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7. Eksempelstudier og mekanismer for materialvalg (delakt. B)

8.2 Entreprenører

Para os teóricos pragmáticos119, o corpo do homem seria por natureza a sua ferramenta, inserido num ambiente competitivo, não só no âmbito esportivo, como também na sociedade capitalista, em que, segundo Elias, a vida é regida pelo jogo e pela disputa incessante do homem nas diversas figurações sociais120. Dessa forma, “o esporte moderno” ajudaria a conformar o cidadão, no sentido mesmo da sua disciplinarização e adaptação ao meio social, discurso que invadiu o “mundo futebolístico” (como veremos adiante). René Maheu, diretor da UNESCO, ilustrou tais prerrogativas:

Trata-se do poder do esforço ou da harmonia da personalidade, do sentido de justiça que implica o respeito às regras ou, como na prática do desporto e no espetáculo esportivo, da fraternidade de classes, raças e povos, altos valores éticos que são afirmados em nossa civilização moderna mais pelo desporto que por qualquer outro movimento. Não conheço nenhum movimento social, ideológico ou intelectual que possa fazer compreender de maneira tão direta à juventude, a todas as classes sociais e a todos os povos, além das fronteiras de raça e de línguas, além das barreiras políticas, todos esses valores fundamentais.121

Maheu esboça seu pragmatismo claramente quando expressa o “respeito às regras”, “fraternidade entre os povos” e “altos valores éticos”, o ideário do mundo das Copas da FIFA (Fédération Internationale de Football Association) e também dos Jogos Olímpicos, nos quais o espírito do “Fair Play” deveria prevalecer, discurso ainda recorrente nos dias atuais. O “esporte moderno” como uma possibilidade sem igual de integração entre os brasileiros e

119 O termo “pragmático” serve aqui como concernente à ação e ao bom êxito da atividade física, transformada

nesse momento em atividade esportiva moderna. Não confundir com a corrente filosófica metafísica, surgida no século XIX, que prega que o sentido de uma ideia corresponde ao conjunto dos seus desdobramentos práticos.

120 ELIAS, Norbert. Norbert Elias por ele mesmo. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 121 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1973, p.54.

entre os povos no mundo inteiro. Essa foi a premissa básica do ideário pragmático e da maioria dos pensadores vinculados à caserna brasileira.

O esporte, dessa forma, é tomado como agregador social, capaz de congregar nações, classes e indivíduos. Nota-se a tradição do Olimpismo e dos torneios da Copa do Mundo de Futebol, assunto oportuno em um país que se cristalizava como o “país do futebol”. Somado a isso havia a tentativa de associação do esporte com o desenvolvimento econômico que vivia o país, como se percebe num dos artigos da RBEF, no qual a posição oficial era defendida pelo chefe do Departamento de Educação física (DED), Eric Tinoco Marques:

Pelos pontos abordados, depreendem-se a importância dada pelo governo ao setor da Educação Física e dos desportos no país e o acerto das medidas administradas adotadas. Pretendendo fomentar a criação de uma “mentalidade esportiva” e dar ao povo uma adequação física condizente a nossa posição de nação em desenvolvimento, adotou o governo a sistemática ora em execução, que ao final do prazo estabelecido, nos propiciará o devido destaque nas competições esportivas internacionais, tais como jogos olímpicos e campeonatos mundiais de futebol. Como conseqüência do trabalho global, nunca como objetivo específico de efeito imediato. E aí reside o ponto fundamental da opção brasileira: chegaremos ao tratamento da elite, mas o ponto de partida é a massa estudantil, tratada de modo uniforme. Sem distinções nem muito menos privilégios. Nos anos 80, não nos surpreenderemos com os destaques internacionais que empolgarão as cores brasileiras – eles estão sendo cuidadosamente plantados hoje.122

Essas palavras expressavam o princípio clássico da orientação pragmática: o desempenho esportivo como um fim em si mesmo, a busca da vitória, o alto rendimento. O sucesso esportivo deveria ser condizente como o sucesso econômico que o país alcançava. Oportunamente, o esporte de alto rendimento, principalmente o futebol, foi utilizado como forma de propaganda política e de afirmação nacional. Exemplo disso é a associação do Selecionado de futebol da Confederação Brasileira de Desporto (CBD), uma entidade de caráter privado, com a seleção brasileira de futebol. Para muitos, a seleção seria patrimônio público da nação – não por acaso a propaganda do governo não cansava de mostrar Médici dizendo que “11 homens jogavam por 90 milhões”.123

Assim, o governo projetava:

122 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1972, p.85-6. 123 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo. Rio de Janeiro: FGV, 1997, p.45.

