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Para Taylor, o tema da moral sempre envolve valorações fortes (strong

evaluations), ou seja, uma diferenciação do que é certo ou errado, melhor ou pior, de acordo com padrões que não escolhemos, mas que são independentes e os quais só podemos reconhecer (TAYLOR, 1989, p. 4); tais valorações ocorrem no sentido de distinções qualitativas (qualitative distinctions ou qualitative discriminations) dentro de quadros (frameworks) em que nos localizamos sempre a partir de noções substanciais do Bom. Em um quadro de distinções qualitativas, não nos referimos sempre a um só Bem, mas a uma pluralidade deles. Desse mesmo modo, também hierarquizamos esta lista de Bens de acordo com Bens superiores, os hyper-goods, que são Bens incomparavelmente mais importantes que outros e que servem de critério pelo qual outros são avaliados (TAYLOR, 1989, p. 63).

Um indivíduo assim “localizado” em um espaço moral “fortemente valorado” é um Self, um ser complexo e profundo o suficiente para ter uma identidade (TAYLOR, 1989, p. 32). A identidade de um Self fornece um quadro ou horizonte através do qual ele determina o que é valioso, bom, obrigatório (TAYLOR, 1989, p. 27). Este Self, além disso, está sempre inserido em uma rede de interlocução em meio a uma comunidade linguística: somente formamos nossa identidade ou rompemos com nossa tradição através do diálogo com outros, ou seja, “[s]ó se é um Self entre outros Selves” (TAYLOR, 1989, p. 35). A definição da identidade faz referência ao mesmo tempo ao indivíduo e a uma comunidade definidora (TAYLOR, 1989, p. 36).

Para Taylor, Rawls, assim como Kant, não executa uma articulação completa do fenômeno moral, pois reduz a racionalidade moral a partir de uma lista limitada de razões básicas. Ainda que pretenda fazer jus a nossas intuições, Rawls elimina de seu dispositivo da posição original qualquer relação às concepções do Bom dos agentes. A tentativa de uma congruência entre o Justo e o Bom a partir de uma teoria fraca do Bom também fracassa: estes Bens seriam meros Bens fracamente valorados. Como esclarece Mattos (2007, p. 43),

enquanto valorações fortes avaliam o valor qualitativo de nossos desejos, em valorações fracas, o que se sopesa são os resultados das ações, sendo o Bom definido pelo que é subjetivamente desejado. Para Taylor, tanto os princípios da justiça de Rawls como seus Bens primários, uma vez articuladas as intuições a eles subjacentes, pressupõem uma teoria forte do Bom (TAYLOR, 1989, p. 89). Segundo o autor, a noção do Bom “é aquilo que, em sua articulação, direciona as regras pelas quais se define o que é justo” (TAYLOR, 1989, p. 89); em razão disso, o Bom tem prioridade sobre o Justo, não o contrário.

Para entender esta proposição de Taylor, é preciso entender que o uso do termo

articulação não é trivial e indica um sentido profundo da teoria do filósofo, o de uma ontologia moral e uma antropologia filosófica. Fortemente influenciado pela tradição hermenêutica, Taylor entende concepções como do Self, das distinções qualitativas e da valoração forte enquanto considerações ontológicas de um ser humano sempre engajado em um processo de autointerpretação, somente possível em um horizonte linguístico, onde a linguagem não é meramente instrumental e designativa, mas expressiva e constitutiva do sentido (MATTOS, 2007, p. 48-49). Levando em conta esta configuração, questões

ontológicas referem-se “ao que vocês reconhecem como os fatores que invocariam a fim de

explicar a vida social”, ou “concerne aos termos que vocês aceitam como últimos na ordem da explicação” (TAYLOR, 2000, p. 197).

A ontologia do Self de Taylor, que depende de contextos comunitários para a constituição da identidade, é de caráter holista. A posição contrária, que Taylor define como

atomismo ou individualismo metodológico, entende ser possível explicar ações, estruturas e condições em termos de constituintes individuais, assim como explicar bens sociais como uma concatenação de bens individuais (TAYLOR, 2000, p. 197). Para os holistas, este enfoque individualista não é coerente com a própria constituição da sociedade e das relações entre pessoas. O efeito da posição atomista é uma inarticulação das fontes do Self, que resulta na compreensão da filosofia moderna (em especial de John Locke) de um Self neutro ou Self pontual, como um ponto isolado, abstraído de considerações constitutivas da identidade (TAYLOR, 1989, p. 49), desengajado, portanto, da práxis responsável inevitavalmente por sua formação.

A inarticulação moderna da ontologia moral tem para Taylor estreita relação com fatores históricos, epistemológicos e noções morais da modernidade. Historicamente, a modernidade traz a noção liberal de direitos subjetivos, segundo a qual a submissão à lei dá

lugar a uma espécie de imunidade protegida por normas universais (TAYLOR, 1989, p. 11). Não existe, além disso, nenhum horizonte moral obrigatório para todos, mas, sim, múltiplos quadros, bastante problemáticos (TAYLOR, 1989, p. 17).

