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Os estudos sobre os efeitos colaterais de um acordo como o TLCAN são importantes numa conjuntura em que os blocos econômicos se expandem cada vez mais para a integração das economias nacionais, posto que projeto da Parceria Transpacífica estimulado pelos EUA se baseia em pressupostos semelhantes ao do TLCAN (STIGLITZ & HERSH, 2015). O atual presidente Enrique Pena Nieto (2012 - 2018) do PRI segue estritamente a cartilha dos seus antecessores priístas, utilizando dos aparelhos midiáticos e a força estatal para seguir adiante com reformas educativas, a reforma energética e a abertura comercial.

No México, a promessa de desenvolvimento sócio-econômico a partir da industrialização causou um aprofundamento das desigualdades sociais e de trabalho, estruturando uma “Questão Meridional” com as diferenças socioeconômicas das regiões Norte e Sul do México, bem como entre a mão-de-obra barata das maquilas e o trabalhador semi-especializado (geralmente estrangeiro) para as funções informatizadas do modo de produção (HANSON, 2003).

73 Anterior ao processo eleitoral, López Obrador aparecia nas pesquisas com ampla vantagem em relação ao candidato do PAN. Contudo, quando os resultados oficiais saíram Calderón havia vencido com 0,6% de vantagem. A contestação popular do resultado pediu pela recontagem voto por voto, mas a resposta do Instituo Federal Eleito foi a recontagem a partir de uma amostra nada significativa (cerca de 20%) (HILSENBECK FILHO, 2007).

Figura 4: Taxa de crescimento anual da manufatura mexicana (% PIB)

Fonte: Banco Mundial, 2015.

A partir do Gráfico 1 é possível perceber que o México entra nos 90 com um nível de industrialização bastante elevado, já como consequência das políticas aplicadas no decorrer dos anos 80. Após a crise de desvalorização do peso mexicano de 94, em 1996 o México chega a um crescimento anual das manufaturas na composição do PIB a quase 10%. O discurso “modemizador” do PRI/PAN na presidência em relação ao setor energético foi tão forte, que apesar de ser um importante exportador de petróleo, a economia mexicana não parece ter se beneficiado estruturalmente do boom econômico presenciado na América Latina por meio da elevação dos preços das commodities nos anos 2000 (PINTO & CINTRA, 2008) apresentado no Gráfico 2. A manutenção deste tipo de modelo exportador guiado 70% para a América do Norte intimida até mesmo alguma postura mais pragmática com a China, fato bastante recorrente com os Estados latino-americanos contemporaneamente. A Tabela 374 demonstra o alto grau de industrialização da economia

74 A composição do NOC foi feita a partir da média simples dos países utilizados por Arrighi, Silver e Brewer (2003, p. 12), sendo estes: Canadá, Estados Unidos, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Suécia, Suíça, Reino Unido, Grécia, Irlanda, Israel, Itália, Portugal, Espanha, Austrália, Nova Zelândia e Japão.

mexicana, na qual a produção de manufaturas na composição do Produto Interno Bruto (PIB) é maior do que a do centro econômico mundial.

Figura 5: A expansão das commodities na América Latina

anos Produção de Petróleo (% do

PIB) México

t Produção de Petróleo (% do PIB) América Latina > Mineração (% PIB) México

Mineração (% PIB) América Latina

ço 2.00

o.

se 1.00

1994 1996 2000 2001 2002 2008 2012

Fonte: Banco Mundial, 2015.

Tabela 3: Manufaturas em relação ao PIB - NOC e México

Manufaturas (% PIB) 2000 2010

México 17,7% 15,6%

N.O.C. 14,7% 14,2%

Fonte: Banco Mundial, 2015.

