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5. Influence of stakeholders and importance of motivations

5.1 Environmental stakeholders

Com a preocupação de resgatar o começo do processo de instituição da parceria público-privada no Campus Universitário de Marabá com a Companhia Vale, aponta-se como ponto de partida o resgate da memória dos docentes do Campus. Fazer isso requer não apenas uma incursão na trajetória política e histórica de cada profissional, há que recuperarmos elementos históricos apresentados no capítulo anterior com o intuito de aprofundar as análises.

O poder de rememorar possui uma catártica de reconciliação com o passado. Entre as memórias recolhidas, há as que se entrecruzam lentamente, em um recorte chamado tecido social, que se encontram e demarcam o lugar dos sujeitos. As memórias desses docentes são vidas marcadas e demarcadas por trajetórias pessoais, políticas, profissionais e acadêmicas, as quais agora são transcritas em teias sociais, em experiências e falas entrecruzadas sobre a universidade.

Aos poucos as memórias individuais vão se transformando em memórias coletivas. Então, entremeando-nos entre elas, encontram-se as vozes na voz do outro. Tudo isso tem um significado de (com)partilhar as experiências e conhecer os limites da formação acadêmica, o engajamento e as práticas sociais e educativas nos percursos coletivos e individuais.

Falar e escrever sobre a memória docente do Campus Universitário de Marabá exige o resgate de outras memórias mais particulares, da resistência e silenciamento que houve durante o período de 2001 a 2003; “[...] escrever não é apenas um desabafo, é uma

vivência que muda” (BARON, 2000, p. 57). Assim, desejamos “[...] salientar que o ato de

recordar como o de esquecer ocorre devido a manipulações que podem ser conscientes ou inconscientes, elaboradas na estrutura psicológica do sujeito afetado por fatores como afetividade, interesse, desejo, censura ou inibição” (SOUZA, 2003, p. 91). Nesse sentido, apresenta-se a memória docente coletiva do Campus, através de narrativas contínuas e descontínuas que compõem a história da UFPA em Marabá.

É importante resgatarmos desta memória coletiva a partir do ano de 2003, início do processo de constituição da parceria entre o Campus Universitário de Marabá e a Companhia Vale, momento que um grupo de professores se colocou contrário aos princípios fundantes do convênio por não ter participado da negociação. Mesmo após os procedimentos legais, não houve debates que aglutinassem professores e estudantes.

A resistência a essa parceria, por parte de alguns professores, estendeu-se até o ano de 200455, quando o grupo construiu uma proposta para a nova gestão administrativa,

disputando nesse período a coordenação do Campus, vencida pelo coordenador interino. Nesse percurso de disputas política e ideológica, o processo de construção do novo prédio acadêmico financiado pela Vale caminhava a todo vapor. Havia expectativa dos estudantes e da população marabaense em relação a esses cursos promissores; acreditavam que teriam acesso a eles e alcançariam a tão sonhada ascensão social.

Segundo os professores, essa realidade não ocorreu, como se esperava. O Campus II tornou-se espaço tecnológico com professores doutores, que iniciaram suas atividades docentes ainda com algumas precariedades estruturais: ausência de internet, rede telefônica, iluminação pública, sala de professores, laboratórios e infra-estrutura física adequada. Ainda hoje, a insatisfação dos novos professores é constante nas reuniões colegiadas. Nesse período o Conselho Universitário do Campus ficou inoperante, e os conselheiros só reuniam em situações especiais e emergenciais.

É preciso considerar que:

[...] há uma relação entre Universidade e sociedade, mais ampla, mais profunda, que não se esgota no fornecimento de tecnologia ou no apoio de alguma espécie ao setor empresarial. E isso dizemos sem nenhum preconceito contra as empresas, que são

fator indispensável para a vida econômica de um país. A questão é apenas que as relações entre academia e a sociedade são mais variadas, mais abrangentes, e a nosso ver deve centrar-se, acima de tudo, nos tópicos que dizem respeito à cidadania (RIBEIRO, apud SANTOS, 1999, p. 12).