Pelo menos estamos nos esforçando no sentido de implantar uma estrutura para o esporte brasileiro. A alimentação básica do sistema proveniente do Diagnóstico de Educação Física e Desportos no Brasil, mais os conhecimentos de ordem prática da antiga Divisão de Educação Física do MEC. Em linhas gerais, pelas possibilidades previsíveis, foi estimado um período de 10 anos para que o sistema alcançasse o seu funcionamento pleno e efetivo. Este planejamento prendeu-se aos objetivos gerais de: elevação no país do nível da Educação Física integral; elevação no país do nível do desporto; elevação no país do nível de recreação ativa e passiva.124

A projeção do governo Médici era ousada e um tanto utópica, haja vista que nessa época o país possuía não mais que 15 escolas de Educação Física, segundo dados já referidos encontrados no Diagnóstico. Mas, para tentar alcançar tal projeção, o governo, sob a direção do MEC, começava a sistematizar a prática de atividades físicas (leia-se esporte moderno, em especial o futebol) dentro das escolas. Ou seja, a tão propalada potência olímpica dava espaço para a futebolização da nação, já que os recursos do governo, a partir da Loteria Esportiva, foram, em sua maioria, para os clubes considerados “grandes”, e nessas entidades o futebol sempre foi o esporte predileto dos “cartolas”. Assim, pouco foi investido (em longo prazo, como nos EUA, por exemplo) para a formação do atleta, apesar do debate contraproducente dos teóricos pragmáticos:

Para a montagem do sistema de Educação Física e desportos, no caso do Brasil, foi adotado o modelo piramidal (base: desporto de massa; ápice: elite desportiva) coerente por si mesmo e que traduz o consenso internacional para o ideal de política nacional (as proporções das faixas da pirâmide indicam prioridades). São disponíveis outros modelos, em graus diversos de generalização, que servem tanto à geração de política como à simples elaboração de projetos de desenvolvimento. No caso ora em estudo, o diagnóstico deve conjugar-se com a identificação dos objetivos desde o início da ação governamental dentro do modelo acima examinado, prevendo as melhores condições possíveis para a efetividade da atuação administrativa. Em termos práticos, esse enfoque pode ser delineado partindo-se da análise comparada conjuntural da Educação Física e Desportos em outros países, procurando-se determinar tendências globais. Esse tipo de referência permitiria classificar criteriosamente os eventuais desvios da situação montada no diagnóstico, bem como constituiria procedimento mais seguro do que exercícios de projeções futuristas. Uma apreciação analítica de estudos realizados em nosso país, assim como de informes coletados no exterior, mostra significativa convergência sobre os aspectos que se seguem, importando relevar a consonância obtida por intermédio do “Manifeste sur Le Sport”, difundido pelo “Conseil International pour

I‟Éducation Physique ET Le Sport” da UNESCO, documento básico para objetivos de planejamento.125

Nota-se que o projeto para a Educação Física seguiu um modelo europeu- estadunidense, ou seja, de fora para dentro. Não deixa de ser um equívoco a negligência aos aspectos culturais brasileiros, assim como às desigualdades econômicas dos Estados, o que levou o governo Médici a não alcançar o êxito desejado, conforme evidenciam os indicativos de falência daquela perspectiva, como a reedição desse discurso após o insucesso dos atletas brasileiros nos jogos Olímpicos da Austrália, em 2000, na Grécia, em 2004, e na China, em 2008. Parece que, mais de 40 anos depois do projeto militar para os esportes, o Brasil está longe de se tornar uma potência esportiva, tendo ficado em 23º lugar nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, atrás de Cuba e Jamaica, por exemplo.