Uma industrialização baseada na oferta de manufatura de baixo valor-agregado para os EUA e Canadá a partir do capital externo acabou tornando o México refém de seus principais parceiros comerciais (ver tabela 4 sobre os maiores compradores dos produtos e serviços mexicanos). Em 2008 no Gráfico 1 a queda do crescimento das manufaturas é um reflexo da redução de importações das manufaturas principalmente pelos EUA. A especialização produtiva de baixo-custo que motivou a industrialização mexicana gerou um parasitismo econômico que se mantém no decorrer das décadas. O México só volta a

demonstrar um bom desempenho depois da estabilização econômica dos EUA e o suficiente para ser simbolizado na economia internacional como um ótimo foco para a realização de investimentos. A própria causa da estagnação econômica no período anterior parece ser a explicação para os fatores econômicos eficientes do México, apontados pelas revistas financeiras.

Tabela 4: Destino das exportações mexicanas

1995 2012

Países % das exportações mexicanas Países % das exportações mexicanas

EUA

77,9%

EUA

70,18%

Canadá

4,30%

Canadá

5,43%

Japão

1 73%

Espanha

2,12%

Espanha

1,17%

Chile

1,89%

Brasil

1,13%

Colômbia

1,78%

Alemanha

0,87%

Brasil

1,70%

Chile

0,84%

Alemanha

1,54%

França

0,72%

Japão

1,13%

Bélgica

0,70%

Índia

1,01%

Reino Unido

0,67%

Reino Unido

0,90%

Fonte: OEC, 201 5.

Os dados da industrialização mexicana atraentes para os investidores internacionais são capazes de mobilizar as forças sociais necessárias para a manutenção do bloco histórico, mas não parecem refletir em progresso para a sociedade do México. A “ilusão Desenvolvimentista” de Arrighi (1995) qualifica o caso estudado, uma vez que o desenvolvimento da indústria, e, portanto, a modernização econômica, dificilmente resultaria na criação de um espaço econômico dinâmico devido ao caráter oligárquico das riquezas no sistema-mundo. A industrialização aparece neste contexto não como modelo de desenvolvimento sócio-econômico, mas enquanto reorganização da divisão internacional do trabalho (COX, 1987). O Gráfico 3 e a Tabela 5 se referem a esta problemática, uma vez

aparente a grande distância entre o Produto Nacional Bruto (PNB) per capita do México e o NOC75.

Figura 6: O PNB per capita do México e do NOC (1994 - 2012)

§ a. (j w ha. M am z CL 40.000. 00 35.000. 00 30.000. 00 25.000. 00 20.000. 00 15.000. 00 10.000. 00 5,000.00 0.00 6,964.72 6,627.25 1994 1996 32,494.93 33,078.54 27

:

872.12 " - 160-29 36,395.58 36,539.99 7,600.34 7,401.19 8,123.40 8,259.02 2000 2002 anos 2008 2012

■ Mexico — Principais Países da OCDE

Fonte: Banco Mundial, 2015

Tabela 5: PNB per capita - NOC e México

PNB Per Capita

(dólar de 2005) 2000 2010

México $7.600,34 $7.999,43

N.O.C. $34.554,77 $38.091,74

Fonte: Banco Mundial, 2015.

A inserção mexicana estritamente pró-sistêmica se consagra como de modelo de desenvolvimento para a mídia internacional ao ser apontado enquanto capaz de atravessar determinadas fronteiras tecnológicas na produção de manufaturas, distanciando-se assim de países latino-americanos como o Brasil, e se aproximando do NOC (FINANCIAL TIMES, 2015). Porém, a configuração social do país não reflete o bom desempenho no cenário internacional. Diferente da região da América Latina nos últimos anos, o México

75 Para o Gráfico 3 o NOC foi considerado os países de maiores rendas da OCDE, já na Tabela 5 ele é formado pela média simples dos países citados por Arrighi, Silver e Brewer (2003, p. 12).

permaneceu quase uma década estagnado em relação ao número de pessoas abaixo da linha da pobreza. Em 1996, ano no qual o México tem seu maior crescimento na produção de manufaturas no Gráfico 1, o país passa por um drástico aumento da taxa de pobreza, e a partir da crise de 2008 a pobreza tem voltado a crescer conforme o Gráfico 4.

