

Expressões linguísticas de destaque

Música “Teresinha de Jesus” cantada pelo personagem em momentos de introspecção.

Papel da personagem Vítima que se transforma em mártir.

O que acontece com a personagem

Prostituta é sequestrada e mantida em cativeiro. Enquanto refém, o personagem é agredido, tem seus olhos dilacerados e depois é jogado em um local isolado. É resgatado por uma jovem e descobre possuir poderes de vidência, pelos quais se assume como um profeta.

Principais simbologias Cenas de lava de vulcão e porco-espinho que são

signos de transformação e transitoriedade.

Movimentos de câmera de destaque

Em uma angulação específica, o rosto sangrando da personagem após acidente a aproxima de Jesus Cristo com a coroa de espinhos.

Filme: Laurence para sempre

Sujeito transgressor Laurence Alia

Relevância dentro do conteúdo diegético Protagonista

Profissão Professor

ELEMENTOS ESTÁTICOS

Característica física Cabelo raspado.

Vestuário Mistura itens do vestuário feminino com o vestuário

masculino.

Tipo de ambiente

Múltiplas locações: mansões e casebres, escolas e sets de filmagem, ambientes internos e externos, etc.

Cenário Cômodos bem mobiliados, decoração típica dos

anos 1980.

Cor predominante Cores primárias: azul (Laurence), vermelho (Fred),

amarelo (a ausência entre eles).

ELEMENTOS DINÂMICOS

Gestual Começa masculino e se “feminiza”.

Expressões linguísticas de destaque

Os versos de um poema: Na casa de tijolos brancos, pintamos um deles de rosa para espantar o tédio.

Papel da personagem Um professor heterossexual que assume ser uma

transexual lésbica.

O que acontece com a personagem

Após iniciar a transição, é demitida da escola em que trabalha e termina o namoro. No fim, ela consegue publicar vários livros e, ao reencontrar a parceira, frustra-se com o tanto ela mudou.

Principais simbologias Referências e comparações com peças de roupa.

Movimentos de câmera de destaque

Sequências em slow-motion com uma forte trilha- sonora acompanhando, como em um videoclipe.

CONCLUSÃO

   

Neste trabalho, percorremos uma linha histórica de filmes que apresentaram tipos de transgressão da heteronormatividade, num arco de acontecimentos que foi das vamps, melindrosas e femmes fatales, até as heroínas de filmes direcionados para o público infantil. Seja na forma de mulheres que questionam convenções sociais, como as amigas Thelma e Louise; na forma de homens que agem contra o sistema vigente na época, como o impotente James Stewart em Janela indiscreta e Um corpo que cai; ou mesmo na forma de figuras chocantes para o público da época, como o cross dresser Ed Wood ou a incorrigível drag queen Divine de Pink Flamingos.

  Dentre os diferentes perfis de transgressão, selecionamos aqui quatro obras de diretores conhecidos por sua rebeldia criativa. Cineastas que se envolveram em importantes movimentos cinematográficos, que possuem uma estética particular e que conceberam importantes personagens que desafiam a heteronormatividade. A escolha de tais diretores se justifica também em uma intenção de recorte temporal, uma vez que cada diretor representa uma década diferente, e geográfico, pois cada diretor vem de um país diferente do outro.

O exame desses sujeitos transgressores deixou-nos perceber certas dominâncias nessas figuras desviantes. Primeiramente, temos a alemã Elvira. Seus brutos traços físicos contrastam com a delicadeza das roupas que veste. Elvira anteriormente foi Erwin, um rapaz que decidiu trocar de sexo não por questão de identidade, mas para agradar seu objeto de desejo que só a teria para si se Erwin fosse uma mulher. No fim, depois de sofrer uma série de infortúnios, ela busca liberdade e redenção na morte. Elvira é uma personagem de cuja infelicidade podemos dizer que é trágica.

Em seguida temos Tina, uma explosão espanhola de cores, exuberância e vigor. Assim como Elvira, Tina também mudou de sexo a mando de seu amado, mas ao contrário da alemã Tina, soube se adaptar. Após colecionar fracassos amorosos, ela ainda assim manteve sua visão esperançosa de um novo futuro afetivo ao final do filme. Tina é uma personagem carente, paranoica e crédula.

Tirésia, a travesti prostituta brasileira, é vítima de uma tragédia criminosa de tonalidade mitológica. A garota deixa de viver como uma mulher para assumir dons de

profeta. A mulher delicada e elegante da primeira parte do filme se transforma em um homem, sujeito religioso da igreja. Sua paleta de cores monocromática permanece a mesma. Tirésia é uma personagem enigmática, plácida e reflexiva.