Além de cursos tecnológicos de ponta, foram criados os cursos de Agronomia, Letras e Pedagogia, em parceria com o movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST) e a Federação de Trabalhadores da Agricultura (FETAGRI)56.

Esses novos convênios colocam em xeque a parceria público-privada como única alternativa de fortalecimento dos cursos de graduação nas universidades públicas, mostrando que há grandes possibilidades de parceria com o setor público e outras organizações da sociedade.

Se atribuirmos, portanto as pequenas transgressões cotidianas suas possibilidades e potenciais emancipatórios, e sabemos que podemos redesenhar o nosso mundo por meio de novas práticas, mais fraternas, mais solidárias e autônomas (...). A transformação social é tecida cotidianamente, nas práticas subversivas que somos capazes de desenvolver, nos espaços que tecemos dentro do lugar do poder, do uso que fazemos de suas normas regulatórias (OLIVEIRA, 2002, pp. 40-44).

As pequenas “transgressões”57 realizadas no interior da universidade são

possibilidades de construção de práticas educativas mais solidárias, que reconhecem a complexidade da região e assumem compromissos com a população pauperizada e excluída, no sentido de buscar estratégias de superação da condição desumana as quais tem sido historicamente submetida parte dos marabaenses.

Relembrar a construção desse processo é importante para demarcar as diferentes visões acerca da universidade no cotidiano acadêmico. Nisso, diríamos que a tarefa de rememorar está associada ao resgate mais profundo da crença na mudança, no novo e em uma sociedade mais fraterna, em que a universidade tenha papel decisivo em estabelecer novos paradigmas para a contemporaneidade.

É nesse terreno da memória que se sustentam categorias como paixão, prazer, desejo, esforço, vontade, fé resistência coragem e muitas outras que se entrelaçam na complexidade da existência humana. Ao mesmo tempo, a memória, fruto da subjetividade de cada um, dos sonhos almejados e perdidos que se arquivam nos

56 A partir das experiências com os movimentos sociais de luta pela terra na região, foi criado em 2009, o curso

de licenciatura em Educação do Campo.

57 Referem-se às ações de professores, técnicos e estudantes que desenvolvem projetos de pesquisa, ensino e

sótãos empoeirados de uma longa existência, possibilita desvios de interpretações equivocadas dependentes da vida que se viveu e do êxito ou malogro das experiências (ALMEIDA, 1998, p. 53).

Neste processo um grupo de dirigentes e professores participantes das negociações com a Vale não aceitou as imposições gerais da empresa, que naquele momento queria apenas financiar o curso de Engenharia de Minas, para formar mineiros e atender às suas necessidades de mão-de-obra qualificada. O grupo que negociava exigiu a criação dos cursos de Geologia e Engenharia de Materiais e Meio Ambiente com o objetivo de verticalizar a cadeia produtiva, não apenas exportar a matéria prima in natura, como a empresa tem feito há anos na região.

A postura de não aceitação da lógica privatista da Vale ganhava adesão dos professores que defendiam que a parceria não poderia trazer prejuízos acadêmicos e científicos para os cursos ofertados no Campus, mas contribuir para o desenvolvimento da universidade e da região.

Assim, o movimento docente do Campus de Marabá deu importantes contribuições, no período de 2003 a 2005, para a reestruturação de projetos voltados à realidade regional e à superação das contradições históricas impostas à população camponesa do sudeste do Pará. Contudo, no período de 2006 a 2007, vimos um franco declínio desse movimento, gerado pelo que julgamos ser o esquecimento e o silenciamento, tanto dos docentes, quanto dos alunos na universidade.

Assim, desejo salientar que o ato de recordar como o de esquecer ocorre devido a manipulações que podemos ser conscientes ou inconscientes, elaborados na estrutura psicológica do sujeito afetado por fatores como afetividade, interesse, desejo, censura ou inibição” (SOUZA, 2003, p. 91).