Voltando à década de 1970, Eric Tinoco Marques, diretor do DED/MEC, em outro editorial da RBEF, é incisivo na determinação das obrigações que deveriam ser cumpridas sobre o esporte, mais especificamente ao comando do esporte estudantil no Brasil:

A importância do desporto estudantil é óbvia por si mesma e dispensaria outros comentários. Falar do desporto estudantil é falar do futuro do desportivo nacional; apontar acertos e desempenhos é antever performances e alegrias. Neste quadro, cabe sempre uma pergunta sobre a competência, e a responsabilidade pela promoção da categoria. Assim o desporto estudantil afeito ao sistema desportivo estabelecido através do Decreto n. 66.967, de 27 de julho de 1970, que criou o Departamento de Educação Física e Desportos. O DED, por delegação, transferiu a execução, na área estadual, aos respectivos departamentos de Educação Física e Desportos, e nesta transferência enquadra-se o desporto estudantil. Que ele é importante todos sabemos. A quem cabe a competência acreditamos tenha ficado bem claro.126

Esse artigo é de extrema relevância no sentido de se vislumbrar como o debate assumia um tom de bravata. Apesar do investimento em alguns esportes para forjar a potência olímpica, o que se viu foi a invenção do país do futebol, haja vista que a conquista do tricampeonato mundial, no México, sedimentou (ou criou?) essa máxima. A tônica governamental foi provocar o sentimento de disputa, despertar o acirramento e o sentimento de vitória e, por conseguinte, o nacionalismo, e para isso o futebol mostrava-se oportuno, pois a vitória nos gramados deveria ser (e foi) associada ao governo.

125 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1971, p.32. 126 Ibidem, p.32.

E a busca incessante da vitória e da glória nacional e internacional foi o ponto nodal do ideário oficial dos militares, corroborado por um debate internacional que passava pelo “Olimpismo” e pelas reuniões da FIFA, órgão máximo do futebol, que estimulava o torneio quadrienal, no qual a busca do sucesso era prerrogativa máxima das seleções de cada país, como se cada selecionado incorporasse “belicamente” o país representado, numa disputa que Norbert Elias chama de “guerra simbólica”.127

Foi nessa época que o esporte associou-se ao civismo, e isso veio atrelado a uma sociedade individualista e competitiva. Ou seja, o esporte, na visão pragmática, educava, mas educava para a vida no sentido liberal da sociedade. Competir é importante, mas a vitória seria muito mais. Empunhar a bandeira numa vitória olímpica ou numa conquista de Copa do Mundo tornava-se a aceitação dessa política, política essa de exaltação nacionalista, procurando mostrar ao mundo que o país crescia não só economicamente, mas também esportivamente, que o Brasil era grande, que o Brasil era potência.

O jovem com aptidão deveria ser descoberto na escola, passando a atuar e a se sobressair nos jogos infantis, depois nos jogos universitários, depois nas delegações nacionais para, no fim da pirâmide, ser um expoente a içar a bandeira nacional para o mundo. O Brasil- Grande-Potência precisava afirmar-se no plano internacional e o esporte era um dos meios por excelência para cumprir esse papel.

Nesse sentido, o futebol, esporte mais praticado entre os brasileiros, foi alvo maior da propaganda e da ingerência do estado autoritário, em conluio com a CBD. Daí surgindo o fenômeno que esta tese denomina de “futebolização da nação”, a construção/invenção e cristalização do Brasil como país do futebol e a coroação de Pelé como o rei negro de sangue azul. Indubitavelmente, esse jogador foi a síntese da vitória e do sucesso não só dentro dos campos, como também fora deles.

O discurso pragmático adentrou o futebol justamente quando o esporte moderno adentrou a Educação Física. A ciência, tão apregoada pelos teóricos tecnicistas, entraria em campo de forma acachapante para nunca mais sair. A mistura entre a arte de Pelé, por exemplo, e seu pleno condicionamento e preparo físico teria sido a chave do sucesso na Copa do Mundo em 1970.