A última delas é Laurence, a professora francesa e questionadora. Usando clipes como unhas, longos e pesados brincos e uma cabeça raspada, Laurence engata uma série de conflitos com sua parceira num filme que, mesmo em uma linguagem moderna e fluida, presta homenagem aos grandes clássicos do passado. Laurence é uma personagem provocadora, incessante e contraditória.

Em suma, em todos os casos, pudemos confirmar a hipótese de que a partilha do masculino e do feminino não está no corpo biológico, mas reside no código cultural, na convenção, na representação. Nada se agarrou à natureza, mas a constructos socioculturais.

BIBLIOGRAFIA

AARON, Michelle (Org.). New Queer Cinema: a critical reader. New Jersey: Edinburgh University Press, 2004.

BAECQUE, Antoine de. Cinefilia: invenção de um olhar, história de uma cultura, 1944-

1968. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

BAER, Harry. Posso dormir quando estiver morto: a vida sufocante de Rainer Werner

Fassbinder. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência

transexual. Rio de Janeiro, Garamond, 2006.

BERGAN, Ronald. ...Ismos: para entender o cinema. São Paulo: Editora Globo, 2010

BJÖRKMAN, Stig. O cinema segundo Bergman; entrevistas concedidas a Stig Björkman,

Torsten Manns e Jonas Sima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

BRANCO, Lucia Castello. Olhem para ela: a primavera chegou (notas sobre Monika e o desejo, de Ingmar Bergman). Ingmar Bergman, Rio de Janeiro: Jurubeba Produções, ed. 1, p. 64-68, 2012.

BUTLER, Judith. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del

“sexo”. Buenos Aires, Paidós, 2002 [Versão em espanhol de Bodies that matter: on the discursive limits of sex. New York: Routledge, 1998]

CRAIG, Rob. Ed Wood, mad genius: a critical study of the films. North Carolina: McFarland & Company Inc., 2009.

DE LAURETIS, Teresa. Alice doesn’t: feminism, semiotics and cinema. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

______. Aesthetic and feminist theory: rethinking women’s cinema. New German

Critique. n. 34. 163. 1985.

DOANE, Mary Ann. Film and the Masquerade: Theorizing the Female Spectator. In: SCREEN. Sexual Subjects: a Screen Reader in Sexuality. London: Routledge, 1992. p. 227-243.

DIXON, Wheeler. A short history of film. New Jersey: Rutgers University Press, 2008.

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo e Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

DROGUETT, Juan Guillermo D (Org.). O desejo em cena: ensaios de estética

filmográfica contemporânea. Curitiba: CRV, 2012.

GARCIA, José Carlos. Problemáticas da identidade sexual. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

JAMESON, Frederic. A virada cultural: reflexões sobre o pós-modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

JARDIM, Lúcia. França retira transexualidade de lista de doenças mentais. Paris, 2009. Disponível em: <  http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3772201-EI8142,00-

Franca+retira+transexualidade+de+lista+de+doencas+mentais.html >. Acesso em: 20/03/2015

JULLIER, Laurent & MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo, SP: Editora Senac São Paulo, 2009.

KATZ, Robert. O amor é mais frio do que a morte: a vida e o tempo de Rainer Werner

Fassbinder, São Paulo: Editora Brasiliense, 1992.

KEMP, Philip (Org.). Tudo sobre cinema. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

MARIE, Michel. A nouvelle vague e Godard. Campinas: Papirus Editora, 2009.

MARQUES, Silvia. O cinema da paixão: cultura espanhola nas telas. São Paulo: Giostri Editora, 2013

MODLESKI, Tania. The women who knew too much: Hitchcock and feminist theory. New York: Routledge, 2005.

MORENO, Antônio. A personagem homossexual no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: EdUFF, 2002.

MUCCI, Latuf Isaias. O mito de Tirésias revisitado: ética e estética na ótica do cinema.

MULVEY, Laura. Visual and other pleasures. Indiana: Indiana University Press, 1989.

PAGLIA, Camille. The Birds. London: The British Film Institute Publishing, 1998.

PRADO, José Luiz Aidar. Convocações biopolíticas dos dispositivos comunicacionais. São Paulo: EDUC: FAPESP, 2013.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2011.

STRAUSS, Frédéric. Conversas com Almodóvar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.