Muitos professores envolvidos nas práticas educativas emancipatórias, sentiram a falta do reconhecimento de seus engajamentos político e educativo na luta pela universidade pública, a rápida reconfiguração dos contextos político e organizacional do Campus de Marabá, uma vez que as licenciaturas não eram majoritárias no debate acadêmico, cedendo espaço ao crescente desenvolvimento dos cursos tecnológicos.

Com a ampliação da oferta de vagas e da realização de várias especializações, os novos cursos tornaram-se prioritários em virtude da qualificação/titulação docente, além da maior facilidade na captação de recursos para financiamento de projetos.

consolidação dos cursos tecnológicos, sentiu-se certo esvaziamento dos cursos de licenciatura, tanto do ponto de vista acadêmico, quanto da participação. O movimento estudantil acabou em certa medida, centrando-se em questões pontuais ligadas aos seus cursos de graduação e perdendo de vista o conjunto das questões que afetam a vida acadêmica.

Vale ressaltar que, isso não é provocado simplesmente pela implantação dos cursos tecnológicos, mas fruto de uma conjuntura que acentua a desvalorização do serviço público e da atividade docente nos vários níveis de ensino.

A estrutura física e os recursos tecnológicos do Campus II, onde funcionam os cursos de Engenharia de Minas e Meio Ambiente, Engenharia de Materiais, Geologia, Agronomia e Química superam as condições precárias do Campus I58, onde estão localizados

a maioria dos cursos de licenciatura como Matemática, Letras, Ciências Sociais e alguns bacharelados, como Direto e Sistema de Informação.

Do ponto de vista didático-acadêmico, os cursos tecnológicos concentram número maior de doutores em relação aos outros cursos, decorrente da exigência de titulação de doutor nessas áreas pelas de fomento no Brasil (CAPES e CNPq).

Professores doutores conseguem captar mais recursos que os professores mestres. Dessa forma, abre-se um fosso entre as áreas de tecnologia e licenciatura; quanto mais projetos voltados ao desenvolvimento tecnológico, maior será a qualidade dos cursos de graduação e o investimento no campo da pesquisa. Aos outros docentes restam alguns projetos da própria instituição, a partir dos quais podem captar parcos recursos para financiar suas pesquisas.

No campo da iniciação científica, os financiamentos são exclusivos para o fomento da pesquisa dos alunos, como observado no Projeto de Integração de Ensino, Pesquisa e Extensão (PROINT) e no Projeto Institucional de Bolsa de Iniciação científica (PIBIC).

A precarização do trabalho docente e das condições estruturais da universidade aparecem como um dos sintomas crescentes, talvez por isso que para alguns professores, fosse necessário o aceite da parceria público-privada como única alternativa de mudanças nas condições de trabalho e no oferecimento de oportunidade de realização de pesquisas.

58 Referimo-nos aos anos de 2003 e 2004, uma vez que, posteriormente uma reforma estrutural no Campus I,

O aparecimento desses sintomas apresenta um movimento que desenvolve duas estratégias claras que fazem parte desse desafio a ser enfrentado pelos educadores. A primeira a destituição do espaço público educativo, concretizada na redução drástica de recursos para educação [...]. A segunda, novos vínculos entre sujeitos, unidos agora mediante programas de controle, aparece sob a forma de controle de qualidade (total) da educação e na avaliação da eficiência do processo educativo (FALEIROS, 2002, p. 174).

Dentro desse processo de aceitação da lógica imposta pela precarização das condições de trabalho na universidade, encontra-se o esquecimento docente sobre o que lhe afetava e lhe afeta a vida acadêmica. Essa perda está marcada pela dificuldade de articular os projetos presentes com os projetos passados. Para alguns professores e alunos a luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade faz parte de uma história antiga e distante do presente. Consideramos equivocada a proposição de estarem vencidos pelas condições históricas impostas pela lógica capitalista de educação e formação profissional. Muitos educadores defendem um projeto democrático de universidade pública.

As pressões por produtividade fazem com que os professores destituam-se da sua memória educativa e militante, de seus desejos, paixões e princípios, convencendo-se de que agora, para salvar a universidade dos ventos neoliberais é preciso curvar-se à lógica das parcerias público-privadas, como garantia da continuidade do ensino, pesquisa e extensão na universidade. Entretanto, ao assumir essa bandeira, corre-se o risco de realizar a reflexão acrítica acerca da realidade universitária, ao invés de construir possibilidades de mudanças.