Figura 7: População mexicana pobre e abaixo da linha da pobreza (1994 - 2012)

Fonte: CEPAL, 2015.

No campo político, a hegemonia tem se confrontado com diversas forças contrárias ao exercício do poder do Estado provenientes da sociedade civil. O emprego informal se tornando comum na sociedade mexicana76, as condições de mão-de-obra irregulares e o acionamento abusivo dos paramilitares tem proporcionado a corrosão das bases de legitimação ideológica da sociedade política. Ao passo que a mídia internacional prevê um desenvolvimento estável para o México, a partir da sociedade civil surgem campanhas como Yo Soy 132 e Somos 43. A primeira faz referência ao movimento estudantil que denuncia sobretudo o controle midiático exercido pelo partido de Pena Nieto (EL PAÍS, 2015). A segunda se trata do desaparecimento de 43 estudantes normalistas após entrarem em confronto com as forças do Estado mexicano num protesto contra o narcotráfico na região, a qual ganha apoio internacionalmente (LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL, 2015),

depois da negligência do presidente em tratar do caso, e atualmente mesmo sob diversos protestos considera o assunto encerrado. O zapatismo é uma das forças sociais que agem na contra-corrente da revolução passiva midiática:

Pais e mães dos jovens estudantes desaparecidos da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos de Ayotzinapa, Guerrero, México (...) queremos dizer-lhes que nós, os zapatistas, temos acompanhado os protestos e as manifestações que foram realizados no México e no mundo, ainda que na mídia paga não apareçamos com nossos atos de dor e raiva, mas sim, queremos dizer que temos participado com atos reais e verdadeiros (EZLN, 2014, tradução nossa).

A imagem do México neoliberal colocada como promissora pelos analistas econômicos precisa lidar com a crescente insatisfação interna, e o desdobramentos que isso tem proporcionado na complexa sociedade civil mexicana. Após mais de 20 anos de EZLN, as condições no campo e na cidade pioraram desde a rebelião (Moisés, 2017). O caos-povo que surge da acumulação de fraturas da hegemonia parece dar novos caminhos para a estratégia zapatista. No vigésimo aniversário e V Encontro do CNI, o EZLN e os membros do Congresso anunciam a proposta de consulta popular para apesentar uma mulher indígena candidata às eleições de 2018. Dizem:

Ratificamos que nossa luta não é pelo poder, não o buscamos; mas que chamaremos aos povos indígenas e à sociedade civil a nos organizarmos para parar essa destruição, fortalecer-nos em nossas resistências e rebeldias, é sair em defesa de cada pessoa, cada família, coletivo, comunidade ou bairro. Para construir a paz e a justiça nos rerrotacionando a partir de baixo, desde onde somo o que somos (...) É a hora da dignidade rebelde, de construir uma nova nação por e para todas e todos, para fortalecer o poder de baixo e a esquerda anticapitalista, de que paguem os culpados pela dor dos povos deste México multicolor (EZLN, CNI, 2016, tradução nossa).

É evidente que este posicionamento novamente abriu espaços para discussões polêmicas sobre os verdadeiros interesses dos rebeldes. Antes de tudo, como lembrado por Diez (2011), o zapatismo se trata de um movimento em movimento. No decorrer da história da resistência os zapatistas estiverem alinhados com a defesa institucional da autonomia de jure, bem como a construção “para dentro” da autonomia de facto. De fato, após a Sexta a segunda estratégia se consolidou, mas isso seria o suficiente para dizer que os zapatistas detêm uma teoria fechada sobre o poder? E, portanto, estão mais interessados nos seus próprios benefícios do que aprender, ou melhor, praticar-aprender pluralmente? Se acusados de fazer o jogo da política tradicional, “será a sociedade mexicana em geral e os povos indígenas em particular, os que decidiram se este caminho é ou não útil para transformar o país” (NAVARRO, 2016)