Já a epistemologia moral moderna é de teor naturalista. O naturalismo é descrito por Souza (2012, p. 27) como “a tendência moderna (…) de desvincular a ação e a experiência humana da moldura contextual que lhe confere realidade e compreensibilidade”. Para Taylor (1989, p. 80-81), isto ocorre porque o naturalismo substitui descrições ligadas à cultura por descrições absolutas das relações humanas, e não consegue compreender o Self, pois só reconhece objetos considerados sem relação com os sujeitos ou suas interpretações e apenas enquanto capturáveis por descrições explícitas e independentes de um contexto (TAYLOR, 1989, p. 33-34).

Motivos que Taylor chama de espirituais, ou morais, são ainda mais reveladores. Segundo Taylor, a moral moderna e o liberalismo priorizam o Justo sobre o Bom para evitar a dominação de uma doutrina ou forma de vida em prejuízo dos interesses da vida humana em geral, advogando a independência do sujeito contra a autoridade externa e apoiando a benevolência prática. O abandono das ideias de vida boa ocorre em nome da justiça, do altruísmo e da busca de uma ética universal. Liberdade, altruísmo e universalismo são, dentre outros, os ideais morais (os hyper-goods) subjacentes às teorias modernas. É assim que a razão procedimental só se explica por uma razão substancial, porque se refere a estes termos substanciais (TAYLOR, 1989, p. 85).

Taylor busca, portanto, mostrar que posições liberais não conseguem articular pressupostos de seus próprios princípios políticos, e que sua articulação pode levar a adaptações a outras convicções (como do comunitarismo) (MULHALL, 2004, p. 106). Com esta discussão, a disputa entre holismo e atomismo deixa de ser politicamente ingênua: ela tem consequências diretas para o modelo de política, ou seja, para as questões de defesa. Para Taylor, questões de defesa referem-se “à posição moral ou à política que se adota” (TAYLOR, 2000, p. 198), que pode se dividir entre uma posição individualista, que dá prioridade aos direitos individuais e à liberdade, e a posição coletivista, que dá prioridade a posições comunitárias e bens das coletividades. A relação entre questões de defesa e questões ontológicas se dá como uma certa relatividade do pensamento político. Assim, não é uma determinada visão do que é a sociedade ou o agente social que irá determinar, aprioristicamente, qual a posição política verdadeira.

Para Taylor, é claramente possível que haja atomistas do ponto de vista ontológico que sejam coletivistas do ponto de vista político, e assim com todas as combinações possíveis. Taylor chega a dizer que a posição da liberal procedimental pode ser defendida num ponto de vista ontologicamente holista (TAYLOR, 2000, p. 214) (ou seja, que explica a sociedade política como uma realização necessariamente comunitária). Entretanto, as teses ontológicas, uma vez verificadas, definem qual o campo das posições políticas possíveis. Nas palavras de Taylor, as duas discussões são distintas, pois não garantem uma inclinação automática de uma a partir da outra, mas “o nível ontológico pode ser parte do pano de fundo essencial da concepção que se defende” (TAYLOR, 2000, p. 198). Mais explicitamente, diz Taylor:

Assumir uma posição ontológica não equivale a defender alguma coisa; contudo, ao mesmo tempo, o ontológico ajuda de fato a definir as opções que é importante sustentar por meio da defesa. Esta última conexão explica que as teses ontológicas podem estar longe de ser inocentes. Sua proposição ontológica, se verdadeira, pode mostrar que a ordem favorita de seu vizinho é uma impossibilidade ou acarreta um preço que ele ou ela não leva em conta. (TAYLOR, 2000, p. 199)

Embora haja a relatada relatividade e abertura a concepções políticas distintas, Taylor afirma que defende politicamente uma espécie de holismo individualista (TAYLOR, 2000, p. 201), ou seja, posição “plenamente cônscia da inserção social (ontológica) dos agentes humanos, mas que, ao mesmo tempo, valoriza muito a liberdade e as diferenças individuais” (TAYLOR, 2000, p. 201). Vê-se que Taylor, assim como Sandel, entende que seu comunitarismo visa defender os Bens constitutivos da democracia moderna contra as graves consequências práticas da inarticulação ontológica. Como aponta Souza (2003, p. 605), a articulação é uma transformação discursiva dos sentimentos morais; se ausente, ela não possibilita a constituição narrativa da identidade e uma condução de vida consciente, resultando no risco de uma naturalização das fontes morais e uma perda da força condutora dos Bens constitutivos da cultura (SOUZA, 2003, p. 615). Para Taylor, o projeto político capaz de defender a comunidade política democrática e os Selves que a constituem será uma forma de holismo individualista: sua política do reconhecimento.