O sentimento de apatia que tem atingido os professores universitários tem guarida na multiplicação do “discurso” privatista que desvaloriza o serviço público. Estamos em meio a um processo de desconstrução da esfera pública no país, da valorização e incentivo do setor privatista na educação. Tem sido comum o governo federal oferecer às instituições de ensino privado algum tipo de fomento e estímulo para ampliar sua oferta de vagas para os chamados “estudantes pobres”59. Os incentivos vão da isenção de impostos à injeção de crédito

estudantil revertido em moeda real para essas instituições60.

No caso do Campus Universitário de Marabá, destaca-se em 200861 a retomada do processo de diálogo democrático entre academia e sociedade civil em torno dos projetos de

59 Como, por exemplo, o PROUNI; não se tem nesse estudo o objetivo de analisá-lo, mas vale ressaltar que está

em curso e fortaleceu o mercado do ensino superior privado. 60

Embora a educação superior no Brasil tenha conquistado avanços significativos no campo da ciência e da tecnologia, nesse último século acabamos direcionados a um paradigma produtivo e privatista, que visa contribuir com os aspectos econômicos impostos pelo capitalismo monopolista, introduzido no país através dos princípios da economia mundial globalizada.

universidade para a região, com a proximidade das novas eleições para a coordenação do Campus. Para disputar as eleições, o então coordenador no fim de seu mandato pediu afastamento do cargo para a disputa do pleito, tendo nomeado o secretário executivo para gerir o Campus. Tal decisão não foi aprovada pelo Conselho, que retomou com mais assiduidade suas funções, abriu debates em torno da nomeação de um coordenador interino para conduzir o processo eleitoral. Porém, após inúmeras discussões, deliberou-se que o decano assumiria a tarefa até o fim do processo eleitoral.

Durante a disputa as chapas nomeadas foram impugnadas por não atenderem às exigências do regimento eleitoral. Anulado o processo inicial, iniciou um debate em torno da sucessão da coordenação do Campus. Tal processo durou oito meses, apesar da movimentação de professores e estudantes para agilizar a eleição.

Apesar da pouca mobilização, novos e antigos grupos aproveitaram o momento fértil da vida política no Campus para se recompor. O grupo que havia participado na condição de oposição em eleições anteriores lançou a candidatura de professores da oposição, com apoio dos estudantes, das faculdades e dos técnicos administrativos.

Neste contexto, o coordenador atual não pôde disputar as eleições para o segundo mandato, por não ser lotado no Campus Universitário de Marabá. Teve sua portaria de remoção para o Campus Universitário de Marabá assinada pelo Pró-Reitor de Planejamento e revogada posteriormente pelo Reitor.

A disputa ficou entre dois grupos de candidatos, sendo a chapa composta pelos professores Hildete Pereira e Fernando Michelloti eleita pelo sufrágio universal com mais de

80% dos votos da comunidade acadêmica. Instaurou-se um novo clima no Campus com a

chegada dos novos gestores, relações passaram a ser construídas ou retomadas com a possibilidade de discussão da participação na universidade.

O Campus Universitário de Marabá começa o ano de 2009 com um novo modelo de gestão institucional, baseado no diálogo, na cooperação e no planejamento participativo. Os novos gestores iniciaram o trabalho contando com mais professores efetivos e técnicos administrativos, o que possibilitou a melhoria da qualidade do ensino nas diversas faculdades62. O processo eleitoral significou uma retomada da participação do coletivo nas

decisões. Diante de atitudes democráticas os sujeitos se sentem envolvidos em ações colaborativas e emancipatórias; ele representa a retomada da memória: o presente e o futuro carregados de possibilidades.

62 Informações contidas nas atas do ano de 2008 referentes à sucessão da coordenação do Campus Universitário

CAPÍTULO 4

A PARCERIA PÚBLICO/PRIVADO ENTRE O CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE