5. Presentation of the data
6.1.2 Environmental and climate plan of 2010
O homem, até há pouco tempo, manteve-se afastado dos interesses da investigação sociológica. Só nos finais do século passado é que surgiram trabalhos voltados para o homem, para a sua perceção da tensão trabalho-família (Crompton, 1999) e para a transformação do seu papel e dos modelos tradicionais de masculinidade e paternidade (Brod e Kaufman, 1994; Amâncio, 1994; Almeida, 1995). Estes primeiros trabalhos inseriam-se no âmbito dos estudos sobre o género e deram início a teorizações sobre a questão da masculinidade “natural”. De facto, a masculinidade hegemónica de Connel (1987, 1995) sofreu transformações dando lugar a um ideal de homem familializado cuja função é a de proteger, sustentar e cuidar da família.
Os primeiros estudos que se desenvolveram em torno da temática da masculinidade e do papel dos homens na família e na sociedade foram desenvolvidos num contexto de perspetivas teóricas “anti-feministas” enquanto forma de reagir a grupos feministas. Com a abertura de um campo teórico de debate, o principal objetivo desta corrente foi o de voltar a colocar o homem no centro das políticas e da sociedade. Com isto, surgem vários movimentos de defesa do homem fazendo a apologia do tradicionalismo de género. Uma das teorias com intuito anti-feminista foi a desenvolvida por Robert Bly, o Mytho-petic Mouvement. Bly postulava a forte participação dos homens na educação dos filhos, domínio tradicionalmente feminino, com o objetivo destes se tornassem referências na sua infância e adolescência e, com isso, masculinizar a sua educação e educação. Segundo este a falta de referências masculinas na infância e adolescência dos homens coloca entraves ao desenvolvimento da masculinidade e só um maior envolvimento dos homens nos cuidados e educação dos filhos poderia masculinizar a identidade das crianças e jovens. Se por um lado esta teoria advoga a entrada do homem em esferas tradicionalmente femininas, o que poderia ser visto como um “avanço” no sentido da igualdade de género nos cuidados às crianças, por outro lado, fá-lo pela via do anti-feminismo atribuindo-lhe o perigo da subversão da identidade masculina.
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Noutro espectro do estudo dos homens desenvolveram-se observações teóricas que se entendiam como pro-feministas. Estas correntespesquisavam a masculinidade e as transformações do lugar dos homens na vida pública e privada e aproveitavam os estudos das mulheres para pesquisar as transformações do lugar do homem na família e na sociedade. Os Men’s Studies, são exemplo deste tipo de aproximação teórica (ver por exemplo: Michael Kimmel, Michael Kaufman, Henry Brod ou Victor Seidler). Esta observação do “mundo dos homens” faz a leitura da relação destes com as obrigações profissionais, o modo como estas obstam a sua presença na vida familiar e as tensões de conciliação entre ambas as esferas. Segundo esta corrente teórica são as obrigações profissionais (fonte crucial de identidade) que não permitem os homens entrar na vida privada e que vedam o seu envolvimento com os filhos e os cuidados a estes. Não são apenas as mulheres que sentem a necessidade e a tensão em conciliar família e trabalho, os homens também sentem a pressão de relacionar de forma equilibrada a vida profissional com a vida familiar.
Os Critical Studies of Men, com autores como Jeff Hearn (critical studies of men), Connell (masculinidade hegemónica), David Morgan, Keith Pringle e Miguel Vale de Almeida (1995), postulam que o conceito de masculinidade que não se pode separar do sistema de relações de género e das práticas dos homens. Aqui dá-se particular enfoque às práticas masculinas na apreensão dos processos de produção da masculinidade (as relações pessoais e sociais, a vida privada e a intimidade, etc). A masculinidade é aqui trabalhada como um conceito multidimensional onde as exigências feitas ao homem na atividade profissional e na vida privada (marido, pai, cuidador, educador, etc.) se contrapõem com a definição hegemónica de masculinidade. Marsiglio (1992), um dos autores desta corrente teórica, defende que a própria construção do papel de pai também deve ser compreendida na relação estabelecida com a mãe da criança e, ao mesmo tempo, no impacto da vida profissional e nos seus valores de masculinidade. O autor refere ainda a importância dos significados atribuídos às transições para a paternidade (a idade com que se tem o primeiro filho, o modo como foi sentida a notícia de que se vai ser pai, como é ser pai depois do fim da conjugalidade, etc.). Therborn (2004), outro autor que se insere nesta matriz, afirma a centralidade da relação do pai com a criança para a redefinição do masculino sendo por isso a reconstrução da identidade masculina feita de afetos.
Com isto, as identidades masculinas passaram a incluir a paternidade no seu espaço de afirmação (Hobson, 2002, Marsiglio, 1995). Beck e Beck-Bernsheim (1995)
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associando a esta nova atribuição a individualização na família como processo que conduz a uma maior necessidade de identificação e proximidade. Hayhood (2003) adita a esta ideia a perspetiva de que a identidade paterna passou a ser sentida como um elemento que define o estilo de vida dos homens conduzindo, em caso de divórcio, a combates jurídicos pelos seus direitos enquanto pais na guarda dos filhos.
Mais, no caso da guarda conjunta com residência alternada, aqui com Seltzer e Brandreth (1994), a identidade paterna deixa de estar associada ao papel tradicional de provedor e passa a estar mais ligada aos cuidados, à orientação, ao acompanhamento educativo e emocional e à gestão do dia-a-dia. Neyrand (2004b) acrescenta que neste quadro de residência alternada facilita o envolvimento dos pais uma vez que o podem fazer de acordo com os tempos que lhes dizem respeito.
Dermont (2008) assumindo a intimidade como um conceito central na compreensão das relações humanas, sugere que a paternidade deve ser observada sob a perspetiva da intimidade. Para a autora, esta intimidade resulta da relação entre as tarefas parentais e o tempo passado com as crianças. Passar mais tempo com os filhos é aqui pensado como um dos indicadores de mudança de atitude face à paternidade pois testemunha uma construção da identidade associada a uma relação próxima e intensa com as crianças. Contudo, esta associação não é sentida, pela autora, como direta porque segundo esta, existem homens que estão profundamente envolvidos com o seu papel de pais, mas que não estão o tempo todo com os filhos, acrescentamos aqui o caso específico das famílias monoparentais masculinas com guarda partilhada e residência alternada.
Em alguns estudos, na construção da identidade masculina, esta intimidade desenvolvida entre pai e filhos não se pode dissociar dos cuidados prestados à criança. Segundo Hayhood (2003) a associação entre intimidade e cuidados à criança é, para alguns homens, um indicador de masculinidade e de distanciamento face às gerações anteriores que se caracterizavam por uma paternidade distante.
Mais, para vários autores a relação com os filhos é mesmo o caminho até conjugalidades mais igualitárias nos cuidados aos filhos (ver por exemplo, Bjornberg, Ulla e Kollind, Anna-Karin, 1996; Coltrane, 1996; Daly, 1996; Torres, et al, 2004; Wall e Guerreiro, 2005) e modelos de paternidade onde a relação com os filhos é tida como muito importante, próxima e intima (Dermont, 1998; Wall, Aboim e Marinho, 2010).
Ainda relativamente a esta questão da relação de intimidade emocional entre pais e filhos Fox e Bruce (1999) afirmam que, após um divórcio, existem duas formas
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de pais muito envolvidos com os filhos reagirem aquando da atribuição da guarda das crianças: por um lado, encontram uma atitude em que os pais estão tão seguros da sua relação com as crianças que não se preocupam em estabelecer dias rígidos para estar com os filhos porque sabem que o elo entre ambos se vai manter; por outro lado encontram pais que investiram tanto numa relação com os filhos que a ideia de terem menos tempo para estar com eles os faz sentir mais tensos e a necessitar dias específicos para cuidar e estar com os filhos.
Em síntese, nos últimos anos tem-se observado que a paternidade tem tomado importância como espaço de construção social de masculinidade. As diversas formas de ser pai têm sido debatidas por diversos autores colocando em causa a construção da identidade masculina apenas centrada na vida pública profissional (Baker, 1994, Doucet, 2004, Marsiglio, 2000). A identidade masculina vai-se associando à ideia de homem afetuoso e cuidador que tem uma identidade individualizada na família cultivada na relação com os filhos (ver por exemplo, Castelain-Meunier (2002); Segal 2007); Aboim 2010).
Como vimos, diversas têm sido as teorias desenvolvidas ao longo dos tempos em torno da questão da conciliação família-trabalho. Dos primeiros estudos centrados nas mulheres aos que se começaram a desenvolver nos finais do século XX voltados para os homens percebemos que a vida familiar e profissional se entrelaçam numa série de cortes e recortes que acabam por definir a vida de todos os dias. As mudanças na organização económica, jurídica e simbólica foi da sociedade foram acompanhadas, como não poderia deixar de ser, por transformações também ao nível dos comportamentos, valores e relações sociais de género. As mulheres assumiram novos papéis na vida pública e privada e ganharam estatuto social, familiar e político, os homens foram libertos de definições normativas de masculinidade e abriram caminho para a vida familiar e a parentalidade enquanto formas de definição da sua identidade.